Rehab sem celebridades e luxo

O lado desconhecido dos centros de reabilitação dos Estados Unidos

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Por Bruna Silva

em sua estada nos EUA.

Nos Estados Unidos, é necessário ter 21 anos para consumir bebidas alcoólicas. Diferente do Brasil, onde a lei federal que proíbe a venda de tais produtos aos menores de idade é frequentemente burlada, os estabelecimentos norte-americanos são extremamente rigorosos quanto à venda de álcool. E os adolescentes não são os únicos a serem barrados pelos proprietários das lojas de bebidas, as liquor stores (únicos estabelecimentos credenciados para vender destilados, como vodca e tequila, por exemplo). Em 12 estados, a venda de álcool no domingo é proibida, independentemente da idade do consumidor. Apesar das leis e da forte fiscalização, dados da Pesquisa Nacional sobre Uso de Drogas e Saúde (NSDUH, na sigla em inglês) de 2007 revelaram que, naquele ano, 23,2 milhões de norte-americanos maiores de 12 anos, o que corresponde a 9,4% da população do país, precisaram de algum tipo de tratamento para dependência de droga ou álcool. Dessas pessoas, apenas 2,4 milhões foram encaminhadas para um centro de reabilitação ou hospital.

Dentre as dez clínicas de reabilitação mais luxuosas do mundo, nove estão localizadas em território norte-americano. Os programas de recuperação desses centros custam entre 26 mil e 40 mil dólares por mês e, como é o caso da clínica Promises, na Califórnia, por onde já passaram as celebridades Lindsay Lohan, Robert Downey Jr. e Britney Spears, oferecem cardápio gourmet, academia de ginástica e atividades ao ar livre. Porém, para a maioria dos norte-americanos, essa não é a realidade – e é por isso que os centros de reabilitação cristãos estão se tornando cada vez mais comuns. Gratuitos, eles acreditam que a espiritualidade torna o tratamento mais fácil.

O estado da Carolina do Norte faz parte do Cinturão da Bíblia, região do sudeste dos Estados Unidos onde os evangélicos são maioria e o poder da fé influencia, por exemplo, a educação e a política. Em Durham, a quinta cidade mais populosa do estado, com cerca de 245 mil habitantes, um antigo hotel de beira de estrada foi transformado em um centro de reabilitação para mulheres e crianças, em 2002. O Good Samaritan Inn (Pousada Bom Samaritano, em tradução livre) é a segunda clínica de reabilitação construída pela Durham Rescue Mission (Missão de Resgate de Durham) na cidade. A outra, localizada no centro de Durham, recebe apenas homens. Juntos, os dois estabelecimentos abrigam cerca de 400 pessoas.

O quarto de número 216 da Pousada Bom Samaritano é onde moram os recém-casados Susanna Linder, de 46 anos, e Wesley Linder, de 45 anos. Eles procuraram o centro de reabilitação em fevereiro de 2014. Antes, ela trabalhava como florista e ele estava desempregado. Os dois se conheceram na cidade de New Bern, no litoral da Carolina do Norte. Em comum, tinham apenas um aspecto: ambos eram viciados em cocaína. Em novembro de 2013, alguns meses depois que começaram a namorar, Wesley sofreu um AVC. Susanna estava cortando o cabelo dele quando o homem sentiu o lado esquerdo do corpo paralisado. Depois de se recuperar completamente, Wesley, que havia ajudado a construir a Pousada Bom Samaritano em 2002, sugeriu à então namorada que procurassem o centro de reabilitação.

Quando chegaram a Durham, Wesley foi encaminhado ao abrigo para homens e Susanna começou a dividir um quarto com outras mulheres na pousada. Ela conta que a primeira semana foi a mais difícil, já que ela não acreditava em Deus e tudo que as pessoas falavam sobre religião não fazia o menor sentido para ela. “Mas as coisas melhoraram com o passar do tempo”, confessa. Um mês depois, Wesley pediu a namorada em casamento. A Pousada Bom Samaritano permite que alguns casais vivam juntos e, após oficializarem a união no cartório local, Wesley e Susanna conseguiram um dos quartos duplos do abrigo. Atualmente, seis casais vivem na pousada.

A coordenadora do programa de reabilitação para mulheres, Lois Cooper, explica que o centro é totalmente gratuito e oferece um quarto e três refeições por dia para os pacientes. “Em troca, eles nos ajudam a manter o abrigo. Alguns trabalham na cozinha, outros fazem manutenção, uns ajudam na creche”, esclarece. Além do trabalho, é obrigatório participar das aulas diárias sobre a Bíblia e ir ao culto no domingo.

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Susanna trabalha na recepção da Pousada Bom Samaritano cinco dias por semana, quatro horas por dia. Ela atende ao telefone, anota recados, faz o controle de quem entra e de quem sai, e é responsável pelas correspondências. Assim que recebe os pacotes e cartas, Susanna os encaminha para a direção do centro de reabilitação. “As mulheres que vivem aqui ainda estão muito frágeis, então é necessário checar a correspondência, procurar por qualquer coisa que possa causar tentações”, explica Lois Cooper. Ela conta que, para muitas mulheres, a carta é o único meio de comunicação com a família que deixaram para trás, já que o acesso à internet e ao telefone é proibido no centro de reabilitação.

Depois do trabalho, Susanna assiste às aulas sobre a Bíblia e ajuda a cuidar das crianças que ficam na creche do centro de reabilitação. Atualmente, 47 crianças entre 1 e 10 anos moram na Pousada Bom Samaritano. A maioria delas é criada por mães solteiras. Susanna também é mãe. Ela tem duas filhas. A mais nova, Mikayla, de 11 anos, mora no estado da Carolina do Sul com o pai e a madrasta. Elas conversam por telefone  todas as noites – os casais são os únicos que possuem celular – e a menina sabe que a mãe está se recuperando de um vício em drogas. A mais velha, Nicole, de 30 anos, mora em Nova Iorque. Ela também é viciada. Mãe e filha não conversam muito.

Susanna relata que algumas mulheres não gostam da Pousada Bom Samaritano. Elas reclamam da falta de conforto, das crianças chorando no meio da noite, ou de serem obrigadas a assistir aulas sobre a Bíblia. Ela, no entanto, não tem reclamações. “As drogas já me levaram para lugares bem piores”, enfatiza. Susanna tinha 12 anos quando a irmã mais velha, que morreu de overdose em 2006, lhe ofereceu maconha pela primeira vez. Alguns anos depois, quando Susanna trabalhava como enfermeira, ela foi presa por portar prescrições falsas, o que lhe rendeu um ano em uma prisão de segurança máxima para mulheres na Carolina do Sul. Na prisão, ela sofreu um aborto.

O casal Linder ainda não sabe quando sairão do centro de reabilitação. Mas, diferente de 2013, quando não tinham planos ou esperanças de se recuperar do vício, agora eles acreditam que a vida livre das drogas não está muito longe. Eles não usam cocaína desde o dia que deram entrada na pousada. Ocasionalmente fumam um cigarro, mas pretendem parar em breve. “Só queremos continuar nossas vidas”, diz Wesley, “como marido e mulher”.

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