Uma epidemia, eletiva, a ser controlada

A alta taxa de cesarianas faz saúde brasileira estabelecer normas para os partos

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Por Ana Carolina Fernandes

O aumento de nascimentos por via cirúrgica em todo o mundo confronta as recomendações da Organização Mundial de Saúde, OMS, para que as cesarianas não excedam a 15% dos partos realizados no país. No Brasil, a porcentagem de cesáreas é de 55% no total, mas dos partos realizados no setor público de saúde 40% são cesáreas e no privado esse número chega a 84%, conforme dados do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos – SINASC e SIP/ANS – 2012. Visando a redução destes valores a Agência Nacional de Saúde Suplementar, ANS, está dando início a uma consulta pública para as normas do parto.

Entre as medidas sugeridas está a ampliação da informação pelas beneficiárias como o conhecimento das taxas de cesáreas e de partos vaginais e a apresentação do partograma, que é o documento que relata a evolução do parto. A ANS receberá contribuições até 23 de novembro no portal da agência.

Em coletiva de imprensa, o ministro da Saúde Arhtur Chioro defende a redução destas intervenções. “No setor privado, o percentual que temos de partos cesáreos deveríamos ter de partos normais. Respeitar a mulher é, acima de tudo, disponibilizar a ela todas as informações sobre o parto normal e fazer com que o cirúrgico seja adotado apenas quando indicado”, ressaltou.

O procedimento triplica o risco de morte materna e aumenta em 120 vezes a probabilidade de que o recém-nascido desenvolva problemas respiratórios. Além disso, é grande a chance de a criança nascer antes do tempo, isto é, de forma prematura, o que dificulta a formação de vínculo com a mãe.

A realização da cesárea é recomendada quando há risco de morte para a mãe e o bebê no trabalho de parto. Mas o problema começa quando a gestante escolhe a intervenção por conta própria ou por influência.

Thayse Behr, 20 anos, de Florianópolis, apresentou problemas no cordão umbilical, o que a fez escolher o método. “Antes mesmo de saber do problema, eu já tinha optado por fazer a cesariana, por ser um procedimento seguro e menos doloroso. Sei que todo o procedimento cirúrgico que fazemos possuem riscos, acredito que na rede particular o atendimento e procedimento se tornam mais seguros. Além do que, não quero sentir muita dor”, afirma.

A professora Maria Salete Vieira, professora do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Universidade Federal de Santa Catarina, acredita que a formação dos profissionais influencia na escolha do parto. “Dentro da medicina, há o modelo intervencionista e a maioria dos obstetras foram formados neste modelo. A mulher não é protagonista e sim a intervenção. Já as enfermeiras obstétricas vêm de outro, o de aguardar e deixar a mulher ganhar o seu filho, intervindo somente em últimos casos”, afirma a professora. “Considero a cirurgia eletiva, até um crime. Porque se deve analisar como a mulher entra em trabalho de parto, ver se ela tem alguma indicação de que a cirurgia deve ser realizada. Quando surge essa necessidade daí sim ela é essencial” conclui. Maria Salete ainda acredita que a passagem da mãe pelo grupo de apoio a gestantes ajudaria no processo de redução das cesarianas.

O levantamento sobre parto e nascimento, Nascer no Brasil, feito pela Fundação Oswaldo Crus, Fiocruz, verificou que as taxas de cesáreas são mais baixas no setor público e na região sudeste do país. E esclarece que quanto mais anos de estudos da mulher, menor é a chance dela realizar um parto normal.

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A pesquisa também revelou que no inicio da gravidez 70% das mulheres desejam realizar o parto normal, mas este percentual diminui com o passar dos meses.

Francielle de Cezaro, 30, de Florianópolis, afirma que mesmo tendo escolhido o procedimento cirúrgico conhece os benefícios do parto vaginal e gostaria de tê-lo realizado. “Eu acredito que o parto normal seja mais emocionante, por você e seu filho unirem forças para que ele nasça, é um momento onde a natureza mais uma vez está presente. Isso eu gostaria de ter vivido, mas decidi fazer cesárea porque meu marido temia o parto normal”, relata.

 

Expectativa de reversão

No contrafluxo dos partos cirúrgicos, grupos de mulheres se organizam dentro e fora das redes sociais para promover os partos normais.

O grupo AMAnascer de Florianópolis, é composto de médicos ginecologistas e obstetras, parteiras certificadas, enfermeiras obstetras e doulas que realizam assistência nos partos hospitalares e domiciliares da cidade. Gabriela Zanella líder da equipe considerou a iniciativa da ANS correta, porém tímida. “A grande maioria das mulheres ainda é muito desinformada sobre o processo de gestação e mais ainda em relação ao parto, deixando uma brecha para que profissionais habituados a realizar cesariana sem indicação continuem fazendo, sem nenhum tipo de punição como, por exemplo, o descredenciamento”.

Gabriela lista ainda alguns fatores que levam as gestantes a escolherem a cesariana. “O primeiro é a própria formação cultural da nossa sociedade, que cada vez mais valoriza a tecnologia, fazendo parte deste pacote a cirurgia e a medicação – tudo programado e “sem riscos”. Segundo problema é que, mesmo as mulheres querendo ter um parto natural, ao longo da gestação elas são desencorajadas, seja pela família, seja pelo próprio profissional que a acompanha.

Para a médica, o terceiro fator “é que, mesmo os profissionais consideram mais cômodo e economicamente mais vantajoso ter várias cirurgias agendadas para o mesmo dia do que precisar acompanhar apenas um parto que pode durar muitas horas. O quarto seria a falta de habilidade profissional mesmo. Hoje em dia os profissionais não têm mais treinamento adequado para acompanhar um parto natural e de corrigir problemas sem intervenção cirúrgica. Acabam por agir de acordo com protocolos, sem dar a devida importância aos métodos não-farmacológicos que podem facilitar o processo do parto (como água quente, massagens, ambiente calmo)”.

Marina Pergher, 25, de Florianópolis, escolheu o parto normal por entender que esta era a maneira mais natural de conceber o pequeno Théo. “É um desfecho natural. É como se o bebê que escolhesse o momento de nascer e não o médico. Nunca me passou pela cabeça fazer cesariana, mas eu ficava preocupada em ter que fazer por algum motivo” revela.

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