Portais gays reforçam visibilidade LGBT no Brasil

Matheus_site superpride

Matheus Faisting

A Internet está cada vez mais presente na vida dos brasileiros. De acordo com os últimos dados do Ibope Media, 102,3 milhões de pessoas têm acesso à rede no Brasil. E a variedade de conteúdos oferecidos por ela é ainda maior. Portais online especializados em determinado público têm se tornado cada vez mais frequentes. Um exemplo deste cenário é a grande oferta de páginas voltadas para o público homossexual. A garantia de privacidade oferecida pela Internet e o contexto de maior liberdade de expressão da orientação sexual conquistado pelas lutas de movimentos sociais são explicações para este fenômeno, mas talvez não seja a principal. Para Felipe Fernandes, professor da Universidade Federal da Bahia, especialista em questões LGBT, o crescimento desses setores se dá principalmente pela questão econômica. “O oferecimento de bens e serviços voltados ao público GLS é uma prática que surge principalmente nos anos 1990 com o fortalecimento da visão de que os homossexuais são um nicho de mercado. Assim, a mídia, parte da indústria do entretenimento, faz uso desse mercado de identidades ao produzir bens culturais específicos voltados a esse público”, explica.

Exemplos disso são os portais de notícias e entretenimento voltados para este público, como o iGay, do site IG, e A Capa, da UOL. Além destes, sites mais novos e ainda mais populares têm conquistado internautas predominantemente jovens no Brasil, que não necessariamente fazem parte da comunidade LGBT, como é o caso do Superpride. Com 4 milhões de acessos por mês, o portal aborda principalmente assuntos que envolvam música, cinema, moda e celebridades. Nelson Sheep, editor-chefe e criador do site, acredita que o sucesso do Superpride se dá pela identificação das pessoas com seu conteúdo e afirma que é a representação o fator de decisão que deflagra o clique do internauta. “Falar para esse público é algo completamente natural para mim. Com o passar dos anos, passei a abordar ainda mais notícias de comportamento, porque percebi que existia uma carência enorme nesse setor. Quando comecei, os sites gays que existiam eram mais militantes, engessados e tinham foco em suas regiões de origem com notícias de balada, da sociedade local e coisas que nem todo mundo queriasaber”, conta. Além disso, o portal ainda possui um blog de conteúdo erótico, o XPRIDE, que faz parte da estratégia de oferecer todo tipo de conteúdo possível para o público gay.

Ao que tudo indica esta estratégia não parece ser ingênua. Até 2011, de acordo com a resenha “Internet Pornography Statistics”, de Jerry Ropelato, publicada no site Top TenRiviews, existiam mais de 4 milhões de sites pornográficos no mundo e estimou-se também que cerca de 72 milhões de pessoas acessavam imagens de sexo mensalmente. Para o editor, ao contrário do que os mais conservadores podem pensar, essa ligação entre portais LGBT e conteúdo erótico não reforça a ideia retrógrada do ‘homossexual promíscuo’. “A audiência do Superpride é infinitamente maior do que a do XPRIDE. Isso mostra claramente que gays não pensam só em sexo. Mas se pensarem, que fiquem à vontade para consumir nossas atualizações. Não fomos nós, gays, que inventamos a pornografia e não devemos ter medo deste estereótipo. Todos consomem! É uma característica da raça humana e isso não deveria envergonhar ninguém”.

O público que acessa este tipo de conteúdo, apesar de variado, tem sempre um mesmo objetivo. Marcos Medalha estuda Engenharia Civil na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e explica que frequenta sites voltados ao público homossexual justamente por oferecerem conteúdos que o interessam. “Eu gosto de estar por dentro das coisas que acontecem no mundo, principalmente no que se refere ao mundo gay e suas ramificações”, explica o futuro engenheiro. Johnny Giusti, estudante de Comunicação e Multimeios na Universidade Estadual de Maringá, não pensa muito diferente. “Me identifico com esses portais principalmente porque oferecem conteúdo sobre o mundo pop, não só sobre música, mas pop no geral mesmo. Isso me mantém atualizado sobre lançamentos de videoclipes, filmes, trailers, livros e séries “.

Vídeo

Além dos sites de entretenimento e notícias, outro fenômeno de audiência deste tipo de conteúdo são os canais de vídeo voltados para o público gay. Geralmente hospedados no YouTube, canais como Põe na Roda e Canal das Bee vêm ganhando cada vez mais audiência. O primeiro e mais famoso deles, que se destaca principalmente por seu caráter humorístico e crítico, coleciona vídeos com altos índices de popularidade, como o intitulado “Não é por ser gay que eu…“, com mais de 1,1 milhão visualizações. Nelson Sheep também é um dos três integrantes que formam a equipe do Põe na Roda e conta que o trabalho veio justamente para reforçar seu compromisso com a comunidade gay. “Nós, do Põe na Roda, nos descobrimos interlocutores de uma grande parcela da comunidade LGBT e isso nos deixa absolutamente honrados. Acredito que o humor é uma das melhores formas de disseminar uma mensagem. Ele ultrapassa as barreiras do preconceito e do desinteresse, ao mesmo tempo que provoca e cutuca. E essa é a nossa intenção”, argumenta.

Matheus_poe na roda 2

O Canal das Bee, que também tem conquistado um público fiel e grandes números de audiência, diferencia-se por abordar assuntos ligados à comunidade LGBT de forma mais militante e ativista. Jessica Tauane, que criou o canal como trabalho de conclusão do curso de Comunicação e Multimeios da PUC-SP, acredita que o maior trunfo de sua iniciativa é conscientizar o público jovem. “Eles já crescerão com uma visão que nós, da equipe, não tivemos. Queremos que eles tenham consciência do peso político de sua própria existência, dos direitos que conquistamos com muita luta e aqueles que ainda precisamos conquistar. Este é o legado que queremos deixar”. Mas apesar do ativismo, Jessica deixa claro: se engana quem pensa que o canal só fala sobre coisa séria. Assim como outros canais voltados ao público gay, entretenimento é o que não falta. “Tentamos balancear o ativismo e o humor. Ninguém é 100% futilidade ou 100% seriedade. Ao mesmo tempo que lemos artigos e vamos a manifestações, também ouvimos Valesca e descemos até o chão!”, brinca.

Matheus_canal das bee 2

Iniciativas como essas, que priorizam aspectos primordiais como a visibilidade, também são apoiadas pela militância política LGBT. Diego Whisllety, ativista e integrante do Gozze! Coletivo de Luta pela Diversidade Sexual, da Universidade Federal de Santa Catarina, vê este movimento como algo positivo. “Inegavelmente, hoje a internet se mostra como um dos principais meios de comunicação. Levar esses assuntos para a web é, sem duvida, garantir que se discuta sobre eles. É trazer um tema, que geralmente era renegado a posições secundárias dentro das discussões sociais, para o centro delas”. Entretanto, Diego também reforça a questão do cuidado ao tratar de determinados temas. “Se não houver cautela com o modo como estes canais divulgam informações, corre-se o perigo de, ao invés de combater certos tabus e estigmas, eles acabarem promovendo novos preconceitos e inverdades acerca da homossexualidade. O humor, apesar de ter o poder de tornar discussões mais interessantes e eficazes, também pode acabar disseminando e naturalizando preconceitos”, adverte.

Além dos canais e portais voltados para o público gay, as redes sociais também têm se mostrado como uma relevante peça no quebra-cabeça da luta pela visibilidade LGBT no Brasil. Virgínia Nunes é ativista e administra páginas e grupos sobre questões militantes da comunidade homossexual na Bahia, principalmente no que se refere aos direitos de mulheres lésbicas e bissexuais. Para ela, as redes sociais têm grande importância justamente pela amplitude de pessoas que atingem. “Através da internet, lutas em favor de maior visibilidade LGBT e contra a lesbo-homo-transfobia, por exemplo, conseguem chegar a pessoas que normalmente não estão envolvidas com a militância ou com grupos organizados”, esclarece.

Em um país em que um LGBT é morto a cada 28 horas, segundo dados do Grupo Gay da Bahia (GGB), a questão da visibilidade é de extrema importância. De acordo com o mesmo grupo, que é a instituição mais antiga ainda em atuação pela defesa de direitos homossexuais no país, entre 2013 e 2014, 40% dos assassinatos contra pessoas transexuais e travestis no mundo aconteceram no Brasil. Este cenário fica ainda mais perturbador quando relacionado a uma estimativa, ainda da mesma organização, que mostra que a média de vida de pessoas trans no Brasil chega a apenas 36 anos, contra 73 do restante da população. Apesar de conquistas históricas como a decisão pela constitucionalidade da união civil homo afetiva, reconhecida em 2011 pelo Supremo Tribunal Federal, propostas de lei que criminalizam a homofobia e que solicitam emendas na Constituição Federal que garantam o casamento civil igualitário ainda são barradas por setores reacionários da política brasileira. Assim, a necessidade da visibilidade LGBT vem se mostrando como um primeiro e importante passo rumo às conquistas por direitos e oportunidades iguais entre homossexuais e heterossexuais no Brasil.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s