“Que o Senhor esteja conosco”

M_Fainsting_Congresso nacional

Estado laico? O Congresso Nacional ainda abriga um crucifixo ao fundo do plenário.

Por Matheus Faisting

Estou na recepção do mais colossal templo de umaigreja evangélica de Florianópolis.A construção, que exala majestade e opulência, localiza-se em uma das principais avenidas da capital catarinense, ponto estratégico para que o grande letreiro “Jesus Cristo é o Senhor” não passe despercebido por ninguém que por alitrafegue. Além do templo, ali funcionam uma emissora de rádioFM e um estúdio de TV, meios de comunicação da instituição que contam com uma equipe própria de jornalismo e divulgação. Cinco colunas gregas recepcionam os visitantes na entrada do templo, construção que conta com uma estrutura digna de um verdadeiro palácio.Apesar de não ostentar os 80 mil m² de terreno de sua sederecém-inaugurada em São Paulo, claramente possui proporções e logística consideráveis.Com direito a estacionamento subterrâneo privado, duas saídas para automóveis, ponto de ônibus posicionado exatamente em frente ao templo, escadaria frontal e diversas placas de indicação internas, fica difícil não reconhecer a magnitude do local.

Desde que cheguei aqui, o que mais tenho visto são homens bem trajados, mais parecidos com ocupados executivos, andando de um lado para o outro. Alguns saem de seus carrões estacionados abaixo do templo e outros simplesmente conversam, em grupos, do lado de fora da igreja. Se não fossem algumas mensagens religiosas espalhadas pelo local, eu poderia jurar que este seria um ambiente corporativo.

Antesde me dirigir à recepção, decido conhecer um pouco melhor a parte externa do templo. No caminho para o banheiro subterrâneo, pilhas e mais pilhas de exemplares de jornaisde apelo religioso, títulos pertencentesa uma rede de comunicação, se amontoam pelos corredores. Na entrada do banheiro feminino, um cartaz convida as mulheres a uma Reunião de Purificação, encontro que garante “a maior limpeza espiritual que você járecebeu“. O banheiro masculino chega a impressionar. Com dezessete cabines individuais (uma delas para deficientes físicos) e sete mictórios, sendo dois deles para crianças, a área do WC do estacionamento chega a ter proporções equivalentes a banheiros de grandes shopping centers.

Mas se engana quem pensa que a oferta de espaço é desproporcional à procura. Fundada em 1977, estaigrejapossui cerca de 6500 sedes espalhadas por todo território nacional. Isso sem contarsua presença em diversos países. Segundo dados do censo 2010 do IBGE, 22,2% da população brasileira se considera evangélica, número equivalente a 42,3 milhões de pessoas. Embora tímida em relação aos 64,6% de católicos brasileiros, a religião evangélica foi a que mais conquistou fiéis em relação à última pesquisa. Enquanto o número de católicos caiu 9%, somaram-se mais 16 milhões de pessoas à comunidade evangélica apenas neste último censo. E esse crescimento também se deu no âmbito político. Só nesta legislatura (2010-2014), 26 deputados federais são pertencentes àquele grupo religioso.De acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral, o número de candidatos que se declaram pastores evangélicos somam 276 só em 2014, o que evidencia um crescimento de 70% em relação às últimas eleições.EmSanta Catarina, este número chegou a dobrar.

O envolvimento de setores religiosos com a política não acaba por aí. O presidente do conselho político da convenção de uma das principais igrejas evangélicas do país, pastor Lelis Washington Marinhos, confirmou em entrevista a um portal de notíciasque, após as eleições, pretende criar uma nova legenda exclusivamente para membros evangélicos e para aqueles que defendam seus princípios religiosos. Além disso, em setembro deste ano, esta igreja divulgou de forma extraoficial a troca de apoio do candidato Pastor Everaldo (PSC) pelo suporte à eleição presidencial de Marina Silva, do PSB. Com o apoio de setores conservadores, a candidata pertencente à maior igreja evangélica do país coleciona aliados como o ex-presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, Marco Feliciano, e o Pastor Silas Malafaia, tido como um dos responsáveis pela pressão que resultou na reformulação das propostas para a população LGBT do plano de governo da candidata. Esses setores formam a chamada bancada evangélica, um dos maiores e mais influentes grupos políticos da Câmara de Deputados, que é conhecida especialmente por barrar projetos progressistas relacionados a questões que envolvem educação sexual nas escolas, garantia de direitos a populações minoritárias, legalização de entorpecentes, aborto e outras pontos que esbarram em suas convicções.

Mas não são só os evangélicos que entram na disputa por cargos eleitorais. Mesmo não propondo nenhuma punição para os dissidentes, o envolvimento de religiosos com a política é uma prática condenada pelo Código de Direito Canônico, documento que rege a Igreja Católica. Nesta eleição, ao menos 23 candidatos se declararam padres, disputando cargos como o de deputado estadual, federal ou governador. Para Frei Luiz Antônio Frigo, pároco há 34 anos e um dos representantes da arquidiocese de Florianópolis, este envolvimento não é saudável para a Igreja e muito menos para a sociedade. “Com a carência de padres que temos hoje, com tanto trabalho que temos pela frente, não podemos perder o foco. Temos que cuidar exclusivamente da parte espiritual da nação. Política não deve ser nossa prioridade”, esclarece.

De volta ao colossal templo de Florianópolis, depois de mais de uma hora de espera, meu entrevistado chega e sou informado de que não haverá entrevista. Os pastores não são autorizados a se pronunciarem e, para ter alguma informação, eu teria que passar por um processo extremamente burocratizado e demorado. Sou impedido de sanar minhas dúvidas sobre as influências políticas dentro de ambientes religiosos. Mas o que presencio em seguida responde a muitas de minhas questões. De uma das várias portas com a indicação “acesso restrito“, três funcionários de terno saem com enormes caixas de papelão em direção aos andares superiores do templo. A secretária, curiosa, pergunta se aquilo era o material da campanha política de determinado candidato. Os homens respondem positivamente e ainda confirmam a expectativa de reeleição expressada pela secretária. O destino do material? Acredito que o leitor já tenha alguma ideia.

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