Ainda que eficientes, população não confia nas pesquisas eleitorais

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Por Paula Barbabela

Terça-feira, 23 de setembro de 2014, o Ibope coloca a candidata Dilma Rousseff 9 pontos à frente de Marina Silva. No Vox Populi, a diferença entre as duas é de 13 pontos. A Datafolha, divulgada três dias depois, mantém esse resultado. Já a Sensus, dona do levantamento do dia 27 de setembro, aponta redução em 3 pontos da vantagem para a candidata do PT. No segundo turno, empate. Quatro dias, três resultados diferentes.

Há mais de seis décadas, as pesquisas eleitorais são realizadas no Brasil. Mesmo com um índice de acerto de 98%, segundo estudo “Pesquisas eleitorais – avaliações e métodos de projeções”, do cientista político Marcus Figueiredo, elas geram grande desconfiança por parte dos eleitores. Manipulação dos resultados, ineficiência técnica e estratégias políticas são alguns dos receios de quem reclama desse método de avaliação da opinião popular.

Regina tem 55 anos e trabalha como bancária. Ela não acredita nas pesquisas. “Eu acho que elas são muito tendenciosas. Tem muita influência de quem está fazendo, de quem está transmitindo esse resultado”. A pós-graduada em Gestão Pública faz parte dos 59% de brasileiros que não levam em conta o resultado das enquetes de opinião eleitoral na hora de decidir o seu voto, segundo estudo feito pelo Senado em 2010. Conforme o mesmo DataSenado, quanto maior a escolaridade e a renda, menor é a tendência de uso dessas pesquisas na decisão de voto. “Não interessa quem vai votar em quem, afinal o voto é secreto, não é? Então por que tem que divulgar pesquisa? Só atrapalha”, diz a bancária.

As eleições de 1998 para governador do estado de São Paulo são um exemplo de que as pesquisas podem ter atrapalhado os eleitores. Na sexta-feira anterior ao dia de ir às urnas, o Instituto Datafolha divulgou intenção de voto de 31% para Paulo Maluf, garantido no segundo turno, e uma disputa entre Francisco Rossi (18%) e Mário Covas (17%) para alcançá-lo. Marta Suplicy com 15% não tinha chance. No resultado oficial, Rossi ficava fora do páreo, enquanto Covas passava Marta por apenas 0,4%. Em uma situação como essa, eleitores de Marta e Rossi podem ter mudado o seu voto por acreditarem que uma vitória seria impossível.

“Tem gente que só faz voto útil. Se ele vê que um candidato está indo mal, ele imediatamente passa para o outro porque é daquelas caras que não querem perder”, diz Paulo, aposentado de 67 anos. O voto útil é uma maneira de maximizar a utilidade do voto. O eleitor que pensa que seu candidato não tem mais chances devido a resultados de pesquisas, vota em outro que não gosta tanto, mas com o objetivo de impedir a vitória daquele que detesta. “O excesso de pesquisas também vai alterando a cabeça de muita gente, até por causa desse tipo de voto. É uma enxurrada semanalmente”.

Esse grande número de pesquisas feito por semana se enquadra na ineficiência técnica comentada anteriormente. No livro “O Andar do bêbado – Como o acaso determina nossas vidas”, Gene Epstein, editor de economia da revista Barron’s, explica: “Só porque o número se alterou, não devemos concluir necessariamente que a coisa em si tenha mudado. Por exemplo, a qualquer momento a taxa de desemprego se altera em 0,1%. Tal variação é tão pequena que não temos como saber se realmente ocorreu uma mudança”.

Mesmo que essa mudança não seja real, em alguns casos a variação dos números nas pesquisas pode ser determinante. Quando um candidato está na frente, segundo os dados divulgados pelos institutos, as taxas de juro, por exemplo, podem ser influenciadas. Em agosto, uma possível vitória de Marina apontava queda nos juros para janeiro. Dessa mesma forma, os resultados interferem na compra e venda de ações de Augusto, 28 anos, engenheiro e que atualmente trabalha na Petrobras. “Se a Dilma cai nas pesquisas, eu sei que é dia de vender. Para mim é vantagem esse tipo de divulgação, ajuda na especulação”.

Especular também é o que o deputado André Figueiredo, do Ceará, faz com a possibilidade de criação de uma ação que investigue os processos de pesquisa. Desde 2012, a Câmara dos Deputados tem uma proposta de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar quanto os institutos de pesquisa podem afetar as eleições. É correto afirmar que de alguma forma eles interferem no processo eleitoral. O que ocorre depende da interpretação de cada um e pode ser tanto positivo quanto negativo. Nesse caso, o resultado é empate.

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