Pornô, por que não?

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Vinícius Bressan

Francisca Kahlo* se mistura naturalmente entre tantas outras jovens que vemos andando pela Universidade Federal de Santa Catarina. Entretanto, Frida tem um segredo que admite para poucas pessoas: ocasionalmente gosta de assistir vídeos pornográficos. Não que ela esteja violando alguma regra explícita; possui mais de 18 anos e, apesar de batizada na Igreja Católica, não segue nenhuma religião. Ainda assim não se sente confortável em compartilhar esse fato com a maioria das pessoas, as únicas que sabem disso são “umas três amigas próximas que eu conheço faz muito tempo e tenho muita intimidade”. Amigas não por acaso. Quando questionada sobre por que não contar para o namorado, afirma não ter certeza de que ele encararia bem a situação. “Não sei, faz pouco tempo que a gente está junto, vai que ele me ache meio tarada ou sei lá”.

Apesar da discrição com que Frida e suas amigas tratam o assunto, não é surpreendente que consumam conteúdo +18. Uma pesquisa da Hibou Monitoramento de Mercado e Consumo indica que 87% das mulheres que possuem acesso à internet pelo celular acessam pornografia, e o canal Sexy Hot estima que 49% de sua audiência seja composta por mulheres.

Estudos sobre a maioria dos temas ligados à pornografia são escassos, mas apesar da falta de estatísticas anteriores acredita-se que o número de mulheres que veem pornôs aumentou muito com o advento da internet. O conteúdo online representa hoje 90% do mercado, e oferece acesso de maneira que ninguém fique sabendo, resolvendo a dificuldade de alguém desconfortável com a ideia de encontrar um conhecido no caminho da locadora para casa. João Neves*, por exemplo, diz que não se sentiria tranquilo em deixar um DVD desse tipo pela casa. “Meus pais podem estar me visitando, já pensou se eles veem o negócio em cima da mesa? Ou se eu estou recebendo alguém que não seja amigo meu”.

Um dos problemas causados por essa relação perniciosa aludida pela sociedade com o entretenimento adulto é a maneira taxativa com que algumas pessoas tratam os profissionais da área. Tati Balzequoti atuou em filmes adultos entre 2007 e 2011 e enfrentou situações difíceis. “Olha, não vou falar que é tudo ruim não, tem gente que te trata com o maior carinho, pede para tirar foto e tudo. Mas, eu sou filha de mãe solteira e no começo foi difícil para ela aceitar, chorou várias vezes, me pedindo para fazer outra coisa… hoje em dia ela aceita, mas meu irmão não fala comigo até hoje. Eu evito ir à casa dela porque os vizinhos ficam olhando, apontando o dedo”.

Diante das dificuldades que o trabalho acarreta fica o questionamento, por que aceitar um trabalho que causa tantas situações desgastantes? Uma resposta plausível é a rentabilidade. “Ah, eu já tinha trabalhado em muita coisa antes, já fui babá, faxineira, garçonete, empregada doméstica, mas quando me chamaram para fazer a primeira vez me ofereceram R$ 800 por cena, em um dia só eu ganhei mais de R$ 3.000,00”.

A indústria brasileira de filmes eróticos profissionais fatura R$ 200 milhões, com cachês que chegam a facilmente a R$ 1.500 por cena. Isso para as mulheres, que representam 70% de quem atua na área, enquanto os homens costumam receber a metade do valor pago a elas. O problema é que esses cachês não costumam durar muito tempo, não para o grupo feminino pelo menos. As produtoras americanas costumam manter as mesmas garotas nos filmes, buscando transformá-las em “marcas”, construir uma imagem forte que as torne conhecidas e atraia uma base de fãs. Já as produtoras nacionais apostam em uma rotatividade maior de atrizes, colocando caras novas em seus filmes, apostando em um maior interesse do público por mulheres que ainda não “viu em ação”. Esse tipo de política é apontado como uma razão para que normalmente a carreira dessas novas moças dure menos de seis anos.

Enquanto setores da sociedade de cultura laicizada têm opiniões divididas sobre o tema, os seguidores de religiões cristãs condenam a prática de forma veemente. Tanto a Igreja Católica Apostólica Romana, como as protestantes e as neo-pentecostais, alegam que a pornografia faz mal ao usuário, viciando-o e diminuindo sua capacidade cognitiva. Um dos termos mais utilizados são os Demônios Sexualmente Transmissíveis, que traz a ideia de que olhar para uma atriz pornô é como manter uma relação com ela espiritualmente. Isso faria com que suas “crenças errôneas” se alojassem na alma do fiel.

*Nomes fictícios para proteger a identidade das fontes.

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