Drogas da desinformação

A proibição de drogas sintéticas não freia seu consumo, mas faz com que pessoas ingiram substâncias de efeitos ainda desconhecidos

Matheus_balada3

Por Matheus Alves

As batidas fortes da caixa de som e as luzes coloridas seriam o suficiente para movimentar os pés e latejar a cabeça de alguém sóbrio. As pessoas se esbarravam dançando descoordenadas em espaços conquistados a cotoveladas. Vários usavam óculos escuros e olhavam para o alto enquanto os braços e pernas davam espasmos. Cauã, estudante universitário, estava em uma balada de música eletrônica pela primeira vez e aceitou uma droga que comprou como LSD.

Cauã nunca tinha usado drogas sintéticas, mas sempre teve interesse por alucinógenos. Fumando na sala de seu apartamento, conta que comprava através da internet ervas para “expansão do pensamento” quando estudava o Ensino Médio; pesquisava a história de rituais indígenas, os efeitos, como deviam ser consumidas e contraindicações. “Às vezes, tinha algumas que não podiam ser tomadas sozinho, por exemplo. Podia ficar muito fora de si. Aí chamava algum amigo sóbrio”.

Provar drogas em um lugar tranquilo era uma lei, mas decidiu abandoná-la depois de várias caipirinhas. Tomou o LSD, chamado informalmente de ‘doce’. Mastigou o pedacinho de papel desenhado com o símbolo da marca de calçados Nike e sentiu um gosto amargo. Aos poucos, ficou feliz e queria dançar. A sensação de bem-estar explodia no peito, até chegar em casa exausto pela manhã. Então começou a sentir-se inquieto.

Não conseguia dormir. Ficou incomodado com o cansaço corporal e a bagunça mental. Enxergava com dificuldade. Começou a chorar, e não sabia por quê. “Eu achava que ia morrer. Colocava a mão no coração e ele estava disparado, quase saí de casa para o hospital. Mas estava muito cansado para isso também”. Horas depois, dormiu de exaustão até acordar desnorteado e com a curiosidade: o que tinha acontecido no seu organismo?

Começou a pesquisar o que tinha tomado e, para sua surpresa, não foi difícil. Achou no Facebook grupos de conversa sobre drogas sintéticas. Aumentou seu interesse, e hoje acessa fóruns internacionais em que pessoas do mundo inteiro discutem o assunto. “Todo dia tem gente falando de droga nova. As pessoas dizem o que é, falam o que sentem. Vez ou outra aparece alguém que sabe química, e descobre a substância”.

Entre os membros dos fóruns, Cauã encontrou o relato de que o doce do tipo Nike não era LSD. Na realidade, o papelzinho continha uma gota de 25i-Nbome – droga sintetizada pela primeira vez em 2003. O novo alucinógeno é facilmente confundível com o ácido lisérgico nos efeitos, porém com riscos e a desinformação são maiores.

Há poucos estudos sobre a substância, que é testada por pessoas que não temem o risco, ou o desconhecem. No último mês, dois jovens estudantes de universidades públicas em São Paulo morreram após ingerir quantidades muito grandes de N-Bome. Encontraram da pior maneira uma das diferenças entre o LSD e o N-Bome: ao contrário do primeiro, a nova droga pode causar overdose se ingerida com bebidas alcoólicas.

O N-Bome passou a ser comercializado para recreação em 2010. Vendê-lo é fácil, pois ele não está proibido ou regulamentado por nenhuma lei. É liberado em quase todo o mundo. No Brasil, 11 tipos da droga tornaram-se ilegais por decisão da ANVISA no começo do ano. A proibição, no entanto, não impede que novas variações surjam e as substituam como ocorreu com o LSD.

Cauã não está sozinho. São 82 mil usuários de alucinógenos no Brasil que podem comprar outras substâncias na procura por LSD. Outras drogas sintéticas como o ecstasy também têm compostos químicos semelhantes comercializados em seu lugar. Cauã sabe disso, aprendeu nos fóruns. A maior parte de seus amigos doidões, não.

Falta de informação

O N-Bome e as demais drogas novas não são as únicas substâncias com escassez de informações. Nos últimos 40 anos, pesquisas sobre o LSD também não foram realizadas. O ácido foi incluído em 1970 no Comprehensive Drug Abuse Prevention and Control Act, lista estadunidense de drogas perigosas até para pesquisa.

Sua invenção, porém, é bem anterior: o químico suíço Albert Hoffman foi responsável por sintetizá-lo acidentalmente em 1943. Durante os anos seguintes, intelectuais como Allen Ginsberg, Aldous Huxley e John Lennon experimentaram-no. Entre seus pesquisadores, o mais famoso foi o psicólogo Timothy Leary. Como professor de Harvard, utilizou a droga em turmas de estudantes durante aulas. Acreditava no potencial recreativo e medicinal do alucinógeno.

Nos anos 1960, o LSD popularizou-se, impulsionado pelo movimento Hippie. O consumo desregulado causava danos, como ocorre com bebidas alcoólicas e outras substâncias que alteram o sistema nervoso. De acordo com o Centro de Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas, o uso de LSD pode causar mudanças de personalidade, e desencadear transtornos mentais como depressão, esquizofrenia e transtorno obsessivo. No conturbado momento político da Guerra do Vietnã, as histórias de jovens doentes devido à droga causaram pânico.

Quando Richard Nixon elegeu-se presidente, em 1968, o combate contínuo e intenso aos psicotrópicos foi parte de sua campanha. No ano seguinte, a droga foi proibida. Pesquisadores como Timothy Leary viram seu trabalho de anos tornarem-se ilegal. Ele não desistiu. Foi preso na Califórnia, fugiu da penitenciária e exilou-se na Europa, onde continuou militando. Voltou ao seu país e foi ativista até falecer, em 1996.

O cenário de repressão começou a mudar este ano, com a publicação dos primeiros estudos em quase 40 anos sobre seu uso terapêutico.  O pesquisador suíço Peter Gasser publicou no Journal Of Nervous And Mental Desease – periódico norte-americana sobre estudos em psicologia – relatórios de resultados positivos na utilização do LSD para controle da ansiedade. Estudos semelhantes são atualmente desenvolvidos no Reino Unido.

É um sinal de uma reabertura para discussão sobre LSD? Talvez. Não há também como afirmar se drogas como o N-Bome ganharão espaço semelhante nas pesquisas médicas. Por enquanto, são estudadas sem base científica por cobaias voluntárias como Cauã. Descrições amadoras de seus efeitos estão espalhadas na web. “Leio os efeitos dos tipos de doce. Se dá muita bad trip, nem tomo”, ele explica, com pose de pesquisador.

Cena do musical Hair, da década de 1970, um ícone da geração LSD.

Cena do musical Hair, da década de 1970, um ícone da geração LSD.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s