O direito de ser cabo eleitoral

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Seja por engajamento a um partido ou por um trocado a mais, o brasileiro leva jeito para o negócio

Por Lucas Weber

A remuneração é de 250 reais semanais. Cinco horas diárias, e se quiser trabalhar final de semana mais cinquenta reais por dia. São essas as condições dos cabos eleitorais contratados por comitês para balançar bandeira ou entregar santinhos em semáforos. Em época de eleição esse mercado se abre, atraindo cidadãos interessados em tirar “um extra” esse mês. Ou também eleitores apaixonados por suas convicções que, nesse caso, de forma voluntária, contribuem na campanha de seus candidatos ou partidos. Esses dois casos são exemplos de brasileiros gozando da liberdade de opinião eleitoral que o país hoje desfruta.

Marlene Teresinha Farias é uma dona de casa que trabalha de faxineira quando pode. Ela tem 57 anos e pela terceira vez está trabalhando como cabo eleitoral. Feliz e orgulhosa, conta como procura os comitês para deixar seu nome e telefone. Esse ano deu sorte, precisou deixar seu interesse em apenas dois comitês para que um ligasse confirmando sua vaga. Sorte porque não é fácil conseguir o trabalho. Marlene fala que os amigos e familiares ajudam muito indicando seu nome.

Marlene balança bandeiras por dinheiro. Considera a remuneração pelo seu trabalho baixa, porém justa. Gostaria de trabalhar mais, para dois ou três partidos na mesma eleição se pudesse. Mas o tempo não permite. Isso não significa que ela não se dedique pelo seu trabalho, pelo contrário: “Faço de tudo sempre pelo candidato que me contratou, gosto de fazer meu trabalho bem feito.” Perguntei então se ela iria votar no candidato do/ao qual ela está fazendo campanha: “Acho que sim, acabo criando uma afinidade com o candidato. Nós votamos em quem dá emprego para a gente”.

Eduardo Possan Foachiera estuda Ciências Sociais na UFSC e atualmente não está trabalhando. Formalmente, porque durante essas eleições Eduardo está fortemente engajado com o partido que apoia como voluntário. Todo dia vai para aula “fardado”. Na altura do coração está colado um adesivo do candidato que acredita por convicção. Uma atitude que vem desde a adolescência, por influência da família. Aos 13 anos, Eduardo se filiou ao seu atual partido, ainda na sua cidade de nascença, Chapecó. Quando comparei ao amor por um clube de futebol, ofendeu-se: “Não tem nada haver/a ver. Não me considero um apaixonado. Me considero um militante. Para mim, o partido político é um instrumento de desenvolvimento para uma nova sociedade. É nisso que eu acredito, é nisso que eu voto”.

Enquanto Eduardo vai às ruas e tenta convencer eleitores individualmente de votarem no seu partido, Nelson Santiago trabalha pensando em atingir um grande número de pessoas – pensa no macro. Em seu escritório, numa casa alugada durante o período eleitoral para ser comitê, Nelson também é um voluntário que parou de trabalhar para ajudar na campanha do seu partido. Sua função é de coordenador da distribuição de material de divulgação. Isso durante as eleições, quando tira férias do seu trabalho, junto com alguns colegas, para ajudar na corrida eleitoral: “Aqui nesse comitê todo mundo é voluntário, nos conhecemos ou do trabalho no Governo ou de outras eleições. O nosso candidato nunca veio aqui, a maioria nunca viu ele. Ninguém sabe o que vai acontecer depois das eleições, com o candidato ganhando ou não. Estamos mesmo é pela vontade”.

 

A (des)atraente eleição brasileira

Com um sistema eleitoral defasado, o eleitor brasileiro não tem interesse por política

Comentário de Lucas Weber

As eleições viraram um grande evento comercial no Brasil. Hoje a soma do limite de gastos das campanhas de todos os candidatos já registrados na Justiça Eleitoral é de R$ 73,9 bilhões. Esse dinheiro, em grande parte, é gasto para produção de uma imagem carismática do político. Tornando as eleições uma competição pela melhor aparência. A roupa, a maquiagem e a plástica do candidato é o que faz diferença para convencer o eleitor.

O professor da Universidade Nacional de Brasília, Antônio José Barbosa (em entrevista ao portal G1) consegue explicar o que está acontecendo: “Hoje os partidos entram pelo dinheiro na política. Tem interesse em usar sua sigla para negociar em propagandas na TV ou no rádio. Isso fragiliza a democracia brasileira, que precisava de muito ainda para se firmar no cenário político atual”. O eleitor, dessa maneira, perde a esperança na política nacional. Generaliza todos os partidos e opta por não se interessar pelo assunto.

Porém, esse momento não é de todo mau para o brasileiro. Um mercado que se abre com os gastos astronômicos em campanhas é o de cabo eleitoral. Hoje é comum cidadãos deixarem seu nome e número telefônico em comitês com o intuito de serem contratados para receber 250 reais semanais para balançar bandeiras ou entregar santinhos. Isso está no direito de cada um. Não há crime nisso. A questão é: porque o brasileiro vê as eleições como uma oportunidade de se favorecer financeiramente e não ideologicamente?

A resposta passa pela complexidade das eleições atualmente. São muitos cargos para escolher com muitas opções – sem grandes diferenças – para decidir. Uma reforma eleitoral é emergente no Brasil. O pluripartidarismo, uma das heranças mais válidas do fim da ditadura militar, está poluindo o cenário político brasileiro. São 32 partidos, que na sua maioria não tem densidade ideológica, sem aprofundamento e convicção de suas ideias.

Uma ideia que surge – que circula no meio intelectual político – é a cláusula de barreira. Uma lei que limita a sobrevivência de partidos a um número X de votos nas eleições para o congresso. José Barbosa concorda com essa medida e com uma reforma política/eleitoral como um todo. De forma radical, ele sugere uma limpeza no atual cenário partidário brasileiro: “Se o partido não tem ligação nenhuma com a sociedade, ele só está atrapalhando. Se não tiver densidade eleitoral, que deixe de existir. Cassa-se o registro dele”.

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