Ilha do Campeche é patrimônio arqueológico, paisagístico e etnográfico de Santa Catarina

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Por Simone Feldmann

Considerada um dos principais pontos turísticos de Florianópolis, a Ilha do Campeche tem acesso limitado de pessoas e os visitantes só podem permanecer no local por um período máximo de quatro horas. Desde 2000, a ilha é tombada como patrimônio arqueológico, etnográfico e paisagístico natural pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Com cerca de 53 hectares (ou 53 mil metros quadrados), a ilha atraí turistas pela areia branca e fina, além das águas cristalinas, propícias para prática de mergulho, e os sítios arqueológicos.

A Ilha do Campeche fica na costa sudeste da Ilha de Santa Catarina, sua vegetação é composta por Mata Atlântica contornada por costão rochoso. Outro fator peculiar é a grande população de quatis, que recepcionam os visitantes tentando furtar a comida de suas bolsas e mochilas. Os animais foram inseridos no local na década de 1940, quando um clube de caça e tiro frenquentava a ilha. Hoje o clube se tornou a Associação Couto de Magalhães, para preservação da Ilha do Campeche, e não pratica mais a caça, por isso os quatis são abundantes ali.

É possível chegar até a ilha através de barcos que saem da Barra da Lagoa, com maior tempo de viagem; da Praia do Campeche, percurso mais rápido, porém, com o mar mais agitado; e da Praia da Armação do Pântano do Sul, sendo considerada a melhor opção, por ter um tempo de duração razoável e ondulação do mar mais tranquila. Para contratar a viagem é preciso ir ao trapiche da praia e falar diretamente com os membros da Associação de Pescadores da Armação, que utilizam os próprios barcos pesqueiros para transportar os turistas. O preço do passeio pode variar de 40 a 80 reais, dependendo da quantidade de pessoas no grupo e do período do ano, sendo mais barato fora da temporada.

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O passeio de barco dura cerca de meia hora. Na chegada é preciso descer por uma escada diretamente na água, já que não existe trapiche na ilha. Os recém-chegados são imediatamente recebidos por um monitor, formado através de um curso promovido pelo Iphan, que explica a necessidade de preservação ambiental da Ilha e explica que a única área em que os visitantes podem circular livremente é a extensão da praia. Para adentrar a vegetação e realizar as trilhas é necessário acompanhamento de um guia. Os quatis também recepcionam os turistas prontamente. Já acostumados com a presença humana, são rápidos ao tentar furtar alimentos, por isso é reforçada a proibição de alimentar os animais e deixar qualquer lixo no local.

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As areias da praia surpreendem pela cor branca, como não se vê em outras praias de Florianópolis. A água cristalina, com tons de turquesa, também se destaca, formando um cenário digno do filme “A Lagoa Azul”. Na Ilha existem dois restaurantes que ficam abertos durante a temporada para servir bebidas e comidas relacionadas a cultura local – camarões, ostras, e outros frutos do mar. Fora da temporada geralmente estão fechados e, portanto, a recomendação é que os visitantes levem seus suprimentos.

Para conhecer o restante da Ilha é necessário acompanhamento de um monitor credenciado. Pedro Rocha, que trabalha ali há três anos, acompanha os visitantes através das trilhas que conduzem ao outro lado da Ilha. A caminhada tem dificuldade de leve à média, com algumas subidas e descidas íngremes que podem dificultar a vida dos mais sedentários.

O valor do passeio é 20 reais, com direito a três paradas e contextualização histórica sobre o local. A primeira pausa é na Pedra do Vigia, onde uma grande pedra plana permite que várias pessoas se agrupem para observar a paisagem formando um mirante natural.

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É ali onde Pedro dá uma breve aula sobre a antiga serventia do mirante – era um ponto de observação para os olheiros da caça da baleia, atividade que se estabeleceu em Santa Catarina em meados do século XVIII. Daquela pedra, o olheiro avistava as baleias e acendia uma fogueira com vegetação verde, causando uma grande coluna de fumaça, sinalizando ao próximo posto de observação para que os barcos saíssem da Armação do Pântano do Sul e iniciassem a caça.

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Pedro, de azul, conta aos visitantes sobre a caça da baleia.

Do mirante também é possível avistar o Arquipélago Moleques do Sul, um conjunto de três ilhas com 9,86 hectares, habitat único de uma espécie de preá, considerado um dos mamíferos mais raros do mundo por ser endêmico do arquipélago.

Continuando a trilha, o grupo desce uma encosta rumo ao costão para a segunda parada, chamada Letreiro, onde estão as famosas inscrições rupestres. A Ilha do Campeche é o local com maior concentração de acervo arqueológico do litoral catarinense. De acordo com o guia, não é possível precisar qual grupo indígena foi responsável pelas inscrições, nem realizar testes de carbono, já que para isso é necessário presença de matéria orgânica. Supõe-se que tenham sido realizadas por um grupo que existiu no lugar antes dos guaranis, que habitaram o litoral catarinense, e possivelmente foram expulsos ou extintos por eles.

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A desenho mais acessível aos turistas é denominado Máscaras Gêmeas, por apresentar um padrão quase simétrico, com uma pequena diferença. Acredita-se que a inscrição está relacionada à crença indígena quanto ao nascimento de gêmeos, na qual dizem que a alma é dividida em uma parte boa e outra ruim, sendo necessário identificar o caráter dos irmãos para sacrificar o espírito mau. No local também existem as oficinas líticas e inscrições em formatos geométricos, que remetem a flechas e espinhas de peixes.

A trilha até a terceira parada passa pelo ponto mais alto da ilha e desce até um costão, de lá é possível avistar as dunas e a Praia da Joaquina. O local é o ponto de observação da Pedra Fincada, um monumento natural com formato fálico e cerca de nove metros de altura.

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Na caminhada de retorno à praia, em uma trilha de mata fechada, Pedro faz uma pausa para contar uma lenda relacionada à mística que cerca a região, como sendo local de magias e bruxas, reforçada pelo folclorista Franklin Cascaes. Em frente a uma figueira, entroncada em meio a uma grande pedra, ele conta a lenda de um casal de indígenas sequestrado por bruxas, que tinham inveja de seu grande amor, e abandonados no meio da Ilha do Campeche. Segundo a lenda, o amor era tão intenso que, antes da morte, a bela mulher se transformou em uma frondosa figueira, e o homem, que era muito forte, transformou-se em pedra, e assim eles permaneceram juntos e entrelaçados, sendo que aqueles que se abraçarem a sombra da figueira também ficarão juntos para a eternidade.

Após o abraço dos casais do grupo, Pedro conduz os visitantes de volta à praia,  que apesar de cansados, após quase duas horas de caminhada, são unânimes em concordar que o passeio é mágico.

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