Sinal fechado para os food trucks

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Vans de comida gourmet fazem sucesso, mas enfrentam problemas burocráticos e administrativos

Por Amanda Ribeiro

Preço baixo e comida de qualidade disponível em horários que você encontraria em poucos restaurantes por aí. A facilidade de sair do trabalho e achar o que você precisa bem no caminho para casa. Um restaurante gourmet ambulante fácil de encontrar quando você precisa. Florianópolis poderia ter todas essas praticidades se não esbarrasse na legislação que proíbe a venda de alimentos em food trucks, caminhões ou vans que transitam pelas ruas com chefs que fazem comida boa e barata a praticamente qualquer hora. Mas talvez a maior barreira seja mesmo a falta de experiência.

Popularizados nos EUA a partir de 2008, quando a crise financeira faliu os restaurantes e obrigou alguns chefs a montar suas antigas cozinhas em vans adaptadas para conseguir se sustentar, os trucks são restaurantes itinerantes adaptados em vans e caminhões, que servem os mais variados tipos de comida em uma faixa de preço que não ultrapassa os 30 reais. “A ideia é ajudar as pessoas que estão sem tempo, voltando da aula ou do trabalho, e querem comer algo ali, no caminho para casa. Quem quer comida gourmet, preparada por um bom chef, mas não consegue pagar ou não se sente à vontade no ambiente de um restaurante chique, é bem vindo aqui”, explica Geovane Melo, dono de um truck de comida japonesa.

O Japan Food Truck de Geovane foi inaugurado na Lagoa da Conceição no dia 18 de outubro e é um exemplo da falta de experiência dos empreendedores de comida gourmet de rua de Florianópolis. A abertura do restaurante demorou mais duas horas que o previsto – sem contar o fato de que antes disso fora adiada uma semana, devido a problemas de planejamento -, em razão da falta de energia elétrica no caminhão. Geovane, que esperava a presença apenas de amigos e familiares, se assustou com o sucesso que o trailer fez no centrinho de Lagoa, lotado às dez da noite. Segundo ele, a empresa que reformou o caminhão de 90 mil reais demorou mais tempo que o previsto para fazer a entrega, e os fornecedores não trouxeram os alimentos a tempo. Curiosos lotaram a pequena área alugada para a inauguração e encheram Geovane de desespero. “O que tá faltando, o que tá faltando?” ele perguntava aos dois cozinheiros, suados não se sabe se pelo clima quente daquela noite ou se pela própria abertura. E recebia uma lista de falhas.

O problema é que a ideia dos food trucks em Florianópolis já veio desvinculada de sua principal característica: a mobilidade. A legislação atual que regula a atividade em Florianópolis é a mesma que trata de modalidades de comida de rua como barracas de cachorro-quente, churros, frutas e verduras. De acordo com a lei, os trucks não podem ser itinerantes e devem ficar estacionados em algum ponto que não atrapalhe o trânsito. Buscando uma regulamentação para a atividade, Geovane Melo criou a Associação Floripa Food Truck, que cobra da Câmara dos Vereadores a implantação de uma lei que trate exclusivamente do caso dos restaurantes móveis.

Já existe um projeto de lei na Câmara para os food trucks, de autoria do vereador Edimilson Pereira. Segundo a PEC, que está em tramitação, os trucks poderão rodar pela cidade e, se quiserem, estacionar em algum lugar; a única condição é que não atrapalhem o trânsito. A ideia é estabelecer uma rota, para que os restaurantes comercializem seus produtos em todos os pontos possíveis da cidade. A venda só será liberada com inspeção da Vigilância Sanitária e emissão de alvará da Prefeitura. Segundo o vereador, o projeto vai ser votado em breve e deve começar a valer a partir do início de 2015.

A falta de planejamento não se limitou à inauguração do Japan Food Truck. A hamburgueria móvel Puta Madre, o primeiro food truck de Florianópolis, conseguiu abrir sem problemas, em junho do ano passado, mas não suportou os problemas burocráticos e a dificuldade de aliar o aumento da demanda à quantidade de produtos entregues pelo fornecedor. “O volume de produção aumentou, as questões de legislação surgiram. Hoje o fornecimento de matéria prima de qualidade e mão de obra são questões essenciais que precisamos resolver para que o conceito base não se perca: produto artesanal x maior qualidade possível x preço equilibrado”, explica a hamburgueria em sua página no Facebook. A esses problemas se somou uma denúncia anônima à Vigilância Sanitária. A ideia era fechar por algumas semanas para resolver essas questões; o prazo fugiu do controle e já se passaram quase dois meses.

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Pensando justamente na questão da falta de experiência, os engenheiros Felipe Nyland e Tiago Belluf criaram o “Food Truck Experience”, que tem o objetivo de trazer aos restaurantes a possibilidade de simular o trabalho em uma cozinha móvel.  A ideia é montar, no trapiche da Beira-mar Norte, uma área reservada para trucks e tendas de restaurantes que têm a intenção de se tornar ambulantes. Em dois dias, o evento teve duas mil pessoas confirmadas no Facebook, e superou as expectativas dos organizadores. “A ideia era fazer uma pesquisa de mercado e descobrir o interesse das pessoas por food trucks. O número de confirmados é surpreendente, e mostra que a tendência global de procura por comida barata e acessível na rua já chegou a Florianópolis”. Inicialmente planejado para outubro, o “Food Truck Experience” acabou sendo adiado para novembro para evitar problemas de espaço, já que a Parada da Diversidade seria realizada no mesmo dia e no mesmo local.

O dono do Japan Food Truck, Geovane Melo, diz que a iniciativa é interessante, mas que o preço cobrado pelos organizadores para o aluguel do espaço vai contra a ideia que estão tentando promover. “O preço de 2500 reais para que cada truck estacione no Trapiche é absurdo. Não tem como promover um evento com comida barata e acessível cobrando essa quantia de cada restaurante”. Depois de reclamações, o preço cobrado de cada truck caiu, e deve variar entre 900 e 1200 reais, de acordo com a área ocupada.

Geovane garante que os problemas iniciais em seu truck ocorreram por conta da preocupação com a estreia. “Primeiro dia é assim mesmo. Agora é corrigir e mandar ver”. Os curiosos que lotaram a inauguração do Japan Food Truck tiveram de esperar um pouco mais do que os ideais da comida de rua pregavam, mas, no fim das contas, o restaurante entrou em funcionamento e conseguiu atender aos seus clientes famintos. Mas, enquanto isso não acontecia, quem ganhou mesmo com a inauguração no centrinho da Lagoa da Conceição foi a barraquinha de tapioca que ficava ali, bem ao lado de onde o restaurante móvel estava estacionado; foi ela que prestou os primeiros socorros aos consumidores aflitos com o atraso da inauguração. Porque não importa se o investimento foi de 90 mil ou 50 reais e se houve ou não falta de preparo: ganha mesmo é quem mata a fome mais rápido.

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