“Povo burro e pobre tem que morrer naquele lixo que vive mesmo”

Redes Sociais são usadas para publicar mensagens xenofóbicas, a grande maioria contra o Nordeste

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Dener Alano

Eles são em sua maioria jovens e dizem que acreditam na liberdade de expressão. Usam desse direito para publicar suas opiniões em redes sociais. Conversado com nove pessoas que usam o Facebook e Twitter para expor suas ideias ficou claro: eles creem que grande parte dos problemas do Brasil são causados pelo Nordeste do país. Alguns vão mais longe, contestam a atual estrutura geográfica do Brasil, isto é, são a favor de uma divisão territorial.

A Região Nordeste do território brasileiro é composta pelos estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe. Dados do Censo Demográfico de 2010, do IBGE, a população nordestina totaliza 55 milhões, compondo cerca de 29% dos habitantes. A economia nordestina está em constante processo de desenvolvimento. A região vem recebendo várias indústrias, um dos motivos é a concessão de benefícios fiscais dados pelos governos estaduais. A agricultura e a pecuária são extremamente prejudicadas com a irregularidade das chuvas, o destaque nesse setor é a criação de cabras, em razão da fácil adaptação do animal ao clima. Apresenta uma significativa criação comercial de camarão, concentra 97% da produção nacional desse crustáceo. Conforme dados do Instituto Brasileiro do Turismo, de 2009, capitais nordestinas como Salvador, Fortaleza, Recife e Natal estão entre as cidades brasileiras que mais recebem turistas estrangeiros. A participação do Nordeste para o Produto Interno Bruto (PIB) nacional é de 19,1%.

A região apresenta vários problemas socioeconômicos. Os estados nordestinos ocupam as últimas colocações no ranking nacional de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). A taxa de mortalidade infantil é a maior do país – 33,2 óbitos a cada mil nascidos vivos. Cerca de 55% das residências não possuem saneamento ambiental. A expectativa de vida do nordestino é a menor do Brasil – 70 anos.

Mas nos últimos anos, notam-se mudanças. A desnutrição infantil, por exemplo, sofreu redução de 67% num período de dez anos (1996 – 2006), conforme dados divulgados pelo Ministério da Saúde. Possui uma grande diversidade cultural com elementos indígenas, dos escravos africanos e dos imigrantes europeus. É um dos complexos regionais mais ricos em manifestações culturais do país.

O perfil no Twitter chamado Culpa do Nordeste revela casos de xenofobia na rede de microblogs. Essa é uma das postagens que circulam na rede: “Tinha que separar o nordeste daqui, povo burro e pobre tem que morrer naquele lixo que vive mesmo”. Este é um exemplo de publicação que chocou um usuário do Twitter que, há um mês, faz a denúncia de mensagens com conteúdo preconceituoso relacionado à região. “Quando eu comecei a ver a quantidade de comentários que existiam com esse ódio eu decidi dar um jeito de mostrar que ainda no século XXI existe gente assim”, desabafa.

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Carmén Rial, antropóloga e especialista em sociedade urbana da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), relata a gravidade que esse tipo de manifestação pode gerar. “Há casos de crimes cometidos contra nordestinos que são explicados pelos autores por ódio. Estas postagens alimentam esse ódio, criando um pensamento que transforma os nordestinos em não-pessoas. Sabemos como esse mecanismo funciona desde os crimes da II Guerra. Esses crimes são a forma extrema desse ódio. Mas há outras faces, também extremas, pode levar a suicídios, ou menos radicais, mas também danosas, como a baixa autoestima, o bullying nas escolas e a exclusão social”, afirma a especialista.

Nas redes sociais o número de publicações desse gênero só aumenta. As pessoas que postam essas mensagens estão espalhadas pelos mais variados lugares do país. Rapidamente é possível localizar uma centena de comentários carregados de ódio, a maioria contra o Bolsa Família – programa de transferência direta de renda que beneficia famílias em situação de pobreza e de extrema pobreza em todo o país e tem como foco de atuação os milhões de brasileiros com renda familiar per capita inferior a R$ 77 mensais. Este é um exemplo: “Nordestino merece a fome e a seca que passam, sustentados pela merda do bolsa família”.

Para quem publica, tudo não passa de críticas e o entendimento de que estão exercendo a liberdade de expressão que têm por direito. Um dos usuários acrescenta: “Hoje as pessoas querem ser politicamente corretos, eu só uso a internet para falar o que muita gente pensa, só que não têm coragem de dizer”.

Fernando Peres é advogado e especialista em crimes cibernéticos e conta que qualquer um que se sinta ofendido com alguma dessas publicações pode fazer uma denúncia para a Polícia Estadual ou Federal – sem custo algum. “A definição de Liberdade de Expressão é muito clara, e em nada se trata do direito de falar qualquer coisa. Todos têm a liberdade de expressar sobre qualquer assunto, desde que isso não fira o direito de outra pessoa. Os limites são claros e não podem ser confundidos”, afirma o advogado. A pena pode chegar a até cinco anos de reclusão e multa. Um registro da tela com as mensagens ajuda em um processo judicial, e se a vítima receber um ataque direcionado deve procurar a ajuda de um advogado para que, então, sejam tomadas as medidas judiciais adequadas.

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