Os zé-ninguém da política

Cyntia_praca15[1]

Cintya Ramlov

Uma mulher alta e magra, toda vestida de rosa pink, caminha pelo centro da cidade, a sandália plataforma oscilando na calçada irregular. Ela escolhe algumas peças de roupa em uma loja e leva para casa; depois, pega seu take away em um desses carrinhos de comida que estão na moda e segue seu caminho. Poderia ser cena de Carrie Bradshaw em Sex and The City, se a moça não fosse trans-gênero e o local não fosse a Praça XV, no centro de Florianópolis. As roupas foram cortesia de um rapaz que vem com seu carro ajudar o pessoal da rua, e a quentinha era dos Amigos da Sopa. Depois que o sol vai embora, a população em situação de rua domina o centro da Capital. Em ano eleitoral, mesmo em meio a notícias de reintegração de posse e problemas de moradia, esse segmento da sociedade não costuma ser mencionado em debates e programas de governo.

Às terças-feiras, é rotina pegar o prato oferecido pelos Amigos da Sopa e comer nas mesas de concreto ao lado do posto da Polícia Militar. Naquela noite, cerca de 60 estão por ali. Um deles chama-se Paulo Alberto Nogueira, tem a pele muito negra e trabalha vendendo bombons, vestido elegantemente – sapato de verniz incluído. “Tem pessoas que trabalham para gastar em drogas, eu trabalho pra ficar assim, né?!” Ele chama seus clientes em inglês ou espanhol, e apresenta-se como o homem mais culto de Florianópolis. Simpático, conta do filho pequeno que vive com a mãe em São Paulo, e logo se anima para falar sobre política: “Eu não voto!” Paulo conhece a Constituição de 1988, e não entende como ela garante liberdade de expressão ao cidadão, e ao mesmo tempo obriga-o a votar. Também questiona várias vezes a eficácia do sistema político do Brasil, e apesar de atualmente estar morando em um hotel na Conselheiro Mafra,  acredita que a melhor maneira de se ter segurança é estar na rua, conhecer e se aproximar da cidade.

Paulo chama seus amigos. “Estão aqui fazendo uma pesquisa eleitoral, a nível de moradores de rua!”. Um uruguaio de poucas palavras e um inglês que parece ter saído de uma história de piratas estão ouvindo quando, um jovem se apresenta como Raul. Branco de cabelos escuros, veste chapéu panamá, blazer surrado com camisa social e calças justas, combinação digna de revistas de moda masculina.  “Olha, o pessoal da rua não tá nem aí pra política!” Ele tem 22 anos, é musico e vive fora da casa da mãe por opção. Também tem um filho longe, em Presidente Prudente – SP, e ainda pretende fazer faculdade de letras, mas por enquanto está tranquilo. “Vive-se muito bem na rua. Tem rango aí, tem birita”.

Idival também é músico. Toca o Hino Nacional e Brasileirinho no violão. Alto, usa o cabelo comprido amarrado e a barba trançada como pede a Religião do Nazareno. Pela mesma razão pratica abstinência sexual e não pode beber nem usar drogas – mas confessa tomar uma cerveja quando dá vontade. Nasceu em Florianópolis e viveu em vários cantos, tem até um leve sotaque gaúcho.  Já votou no Raimundo Colombo, mas esse ano não irá às urnas – está aposentado por invalidez. Dá risada mencionando a Lei da “Ficha Limpa”, para ele isso seria o mínimo esperado de qualquer cidadão. Comparada a outros lugares, acha que a Polícia Militar catarinense é respeitosa, e só causa problemas quando pega tráfico de drogas.

Com outras instituições públicas, teve experiências negativas. Conta como é difícil conseguir a Cesta Básica a que tem direito na prefeitura. Do Centro POP (Centro de Referência Especializado para População em Situação e Rua), local administrado pela Secretaria de Assistência Social da prefeitura anexo à Passarela Nego Quirido que é destinado a auxiliar os andarilhos, Idival reclama da falta de dedicação dos assistentes quando precisa comprar passagens de ônibus, por exemplo. Paulo também não tem lembranças agradáveis de lá: “No Centro POP só vou se não tiver nem dez reais para tomar um banho!”

Após adoecer e não poder trabalhar, Idival procurou uma casa de apoio municipal em São José. Lá, não o deixavam tocar violão. Foi fazerconsulta com uma psicóloga do serviço social. “Eu falava e ela nem tirava o olho do computador. Perguntei para ela de uns livros que eu li, ela nem conhecia!”  Na casa, educadores eram os responsáveis por manter a disciplina. “Mas só chegavam e gritavam, como isso é educar?” Depois de dois meses, a administradora do local – “Uma mulher cheia de jóias” – disse que Idival não poderia mais morar lá e o recomendou outra casa, em Biguaçu. O dono era um pastor e iria obrigá-lo a cortar o cabelo e a barba. Ficou por uma noite e foi embora. Após sair, transformou a raiva em música. Escreveu 16 delas e registrou tudo no ECAD. Uma delas tem o título de Ignóreo, Não Serve-o, Sacrifíque-o. As íniciais do título formam a sigla INSS. Idival assinou com o pseudônimo de Zé Ninguém.

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