Haiti, um país que precisa sorrir

Fresnel recomeça a vida em Florianópolis

Gabriel_GBL2068-1

Por Gabriel Neves

“Antes de entrar, vista a touca!”. São quatro horas da tarde e está começando mais um turno de trabalho. A cozinha do restaurante árabe está movimentada porque é agora que os trabalhadores se revezam. O pequeno rádio pendurado na parede revela uma música singular.  Ao fundo, o funcionário que prepara a massa é chamado. “Fresnel, tem alguém querendo falar com você aqui”, avisa o colega.

Rapidamente, termina de moldar as últimas esfihas, atravessa o corredor da cozinha e pendura seu avental. Com dois tapas nas costas, o gerente avisa: “Preciso dele em 30 minutos”. Em uma mesa que mal se segurava em pé, aos fundos do restaurante, nos acomodamos em improvisadas cadeiras. Ele apresentava um olhar de receio e, prontamente, estendi a mão, para cumprimentar o desconfiado rapaz.

Fresnel SaintPaul é um haitiano de 36 anos que arrisca um português que se mistura à outras quatro línguas. Fala inglês, espanhol, francês e Criolo. As duas últimas são as línguas oficiais de seu país. Lá, a vida de Fresnel, assim como de milhares de haitianos, nunca foi fácil. Enfrentou seguidos golpes de estado, confrontos civis armados além do assombroso terremoto de 2010. Em sua cidade natal, Gonaives, sempre trabalhou como pôde. “Plantava feijón, repollo, chuchu… tudo”. Como não há emprego para todos, é feito um rodízio, no qual cada pessoa pode trabalhar por até dez dias.

Aos poucos, o jovem se tornava um homem. Em sua casa, de apenas um cômodo, abrigava uma família em que a fome era, cada vez mais, um assunto banal e repentino. Seu pai enfraqueceu e, debilitado, não podia mais trabalhar. Assim como sua mãe, que ainda sofre com problemas físicos. E com o irmão também desempregado, Fresnel decidiu tentar a sorte em outro país, na República Dominicana. Em dois dias, já estava integrado a um canteiro de obras. Foram três anos levantando paredes e alimentando um sonho. De volta ao Haiti, Fresnel avisa à família o que todos já sabiam: ele iria para o Brasil. “Escolhi vir para cá porque meus amigos disseram que aqui havia muito emprego”.

São 4 horas da manhã e a viagem só está começando. Fresnel está a caminho da capital Porto Príncipe. Irá enfrentar a rota mais utilizada pelos milhares de haitianos que chegam ao país. De avião, viajou até República Dominicana e, de lá, fez conexão para a Colômbia. Daí a viagem é por terra: 15 dias e três ônibus, passando por Peru e pelas diversas barreiras policiais. “Eu passei fome durante toda a viagem”. O alívio chega quando o ônibus cruza a fronteira com o Brasil, na cidade de Brasiléia, no Acre.

Cansado e com fome, Fresnel e o restante do grupo de haitianos ainda vão enfrentar a burocracia do país. De acordo com a lei brasileira, o estrangeiro só pode pedir refúgio se comprovar que sofreu algum tipo de perseguição política, religiosa ou étnica no seu país de origem. Não é o caso dos haitianos. Eles estão aqui em busca de emprego, um recomeço. Mas o país vem driblando a Lei de Imigração, concedendo vistos humanitários. A partir daí é possível ter o CPF, a carteira de trabalho e garantir benefícios previdenciários e de saúde como qualquer brasileiro.

Passou um mês resolvendo os trâmites. Fresnel agora é mais um trabalhador do país. Novamente em um ônibus, demorou cinco dias até chegar à cidade de Rio do Sul, onde trabalhou em um matadouro de gado. E por melhores oportunidades veio a Florianópolis.

Na capital, se cadastrou no Sine – Sistema Nacional de Emprego, um órgão do governo federal que é o intermediador entre as empresas e os trabalhadores. Rapidamente, conseguiu um trabalho num restaurante árabe onde trabalha com mais nove haitianos. “A mão de obra em Florianópolis é escassa”, explica o gerente Thiago Coli, 27 anos. A busca de trabalho é diária: “Pelo menos dois haitianos procuram emprego por dia no restaurante”. A única dificuldade fica por conta da comunicação. Mas isso é questão de tempo. “Eles são esforçados e não faltam por nada. Às vezes temos que mandá-los para casa”.

Até maio, 1.562 haitianos passaram nos postos de atendimento do Sine em Santa Catarina e todos foram encaminhados ao mercado de trabalho.  Os setores mais atendidos são os da construção civil, cerâmica, moldura e agroindústria. As cidades que mais recebem os estrangeiros são respectivamente: Joinville, Balneário Camboriú, Braço do Norte e Criciúma.

Além do restaurante árabe, Fresnel ainda atua como auxiliar de cozinha num restaurante de comida mineira pela manhã. Ao todo, trabalha 16 horas por dia. E se não faltar nenhuma vez, recebe um benefício chegando a um salário mensal de 2 mil reais. Quase metade do valor vai para sua família. “Se eu não depositar o dinheiro, eles morrem de fome”.

Um copo de água é oferecido e ainda restam cinco minutos. Fresnel elogia o país. “Gosto do Brasil. Tem trabalho”. De fato, o valor atribuído por ele é louvável por ter vindo de um lugar completamente contrastado e devastado por governos, pela natureza e pela fome. O Haiti é um país que, o quanto antes, precisa sorrir.

Gabriel_GBL2063

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s