Ginástica o quê?

Florianópolis se destaca em meio ao anonimato da ginástica rítmica no país

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Por Paula Barbabela

Ela entra no tablado com confiança, os grandes olhos castanhos cheios de concentração e um sorriso espalhado por todo o rosto. Nas pontas dos pés, dança graciosamente ao som da música Survivor, hit de 2002 do já separado grupo Destiny’s Child. Suas mãos movem uma fita amarela pelo ar, formando círculos e ondas que se desfazem em segundos. Faz piruetas, saltos e giros pulando de um pé para o outro num piscar de olhos. Termina jogando a fita para o ar, que volta para sua mão quase magneticamente. O sorriso continua lá.

“Quando eu entro em quadra eu me realizo. A gente consegue em um minuto ser exatamente aquilo que quer ser”. Bianca Maia Mendonça, amazonense de 21 anos, faz parte da Seleção Brasileira de Ginástica Rítmica. Natural de Manaus, começou no esporte aos cinco anos de idade, por influência da mãe, uma ex-ginasta. “No início era como uma brincadeira. Eu sempre fiz a ginástica junto com outros esportes, mas com nove anos percebi que tinha um certo talento. Foi aí que resolvi levar como uma profissão”. Um talento que chamou a atenção de muitos e fez Bianca se mudar para 4.300 km longe de casa.

Em Florianópolis, ela integra a equipe do Instituto Estadual de Educação (IEE), vencedora da Copa Brasil de Conjuntos 2014 e hoje referência do esporte no Brasil. A ideia da mudança para a Ilha de Santa Catarina partiu da ex-técnica da seleção brasileira Giurga Takova Nedialkova. “Aqui você tem um centro muito bem organizado com tudo que precisa. Preparador físico, aula de balé, aula de dança. Com fisioterapeuta e treinadoras que querem sempre aprender mais”, diz a búlgara, que hoje presta assessoria técnica para equipe do IEE. O grupo de ginastas é mantido pelo projeto de extensão Aperfeiçoamento em Ginástica Rítmica da Udesc – Universidade do Estado de Santa Catarina, comandado pela técnica e professora Maria Helena Kraeski.

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Ex-técnica da seleção brasileira Giurga Takova Nedialkova.

A iniciativa surgiu na década de 1980, quando Maria Helena era uma das ginastas, e já formou três atletas que participaram da seleção brasileira: Letícia Dutra, Luísa Matsuo e Bianca. “Nós tivemos diferentes fases do nosso trabalho. No início foi bastante difícil, não tinha local apropriado para a prática. A gente não tinha a aparelhagem necessária. Depois começamos a ter nossas primeiras conquistas”. As condições de hoje ainda não são perfeitas. As atletas treinam em um espaço improvisado entre quadras de outros esportes, convivendo com todo tipo de barulho e de adversidade.  A principal delas, o anonimato.

Segundo Maria Helena, mesmo com o sucesso das ginastas da cidade, o esporte ainda não é reconhecido. “É uma modalidade nova no Brasil. São quarenta anos em que ela vem lutando e conquistando novos adeptos. Mas ainda é fragilizada em relação a uma cultura. Não conseguimos atingir a população como um todo”. A ginástica rítmica tem representação nas 22 federações estaduais brasileiras filiadas à Confederação Brasileira de Ginástica (CBG).  Não participam Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Mesmo assim, das sete competições já realizadas em 2014 no país, nenhuma teve cobertura jornalística.

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Professora Maria Helena Kraeski: “É uma modalidade nova no Brasil”.

A falta de reconhecimento do esporte gera confusão até entre as próprias ginastas. Jéssica Cardeal, 17 anos, começou a praticar a ginástica rítmica ainda quando criança, mas foi ao ginásio pensando que iria participar de um esporte diferente. “Eu não sabia nada, nem o que era. Eu só conhecia uma, daí vim para cá pensando que ia fazer ginástica artística”. As duas modalidades fazem parte da CBG e podem ter provas com competições individuais e por equipes. A ginástica rítmica é uma modalidade exclusivamente feminina, que mistura balé e dança contemporânea com quatro aparelhos: fita, maça, bola e arco. Já a ginástica artística pode ter homens e mulheres participando de provas como solo, barras e salto sobre a mesa.

Atletas como Daiane dos Santos e Diego Hipólito se tornaram conhecidos do público após se tornarem campeões mundiais em ginástica olímpica, forma como a ginástica artística é denominada no Brasil. Conforme a técnica Giurga Nedialkova, o sucesso dos atletas da outra modalidade se deve a uma padronização de treinamentos que ainda não ocorre na ginástica rítmica. “Não existe o estilo brasileiro. Cada técnica vai e faz de um jeito. Uma faz como as russas, outra faz como as búlgaras. Quando as meninas chegam à seleção, a técnica não sabe o que fazer com cinco ginastas que fazem o mesmo movimento de maneiras diferentes. Isso é algo que atrapalha o alto rendimento da seleção”.

A reforma do esporte no país é uma preocupação geral de quem ensina e de quem pratica a ginástica rítmica. Desde a inserção da modalidade nas Olimpíadas de Los Angeles em 1984, o Brasil participou da competição por cinco vezes (1984, 1996, 2000, 2008 e 2012), mas nunca ganhou uma medalha. Para Giurga, esse é o resultado da falta de planejamento da confederação. “Onde está o pensamento para 2020? Pensamos só para 2016 porque será no Brasil? Mas a outra também está chegando. Agora temos vaga garantida, e depois?”

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