Puxadores de votos

Vinicius_thiagotavares

Um problema do sistema ou uma consequência da democracia?

Vinícius Bressan Ferreira

O eleitor menos informado pode se sentir confuso com notícias sobre um candidato bem votado que não conseguiu obter uma cadeira parlamentar, ou com a história de que um candidato com quantidade muito maior de votos que a média “carregou” outros menos votados para o congresso. São os famosos “puxadores de votos”. É provável que esta pessoa não conheça as regras do sistema proporcional.

Os deputados e vereadores brasileiros são escolhidos de maneira diferente da tradicional maioria absoluta, o “50% mais um voto”, utilizado na escolha para cargos executivos e de senadores. As eleições proporcionais existem com a proposta de representar a sociedade como um espelho, e considera que cada partido traduz os interesses de uma parcela da sociedade. Quanto maior for a parcela que ele representa, maior a quantidade de cadeiras a que tem direito.

Sendo assim, ao invés de termos uma competição entre todos os candidatos em que os vencedores seriam os mais votados no geral, os partidos ou coligações precisam atingir um determinado número de votos para conquistar cada cadeira. Cadeiras que vão ficar com os mais votados do partido (ainda que não o sejam no geral). E é nesse contexto que podemos encontrar pessoas com trajetórias não relacionadas à política sendo bem-sucedidas na corrida eleitoral.

Nesse espaço de propaganda eleitoral ocupado por figuras públicas e personas caricatas tem a ver com o interesse dos partidos em conquistar votos para a legenda, ajudando a eleger os políticos de carreira. Além disso, a maior quantidade de candidaturas a esses cargos reflete nas disputas majoritárias.

Um exemplo disso em Santa Catarina é o lutador de artes marciais mistas Thiago Tavares, candidato a deputado estadual pelo PCdoB. Ele compete desde 2007 no Ultimate Fighting Championship (UFC), principal organizadora de lutas do mundo, e atualmente é um dos atletas mais notórios do estado. Thiago foi procurado pelo PCdoB em 2013 para filiar-se ao partido e poder concorrer a deputado estadual nas eleições atuais.

É provável que esse assunto traga à mente da maioria das pessoas o caso do atual deputado federal e candidato a reeleição, Francisco Everardo Oliveira Silva, o Tiririca. Ele recebeu mais de 1,3 milhão de votos, o suficiente para garantir vaga para si e outros três membros da coligação, apesar das críticas de boa parte da população, inconformada com seu postura controversa.

Entretanto, mesmo com afirmações de que a eleição de Tiririca representava uma crise na política, em vários aspectos o seu mandato não se destacou negativamente. Ainda que seja um dos poucos a não se manifestar em plenário uma única vez, foi um dos raros deputados federais a não faltar a nenhuma das sessões deliberativas. Também chegou a votar contra as orientações da liderança partidária.

Existem estudiosos da política que propõem mudanças como a adoção do voto distrital, a exemplo dos Estados Unidos, como o sociólogo Flávio Porto. “Se um eleitor tentasse conhecer as propostas de cada um dos candidatos a deputado federal de seu estado, levaria semanas ininterruptas para conhecer todos eles. Com o sistema de voto distrital, o eleitor só tem que avaliar os candidatos do seu distrito, que são limitados pelo número de partidos”. No entanto, outros, como Alberto Carlos de Almeida, consideram essa medida prejudicial à pluralidade de interesses. “Os países que adotam o sistema distrital acabam governados por dois partidos, e é difícil imaginar que populações como a da Grã-Bretanha ou dos Estados Unidos sejam representadas só por esses dois partidos”.

Analisando a situação, o professor de sociologia Tiago Ribeiro, da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC, afirma que “é preciso ter muita cautela quando falamos de mudança no sistema eleitoral. Existem características do nosso sistema que às vezes causam problemas, mas que se fossem eliminadas causariam outros. Não existe um sistema ideal, pelo menos atualmente, cada sistema tem suas falhas”.

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