Controvérsias da revista Veja

Semanário brasileiro está em crise com o jornalismo

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Por Débora Baldissera

“Não posso me calar frente a esse ato de terrorismo eleitoral articulado pela revista Veja e seus parceiros ocultos. Uma atitude que envergonha a imprensa e agride a nossa tradição democrática”. Este é um trecho da fala da presidente Dilma em sua última propaganda eleitoral na TV no dia 24 de outubro, mesmo dia em que a revista Veja colocou nas bancas sua edição com suposta denúncia de que a presidenta, e então candidata à reeleição, e o ex-presidente Lula sabiam do escândalo envolvendo desvios financeiros da Petrobrás, antecipando em dois dias sua publicação.

Em nota no site, Veja rebate as acusações da presidente e diz que “antecipar a publicação da revista às vésperas de eleições presidenciais não é exceção” e que a “presidente centrou suas críticas no mensageiro, quando, na verdade, o cerne do problema foi produzido pelos fatos degradantes ocorridos na Petrobras nesse governo e no de seu antecessor”. A publicação ainda comenta que “os fatos são teimosos e não escolhem a hora de acontecer e eles seriam os mesmos se Veja os tivesse publicado antes ou depois das eleições”.

Parte da população e o ministro do Tribunal Superior Eleitoral Admar Gonzaga, porém, entenderam de outra forma a publicação da revista. O ministro concedeu liminar que obrigou Veja a suspender a propaganda paga sobre a edição. “Ainda que a divulgação da revista Veja apresente nítidos propósitos comerciais, os contornos de propaganda eleitoral, a meu ver, atraem a incidência da legislação eleitoral, por consubstanciar interferência indevida e grave em detrimento de uma das candidaturas”, escreveu o ministro na decisão. Além disso, o prédio onde fica a redação da revista Veja, sede da Editora Abril, em São Paulo, foi alvo de um ataque com pichações nos muros e lixo sendo jogados, na noite do dia 24, depois que a revista publicou a reportagem.

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Para Mino Carta, um dos criadores da revista Veja, o caso é inédito na imprensa mundial. “Mas isso só acontece no Brasil, é o país da casa grande e da senzala. É o país que a impunidade vigora. Onde os acusadores são no mínimo tão pecadores quanto os acusados”, comenta o jornalista.

Veja é uma revista semanal publicada pela Editora Abril, foi criada em 1968 pelos jornalistas Roberto Civita e Mino Carta, e trata de temas variados, tendo uma tiragem superior a um milhão de cópias. Mino Carta conta que a revista surgiu para ser oposição seguindo a prática do jornalismo honesto, mas acredita que nos últimos anos a revista se tornou uma vergonha para os brasileiros. “A diferença é que enquanto eu a dirigi ela tentou representar um sinal de resistência, tentou ludibriar a própria censura, tentou deixar um recado para o futuro. Era uma revista de oposição. Hoje a revista é uma vergonha nacional e quem não se dá conta disso é porque realmente perdeu a capacidade de raciocinar”, assevera Mino Carta.

O semanário se envolveu em processos judiciais e polêmicas, mas nenhuma como o caso praticado na véspera da votação do segundo turno das eleições desse ano. Não só a revista se envolve em polêmicas, como sua editora também. Em 4 de setembro de 2007, Renan Calheiros, em discurso no plenário do Senado, denunciou a compra de 30% das ações da Editora Abril por empresas laranjas. Mais que isso, ações foram compradas pela empresa sul-africana Nasper, conglomerado de comunicação racista que sustentou o apartheid na África do Sul. O então presidente do Senado denunciou esquemas envolvendo empresas inexistentes, a Nasper e a Editora Abril. Em 2014, a crise mundial da mídia atingiu a editora que cortou várias de suas publicações, como a Quatro Rodas Motos, e trocou de presidente. Alexandre Caldini, CEO do Valor Econômico desde 2012, foi nomeado em julho novo presidente da editora. A Abril tenta sobreviver mesmo com seu “carro-chefe”, a revista Veja, causando problemas.

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Mino Carta com Civita, quando criou Veja, na década de 1960.

Regulação da mídia brasileira

Diante do caso da revista Veja, se mostra ainda mais necessário a regulação do setor dos meios de comunicação no Brasil. A regulação da mídia é uma proposta que vem sendo defendida pela presidente Dilma Rousseff, principalmente depois de sua reeleição. O ex-ministro Franklin Martins propôs ainda durante o governo Lula, mas só agora voltou a ser discutida. O marco regulatório já foi adotado em países como Inglaterra e Argentina. Em Portugal, a ERC, Entidade Reguladora para a Comunicação Social, tem o objetivo de garantir transparência na produção e veiculação dos conteúdos de comunicação, bem como o pluralismo cultural e a diversidade de expressão.

O marco prevê uma fiscalização mais efetiva sobre as ações da imprensa. Tem o objetivo principal de extinguir monopólios e oligopólios dos principais veículos de comunicação do país. No entanto, a proposta divide opiniões quanto à questão da fiscalização e o controle de conteúdo.

O diretor de redação da revista CartaCapital, Mino Carta, condena a situação da mídia brasileira. “Essa é uma questão política muito importante. Em países ditos civilizados e muito mais democráticos do que o nosso ninguém pode ser dono de tudo como no Brasil. E ninguém goza da impunidade como aqui. Nós somos muito atrasados em comparação a eles no que diz respeito aos oligopólios na mídia. E precisamos fazer alguma coisa a respeito”.

No Brasil, a questão começou a ser discutida ainda em 2009, durante a 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), mas o projeto não avançou muito desde então. O presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, Aderbal João da Rosa Filho, criticou o governo por não ter encaminhado o projeto ao Congresso Nacional e disse que só com a pressão da sociedade a regulação vai deixar de ser discurso. “Eu acredito que é necessário regulamentar a mídia brasileira, e que isso não vai diminuir a liberdade de imprensa: vai trazer informação de qualidade”.

Além da presidente Dilma, o ex-presidente Lula, o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa e o presidente da Fenaj Celso Schroeder, estão entre os que apoiam a regulação econômica do setor. Por outro lado, entidades como ANJ (Associação Nacional de Jornais), Abert (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), entre outras associações empresariais, não participaram da Confecom em 2009 por não concordarem com a discussão e enxergarem na proposta de regulação uma tentativa de impor a censura e controlar os meios de comunicação.

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