“Maus exemplos corrompem bons costumes”*

Simone_oktoberfest

Comentário de Simone Feldmann

“Hallo Blumenau/ Bom dia Brasil/ Dezessete dias de folia/ Música, cerveja e alegria” – este é o refrão do hino da Oktoberfest de Blumenau. Em Santa Catarina são realizadas 11 festas em outubro com os mesmos princípios: celebrar as culturas locais, tendo o chope como elemento principal, o que alegra os pavilhões de eventos e é motivo de preocupação nas estradas catarinenses. Em Blumenau, onde é realizada a “festa mais alemã brasileira”, o contador de consumo de chope sempre mostrou mais dígitos do que o de alimentação.

O problema não está no fato de celebrar, beber e aproveitar as famosas Festas de Outubro de Santa Catarina, mas sim na irresponsabilidade dos motoristas que ainda acreditam não ter problema na mistura (muitas vezes fatal) do álcool com a direção. Não é raro ouvir conversas entre motoristas e amigos que têm a certeza de que algumas latas de cerveja, ou canecos de chope, não influenciam na maneira de dirigir – para eles o problema está na “indústria das multas” que insiste em realizar blitze em dias de festas.

Este ano, vereadores de Pomerode – cidade do Vale do Itajaí conhecida por ser “a mais alemã do Brasil” –, questionaram os horários em que as blitze da Lei Seca eram realizadas na cidade pela Guarda Municipal de Trânsito. A alegação é que a fiscalização interfere no número de participantes nos eventos típicos da cidade, atrapalhando a cultura local (e o comércio).

O fato é espantoso. Ao invés de se criar campanhas incentivando que a população fosse aos eventos usando outros meios de transporte, escolhendo um motorista da rodada ou encontrando qualquer alternativa para garantir a segurança no trânsito e o cumprimento da lei, os vereadores preferiram restringir as horas extras para os guardas de trânsito. Assim, o efetivo ficou reduzido à noite, diminuindo as fiscalizações e permitindo que a população pudesse ir às festas, beber e, em seguida, dirigir.

Apesar da exceção em Pomerode, as campanhas de conscientização costumam ganhar forças durante o período de festas. Segundo a Polícia Militar Rodoviária, no último ano o número de prisões por embriaguez ao volante aumentou 500%. A questão que fica é: foi resultado apenas do reforço na fiscalização ou reflexo do aumento da imprudência dos motoristas?

A chamada Lei Seca foi criada em 2008, mas não teve a eficácia esperada. Para resolver a situação foi necessária uma nova lei, lançada em 2012, permitindo que o bafômetro ou o exame de sangue não sejam as únicas formas de provar a embriaguez. Este fato abriu espaço para provas subjetivas, como relato dos oficiais e testemunhas, além de vídeos e outras provas que comprovem o uso do álcool ao volante.

Com o reforço da Lei Seca não basta mais fazer cálculos que envolvem a quantidade de álcool ingerida e o tempo de degradação. Estes cálculos costumam ser incoerentes quando são feitos por alguém que já bebeu e quer usar alguma desculpa para poder dirigir mesmo sem ter condições; ou ter o “blefe” de recusar o bafômetro, já que ninguém é obrigado a produzir provas contra si mesmo. Assim, a nova lei aumenta a indignação de motoristas contrários às fiscalizações e reforça a tese da indústria das multas.

Apesar do reforço na lei, intensificação nas fiscalizações e campanhas, a solução deve partir dos motoristas – é necessária uma mudança no comportamento que vem sendo transmitidos entre gerações. Pais que bebem e conduzem seus carros com os filhos dentro, por exemplo, banalizam a situação, fazendo com que a criança tenha a sensação de que é uma atitude normal.

Para uma redução definitiva no número de acidentes e mortes em decorrência de embriaguez ao volante, os motoristas não devem apenas ter medo de serem flagrados em blitze, mas a noção de que cometem um crime e colocam a vida das pessoas em risco quando dirigem alcoolizados. É necessário que transmitam esses princípios básicos aos seus filhos, perpetuando o gosto pelas festas, músicas, alegria e, sim, pelo chope, mas com uma separação clara entre álcool e direção.

* Provérbio alemão, no original: “Böse Beispiele verderben gute Sitten”.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s