Mídia posicionada: parcial ou imparcial?

Ana_Vaz_Fernando Morais

Por Ana Carolina Vaz

“Começa oficialmente a campanha eleitoral e CartaCapital define desde já a sua preferência em relação às candidaturas à Presidência da República: escolhemos a presidenta Dilma Rousseff para a reeleição” – jornalista Mino Carta, diretor e editor da revista CartaCapital, em editorial.

Não é comum na história do jornalismo brasileiro que órgãos da imprensa declarem apoio editorial a uma linha política ou a uma candidatura à qual eventualmente simpatizem. Nos Estados Unidos, o apoio é mais tradicional. Em 2008, dois dos mais importantes jornais norte-americanos – The New York Times e The Washington Post – defenderam, em editorial, candidaturas à presidência dos Estados Unidos. O The New York Times assumiu claramente sua preferência por Barack Obama. No Brasil, os veículos frequentemente têm posições políticas, visam sua cobertura em função de tais posturas, mas resistem a explicitar esse posicionamento em termos de apoio a um ou outro candidato ou sigla. Para o professor de sociologia política da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Jacques Mick, o período eleitoral é um momento complicado para a cobertura jornalística, pois as paixões político-partidárias dos militantes e a atuação dos especialistas intensificam a crítica sobre a imprensa. “O trabalho dos jornalistas é afetado não apenas por suas próprias convicções a respeito dos candidatos ou do contexto da disputa, mas também pelas restrições impostas pelos estrategistas de campanha”, diz.

Eduardo Meditsch, professor de Jornalismo da UFSC, acredita que a grande mídia brasileira surge em empresas familiares fortemente comprometidas com as oligarquias estaduais de suas regiões. “Desde a redemocratização do país, em todas as eleições presidenciais, a grande mídia brasileira tem distorcido fatos e manipulado informações para favorecer alguns candidatos e partidos e demonizar seus adversários diante da opinião pública”. Para ele, o posicionamento político no Brasil durante o período eleitoral acontece de maneira inversa à postura de veículos em países como nos Estados Unidos. “Aqui eles não assumem uma posição. Se declaram imparciais, mas usam todo o espaço de opinião e de informação para defender uma posição política parcial”, explica.

Na maioria das vezes, a mídia é quem pauta as discussões políticas do país, o que pode gerar um sentimento de dúvida quanto à credibilidade dos veículos. O editor de política do jornal Diário Catarinense, Upiara Boschi, explica que no período eleitoral a regra é dar espaço equilibrado a todos os candidatos. “Faz parte dessa regra não igualar candidaturas desiguais em representatividade e as pesquisas servem de baliza para que a cobertura seja adequada”. Para ele, é um direito do jornal ter ou não ter candidato, mas esse apoio, quando houver, não pode interferir na forma de exposição dos candidatos no noticiário. “O DC nunca declarou apoio a candidaturas, pois está nas diretrizes do Grupo RBS não apoiar candidatos”.

Em entrevista ao programa Espaço Público, na TV Brasil, o jornalista e escritor Fernando Morais criticou os jornais brasileiros e comparou os atuais jornalistas com Assis Chateaubriand – conhecido como o responsável pela chegada da televisão ao Brasil, inaugurando em 1950 a primeira emissora de TV do país, a TV Tupi. Para ele, os veículos hoje têm vergonha de assumir posições, diferente de Chatô que na sua opinião era muito autêntico. “Você pega a Veja, liga a TV Globo, lê a Folha, lê o Estadão, lê O Globo e é um negócio sem vergonha. A gente percebe isso, mas o grande público leitor não vê que tem uma enorme de uma armação ali por trás. O que me tranquiliza é que ninguém mais lê jornal”. (Veja mais sobre esta entrevista em http://tvbrasil.ebc.com.br/espacopublico/episodio/espaco-publico-recebe-fernando-morais )

Durante a cobertura política por parte dos veículos, outro assunto colocado em questão é o nível de credibilidade dos institutos de pesquisa. Segundo o professor de sociologia política da UFSC, Jacques Mick, as pesquisas são um tema importante, mas não deveriam concentrar toda a atenção de analistas e jornalistas, “há tópicos muito mais importantes”.

No Brasil, assumir explicitamente uma posição é raro, embora se saiba que a cobertura das eleições assume claramente um posicionamento político-ideológico. Ao assumir uma posição que já está implícita, o veículo talvez ganhe até mesmo em credibilidade e o público talvez se torne melhor esclarecido.

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