Ir ‘Além da Lousa’ para enxergar mais longe

Projeto desenvolvido com alunos do Ensino Médio em Bauru estimula o conhecimento e a aplicação da ciência fora da sala de aula 

Além_da_Lousa

Por Amanda Ribeiro

Allan Santos Costa tem 17 anos e cursa o terceiro ano do Ensino Médio em uma escola de Bauru, no interior do estado de São Paulo. Ele frequenta normalmente as aulas, gosta bastante da área de ciências biológicas e ainda não tem muita certeza sobre que profissão quer seguir. Fora do horário letivo, talvez se diferencie um pouco dos adolescentes de sua idade: gosta de lutar capoeira, praticar esportes como hockey e participa de um grupo de street dance no colégio. E as diferenças não param por aí: Allan também dá palestras sobre engenharia aeroespacial no Instituto Meteorológico (IPMet) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), foi um dos 33 alunos que tiveram seu currículo aprovado em uma das universidades mais inovadoras dos EUA e, aos sábados, participa de uma atividade que o levou a se apresentar em cinco feiras de ciências, representar o Brasil em três olimpíadas internacionais de conhecimento, construir e lançar uma sonda meteorológica e ser finalista de um concurso da universidade de Harvard. Allan é um dos fundadores e líderes do ‘Além da Lousa’, grupo de cerca de dez alunos do colégio COC de Bauru, que merece atenção por desenvolver uma maneira completamente inovadora de educar. E esse é seu maior mérito.

O projeto foi criado há cerca de dois anos em parceria com o professor João Carlos Ariedi Filho, contratado para ministrar os tenebrosos plantões de física do colégio. Contrário à educação formal que era ministrada na sala de aula, o professor decidiu propor à direção a criação de um grupo de estudos que desenvolvesse projetos fora da escola. João Carlos correu de sala em sala anunciando a criação de um grupo que ainda não tinha nome, mas que se propunha a integrar a educação e a vida e mostrar que o conhecimento não servia apenas para passar em testes teóricos: ele deveria ser aplicado em situações cotidianas. De todos os alunos procurados, cerca de dez se prontificaram; Allan, ainda no primeiro ano, estava entre eles.

No início, o grupo se limitava a discussões sobre os mais variados assuntos, não tinha laboratório próprio e materiais para trabalhar em seus projetos e era um pouco desacreditado. Não demorou muito, no entanto, para que ganhasse a atenção da direção do colégio e a permissão para utilizar uma sala aos sábados, fora do horário letivo. Alguns meses depois, surgiu a oportunidade de participar de uma feira científica na cidade. Os alunos se inscreveram e apresentaram seus projetos. Segundo Matheus Linares, um dos membros do Além da Lousa, foi depois de algumas apresentações como essa que o projeto se fortaleceu e os membros, antes tímidos, ganharam confiança e fama no colégio.

Amanda_Joao Carlos Ariedi

João Carlos quis ir além dos tenebrosos plantões de física.

Matheus tem 17 anos e foi um dos que se prontificou a participar do Além da Lousa logo no início. Ele é colega de sala de Allan, sempre tirou boas notas e está se preparando para prestar o vestibular para administração no final do ano. Antes inseguro e um pouco recluso, viu no grupo uma oportunidade de provar a si mesmo que poderia conseguir o que quisesse, desde que se esforçasse. Dois anos depois, sua autoestima e sua desenvoltura cresceram, acompanhadas pela maneira como enxerga suas tarefas e responsabilidades. “Eu sempre almejei e almejo concretizar feitos consideráveis e provar que consigo. Vi o grupo como uma oportunidade de ir além das simples aulas teóricas que temos todos os dias”.

Lucca Panice conta que também viu sua autoconfiança crescer a cada projeto do Além da Lousa que apresentou ao público. Com 15 anos, o orientando mais jovem de João Carlos entrou no grupo há cerca de um ano por um motivo inusitado: “Desde criança gostei de coisas de montar. Tudo que envolvesse trabalho manual e intelectual era ótimo. Adorava coisas como lego e quebra-cabeças. Ouvi dizer que essa era a proposta do Além da Lousa e decidi entrar”. Hoje, Lucca dá palestras sobre astronomia no IPMet, ao lado de Allan, e decidiu que vai seguir a área de engenharia aeroespacial, que atualmente tem quatro cursos no Brasil e forma apenas metade dos profissionais de que o mercado precisa.

Educação não é preparação para a vida,

a educação é a própria vida.

A deficiência profissional no Brasil não se restringe ao campo da Engenharia Aeronáutica – a lacuna é muito maior. Atualmente, este é o país da América do Sul que mais possui projetos científicos em andamento: são cerca de 40 mil estudos, 31 mil a mais do que a Argentina, segunda colocada da região. O país, no entanto, perde para a maioria dos países no que diz respeito ao número de pesquisadores: a profissão de cientista não é nem mesmo regularizada no país.  João Carlos Arieldi acredita que o descaso com a ciência é resultado de uma falha educacional no Brasil, que atualmente se preocupa em formar funcionários e não empreendedores. “Educação não é preparação para a vida, a educação é a própria vida. A ciência é importante na sociedade porque faz um caminho de exposição dos erros; mesmo não indicando qual é o caminho certo, ao menos exclui os errados. É importante mostrar aos alunos que o que existe não é a sala, e sim o mundo. O mapa do território não é o território; o cardápio não é a refeição”.

Amanda_Balão_Além_da_Lousa

O ‘Além da Lousa’ pode não ter crescido em números nos últimos dois anos, mas cresceu em conhecimento. Pelo menos, é isso que transparece na fala de Allan, que recebeu há pouco tempo a notícia de que foi admitido no Instituto Minerva, gerido por, entre outros, o ex-diretor de Harvard, Larry Summers, e que tem a proposta de funcionar como uma universidade móvel, que leva os alunos a cada semestre para uma parte diferente do mundo e os estimula a se tornarem grandes pesquisadores e líderes mundiais. Allan hoje está à frente do Além da Lousa e conta que as experiências pelas quais passaram todos os alunos do projeto acabaram fomentando uma nova filosofia: a de trazer para dentro das escolas não a ciência das disciplinas teóricas, muitas vezes enfadonha e despercebida, mas a ciência como visão de mundo, como forma de entender tudo – ou quase tudo – que nos rodeia. “Nossa proposta é tentar mostrar para os alunos que as ciências, sejam humanas, naturais ou exatas, estão presentes, aqui e agora, no nosso mundo. Não são leis físicas aleatórias ou padrões históricos esquecidos. São modelos e tendências que são concebíveis e aplicáveis. O mundo é, por assim dizer, o nosso laboratório.”

Veja o vídeo do projeto.

Este é o último ano da maior parte dos membros do ‘Além da Lousa’, que devem estar em universidades no início do próximo semestre. João Carlos, no entanto, não tem a intenção de deixar o projeto acabar. Pretende realizar uma campanha no início do próximo ano para atrair mais alunos para o grupo. Talvez agora, depois de todas as feiras de ciências, da divulgação nos jornais, do concurso em Harvard e da aprovação em uma das universidades mais inovadoras do mundo, ele não precise mais bater de porta em porta anunciando um grupo que propõe mesclar a ciência e a vida e levar a educação para fora da sala de aula.

Os alunos do COC de Bauru vão conhecer Allan, Matheus e Lucca, e se assombrar com a quantidade de conhecimento que deixam transparecer. Vão admirar suas visões da ciência e da vida – ou, talvez nesse ponto, já percebam que enunciar vida e ciência é repetir palavras, já que uma e a outra não existem sozinhas – e sua contribuição em algo que excede as fronteiras do colégio e da cidade. Algo que dá uma esperança, substancial e quase silenciosa, à estrutura do sistema educacional brasileiro, para que deixe de formar seus funcionários e forme pessoas com verdadeira sede de conhecimento.

As condições e o reconhecimento do projeto podem ter mudado, mas sua filosofia está intacta: “Continuar inspirando jovens a levar seus estudos para ‘Além da Lousa’ e ajudá-los, senão a se tornarem empreendedores, ao menos a compreender o poder da ciência à sua volta”.

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