Os dez personagens da Oktober

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Luiz Braun

É costumeiro dizer que o Brasil só começa depois do carnaval, dada a sua magnitude para o país. O envolvimento das pessoas e o dinheiro destinado são enormes. Essa festa tem mais relevância no sudeste e nordeste do que aqui no sul. É menos importante ainda no vale do Itajaí e no seu principal município, Blumenau. Nascido lá, sei que a única importância do carnaval para a cidade é o feriado.

Apesar da falta de espírito carnavalesco, o festivo está sim presente na cidade, desde 1984, no mínimo, após uma enorme enchente. Para alegrar o ânimo da população, a Oktoberfest foi criada, baseada na original de Munique – industriais e comerciantes já queriam a festa antes, a enchente serviu de motivo. Nessa primeira edição, que tinha apenas dez dias, 102 mil pessoas – metade da população – consumiram, em média, um litro de chope cada uma no antigo Pavilhão A da Proeb.

O melhor exemplo que eu posso usar para explicar a importância da festa é que até a Farmácia Popular usa o evento para se promover. No caminho para a Vila Germânica há um grande outdoor mostrando que eles vendem Engov e Estomazil a preços pequenos (quando foi a última vez que você viu um outdoor da Farmácia Popular?).

Esse ano, como sempre, possui algumas surpresas. A mais curiosa é a criação de um lounge feminino com cinco banheiros, berçário e até um espaço exclusivo para que retoquem a maquiagem. Muito luxo. A mais relevante, no entanto, é relativa apenas às edições dos próximos seis anos. Poucos dias após eu deixar a cidade, a Brasil Kirin se tornou a nova cervejaria oficial da Oktoberfest – e da Sommerfest também. A Ambev, que comandava a festa há anos, abriu mão de sequer participar do processo de licitação, poucos minutos antes do momento da entrega dos documentos. Dizem que o principal motivo foi o valor de 24 milhões de reais que deveriam ser investidos, o que pesou. A Brasil Kirin tem que pagar R$ 1,5 milhão anualmente para a Vila Germânica até o fim do contrato em 2020 e deverá construir, até setembro do ano que vem, um quarto pavilhão, onde hoje fica o Biergarten (“jardim da cerveja”, fica no espaço externo da Vila Germânica). Também fica responsável pela decoração da festa. O chope oficial, obviamente, também mudou. Sai Brahma e entra a blumenauense Eisenbahn. Isso mesmo, a cervejaria optou pela conterrânea em detrimento à outras marcas mais famosas e baratas de produzir que possui, como Devassa ou Schin. Isso não impede, no entanto, que essas duas sejam vendidas em maior escala ou com preço reduzido.

Apesar de todas essas novidades, alguns problemas ainda são crônicos. O maior creio ser a dificuldade que é tentar agradar tanto jovens solteiros quanto famílias.

Segue abaixo uma lista de quem você encontraria na edição desse ano, independente do dia em que fosse. São os 10 personagens básicos. Ok, talvez quem foi não tenha encontrado todos, mas pelo menos uns cinco, vai. Abstive-me de colocar “o bêbado” porque, bom, é como sair na chuva sem guarda-chuva e se molhar.

Playboys e as novinhas querendo curtir a festa

Esses aí, encontrei no ônibus de Florianópolis para Blumenau. Um grupo de quatro homens de 25 a 30 anos, usando roupas e acessórios de marca, sentou bem próximo a mim. A bateria do meu celular logo morreu e passei a ter o prazer de escutar os seus planos para a festa. Vou resumir porque a maior parte do trajeto por parte deles foi mostrar um ao outro coisas engraçadas do facebook pelos seus smartphones – acesso à Internet via 3G, eles reclamaram de não haver wifi no ônibus: beber muito e pegar novinhas. Ao descer do ônibus, como prova de que até preparação para o vestibular precisa de um descanso, encontrei duas meninas com a camisa do Energia. Elas estavam reclamando do stress da viagem, mas já tinham um plano para se curar: beber bastante. Não pude deixar de pensar em como o destino foi infeliz, ao ter separado esses dois grupos em três fileiras no ônibus. Mudando de assunto, as meninas não sabiam se paravam na Ponta Aguda (bairro separado do centro por uma ponte) ou na própria rodoviária. Não deixavam de ser…

Turistas Perdidos

Os turistas não têm culpa de se perderem às vezes, mas… Quase sempre forçam a barra. Desde uma que confundiu a camisa da seleção alemã com “a camisa de Blumenau” (nem sabia que uma cidade poderia ter uma camisa) até aqueles que comentam, enquanto compram um caneco, que os alemães se vestem realmente como são os trajes típicos, pois eles tinham visto na internet. Talvez seja implicação minha depois de anos aguentando um trânsito insuportável na cidade em outubro. Mesmo assim, a forma com que o município se prepara merecia turistas menos “perdidos”. Além de outdoors de marcas de cerveja dando boas-vindas a eles, a própria organização ainda emenda um “e volte mais vezes”. Há alguns calendários pela cidade lembrando de outras festas – desde a de Natal até a Sommerfest, conhecida como a versão de verão da celebração de outubro.

Alguns moradores têm até reclamado que a Oktoberfest deixou de ser para os blumenauenses e começou a focar exclusivamente nos turistas. O principal argumento é que o traje típico não mais significa entrada gratuita toda a semana. A organização rebate dizendo que quem vai de traje típico o faz porque gosta, não pensando em isenção. Além disso, a política atual tem maior controle sobre e, portanto, limita, o número de visitantes, aumentando o conforto de quem comprou com antecedência. Quem possui traje pode entrar de graça de domingo a quarta e, nos dias em que há mais visitantes – quinta a sábado –, pagam meia. Aliás, se posso deixar um grande conselho aqui, que provavelmente ainda será válido no próximo ano, é o de comprar inteira nesses dias de pico. É mais caro, sim, mas te poupa de muito tempo na fila, visto que há um acesso exclusivo para inteiras que é bem mais rápido. O segundo grande conselho é: compre antecipadamente nesses mesmos dias. Fui no primeiro sábado (11 de outubro) e na metade da tarde já ouvi que os ingressos estavam acabando. Se você se esquecer, só resta recorrer ao…

Cambista

Aqui está quem tem o maior índice de lucro da festa. Revende o ingresso por um preço no mínimo três vezes maior do que comprou. Fui até aconselhado pela própria moça da bilheteria que, se mudasse de ideia quanto a ir à noite, deveria vender. No ano passado, quando a imprensa publicou que 30 mil pessoas ficaram de fora em algumas noites – enquanto a assessoria de imprensa falava em 6 mil -, um conhecido dela vendeu um ingresso por 300 reais. Por um momento até pensei em fazê-lo. Ah, por falar na…

Moça da Bilheteria

Não pude deixar de comentar com ela que os preços aumentaram em relação ao último ano. Tanto nos ingressos (de 20 para 25 reais) quanto em alguns chopes, como o Brahma Black (de 6 para 8 reais) – o tradicional da Brahma ainda é 6. Principalmente porque você acaba pagando só para respirar o ar da Vila Germânica, já que nada lá é open. A resposta dela foi simples: Inflação. Eu acabei rindo na hora, mas não é que ela estava certa? Fui conversar com o secretário de turismo Ricardo Stodieck e ele me disse que foi justamente esse o motivo para o acréscimo nos valores. Também me garantiu que até a 2016 o preço continuará o mesmo para o ingresso – comida e bebida fogem do seu controle.

Meu receio era de que o aumento estivesse ligado a um repasse menor de verba por parte do governo do estado. Blumenau pediu 2,3 milhões de reais para a organização do “Blumenau em Festas”, que reúne Oktoberfest e as celebrações de Natal e Reveillon. Recebeu 1,3 milhão. A prefeitura determina à organização da festa que ela se pague, pois não investirá dinheiro de saúde e educação nela. Para piorar, o que foi injetado no último ano, 700 mil reais, teve que ser devolvido, já que a festa deu lucro. O governador Raimundo Colombo disse que não conhecia essa lei da devolução e, não a achando justa, planeja muda-la para que o dinheiro seja reinvestido em outros projetos do turismo. Ainda nesse tópico, Stodieck teceu uma crítica ao carnaval em Florianópolis – que, como falei no começo, não é tão popular quanto em outros lugares. “Carnaval não traz turista. Nós não achamos justo que duas escolas de samba somadas ganhem mais que a Oktoberfest. Para duas noites. Não sei o valor exato, mas acho que de 3 a 4 milhões”. A queixa é compreensível. A Oktoberfest acabou criando uma terceira temporada de turismo no estado, além das férias de inverno e verão. Mas enfim, voltando para os bilhetes. Se comprar “ao vivo” não for possível, a outra opção é o site da Blueticket. Mas aviso que, se houver algum erro, não adianta nada reclamar com a…

Secretária da Administração

Enquanto esperava a entrevista com o secretário, vi a loirinha simpática resolver todo o tipo de problema. Um denominador comum a eles foi o que eu disse: comprou errado via blueticket, resolva com a blueticket. A empresa não é contratada direta da organização. Quem a contratou foi a Blucredi, única a participar da licitação para gerir as finanças pelos próximos quatro anos. Quem também reclamou, mas não para a secretária, foram os frequentadores do badalado camarote da Brahma, cujo ingresso custa 210 reais. Enquanto que nos últimos anos eles traziam celebridades para fazer presença VIP (como Sabrina Sato e Cafu em 2013), esse ano a aposta é em atrações VIP. Um exemplo é o DJ Jesus Luz, na madrugada do dia 11. O público tem reclamado de que querem atrações típicas. Estranhei a reclamação, devo admitir . Meia hora circulando pelos pavilhões já me faz enjoar de bandinhas alemãs – sim, sou um ou descendente meio fajuto. Então, sugeriram um meio termo: DJ’s alemães. Não vejo grande diferença, mas no camarote as coisas são diferentes da pista. Voltando para a secretária, ela teve que enfrentar outro problema. Um fotógrafo ficava entrando na assessoria de imprensa constantemente para pegar refrigerantes que eram destinados para quem ali trabalhava. Ela pediu para que um estagiário brigasse com ele. Fiquei até com receio de aceitar a água que me ofereceram. Ah, esses…

Jornalistas

Quando entrei na Vila Germânica, logo vi que a assessoria de imprensa havia mudado de lugar – o anterior agora sendo ocupado pela segurança. Talvez seja um pessimismo particular, mas logo imaginei a assessoria sendo passada para algum buraco subterrâneo onde os jornalistas ficam vendo vídeos maravilhosos sobre a Oktober como no Laranja Mecânica. Fui contrariado – ainda bem. A estrutura ficou maior e muito mais bonita, com uma boa vista para a própria Vila. Ah, os refrigerantes eram pra todos os jornalistas, por sinal, só que também não abusa, meu filho.

Quem possui um lugar ainda mais privilegiado é a RBS, com uma cabine/estúdio própria no meio da Vila, já desde o ano passado. Não é privilégio a eles por parte da organização, a rede ganhou porque pediu e pagou sozinha. A RIC também solicitou uma nesse ano, mas não conseguiu montar. Para o ano que vem, terão a deles. Quem sabe o Quatro também não consiga? Essa cabine, durante a manhã e a tarde, até que não são muito úteis, mas à noite, o trabalho fica muito difícil. Principalmente para telejornalistas. É muita, mas muita gente mesmo. Praticamente impossível não encontrar um…

Conhecido

É mais fácil para mim encontrar conhecidos porque eu sou de lá, de fato. Mas acabei revendo amigos de Curitiba que não via há cinco anos. Encontrei até pessoas daqui de Florianópolis que não conhecia. Um rapaz e sua namorada me pararam dizendo que me conheciam da Cachoeira do Bom Jesus, eu cumprimentei, perguntei se estudavam na UFSC. Eles disseram que não, mas tudo bem, eu também nunca fui à Cachoeira do Bom Jesus. Ficou por isso mesmo. Essas muitas pessoas que estão lá têm um número exato: 37.704 visitantes e 3.000 trabalhadores. Por determinação da justiça, esse é o número máximo de pessoas que pode estar presente ao mesmo tempo na Oktoberfest desde o ano passado. Apesar de ter sido determinado na mesma época, esse limite nada teve a ver com o incidente na boate Kiss. O motivo foi um processo no ministério público movido por uma visitante que se sentiu lesada pelo excesso de pessoas. Mesmo havendo um número considerado seguro, a minha impressão é de que, se algo acontecesse, poucos naquele formigueiro que são os pavilhões teriam um fim de noite feliz. De qualquer forma, já é um avanço aos outros anos, em que não havia limite algum. A ineficácia desse número em trazer um conforto muito maior acaba sendo mais um argumento para os…

Reclamões

É muito fácil encontrar blumenauenses reclamando. Como no carnaval, muitos deixam compromissos para depois da Oktober. Alguns para curtir mais a festa, outros para não enfrentar o trânsito, aglomerações, bêbados inconvenientes, ladrões que veem no maior número de turistas mais oportunidades, etc… Esses reclamões estão presentes até mesmo dentro da Vila. Enquanto observava a festa no final da passarela que liga o estádio Galegão à Oktoberfest, algum bêbado estava sendo levado para fora por seguranças. Um reclamão passou por mim e disse: “Que vergonha. Imagina quando colocarem funk aqui!” e seguiu o seu caminho. É muito provável que ele frequentasse a Oktoberfest em família. De fato, é a dualidade que mencionei no começo. Enquanto caminhava a noite, dificilmente encontrei alguém com idade superior a 30 anos e/ou abaixo de 16. Todos em busca de festar, digamos. A organização tem tentado brigar contra isso e tornar a festa o máximo familiar possível. Por isso estão liberando a entrada de graça todos os dias para o almoço, tornando as atividades do Kinderplatz (dedicado às crianças, fica no ginásio do Galegão) gratuitas à tarde dos dias de semana e, até mesmo, tiraram o álcool do chope in metro! De fato, durante a manhã e a tarde, vi na maioria casais lanchando, muitos deles acompanhados de filhos ou idosos. Poucos solteiros e quase nenhum havia passado da conta. À noite, é exatamente o contrário. E o álcool em excesso no caneco de alguns solteiros pode ser perigoso e torna-los…

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Bêbados abusados

Muitos homens, movidos pela coragem extra da bebida, passaram a tratar, no mínimo de forma desrespeitosa, algumas mulheres. Tudo bem que as curtas saias de alguns trajes típicos podem ser motivadoras, mas há limites para tudo. Acho bem claro que quando a menina está correndo de você, ela não quer ser envolver. Isso não impediu, por exemplo, um carioca que ficava agarrando algumas delas, bem próximo da entrada, dizendo que queria tirar uma foto. Alguns rejeitados levam na esportiva, riem sozinhos, outros ficam agressivos. Em algum momento, ouvi alguém falando: “Poxa (façamos de conta que foi essa a palavra usada), você vai beijar ou não?” Claro, há alguns males que vêm para o bem. Uma menina que diz não ao beijo pode começar uma amizade. Mas não bem da maneira que você pensa. Uma loira alta estava passando de um pavilhão para outro e chamou a atenção de um rapaz, que começou a segui-la. Enquanto isso, ela chamou a atenção de outro, que também passou a segui-la. Em algum momento, o segundo perguntou ao primeiro: “Você também está indo atrás da loira?” “Sim”. E ficaram conversando um tempo, esquecendo-se de persegui-la. O que os motiva, provavelmente, é o caso de um rapaz de camiseta branca que simplesmente puxou uma menina que entrava no pavilhão 3 e a beijou. E assim ficaram por um bom tempo, com pausas momentâneas para trocar quem sabe uma ou duas palavras. Muito provavelmente porque, quando ele abria a boca para falar, ela se arrependia um pouco. O amigo do camiseta branca, o camiseta laranja, não teve tanta sorte assim com outras. Não que isso o tenha impedido de tentar. Bom, por fim…

A sua melhor amiga: A fila

Não duvide. Ir para a Oktoberfest significa pegar fila. Eu mesmo nem sei quantas peguei. De cabeça, lembro que já na compra da passagem de ida peguei uma senhora fila. Depois veio a fila para sair da ilha e a para entrar em Blumenau. E por aí vai. Se você detesta pegar fila, nem se preocupe em sair de casa. Ela nunca vai te abandonar. Um verdadeiro anjo da guarda. É melhor, então, abraça-la. Com certeza, é tão símbolo da Oktoberfest quanto o próprio chope.

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