Bem vindo ao fascinante mundo do circo

Com 137 anos de história, o picadeiro vindo diretamente da Rússia emociona o público por onde passa

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Por Lucas Weber

Ainda eram tempos de Império quando o Circo Vostok chegava no Brasil. A data de fato ninguém sabe ao certo, mas o que importa é que em 1877, meses após sua criação, o primeiro circo russo vinha para cá fazer turnê. Uma turnê que permanece até hoje. Comandado por Fábio Vostok, bisneto no criador, o maior picadeiro do Brasil viaja o país, quando não a América do Sul, com seus trailers, carretas e 75 artistas que compõem hoje a grande família do Vostok. A vida circense é outra realidade, um mundo fascinante composto por pessoas que pensam diferente, mas no fundo vislumbram os mesmo desejos da sociedade padrão. O que chama a atenção é a alegria, a felicidade e a motivação para ir trabalhar, extremamente necessária. Afinal não é fácil viver para criar sorrisos e lágrimas no público.

A guerra, a fome e a devastação que a Rússia vivia no final do século XIX foi o que motivou a família Vostok a se mudar do país. A decisão de vir para cá foi pela lenda da “febre do circo no Brasil” – toda cidade queria saber o que acontecia dentro dos enormes picadeiros que viajavam o mundo. Se era verdade, não importa. O que interessa é que desde então o Circo Vostok está no Brasil sobrevivendo. No início eram apenas artistas russos que compunham o espetáculo, e era isso que mais chamava a atenção do público. Hoje os integrantes continuam sendo do mundo inteiro. Além de alguns artistas russos, o circo conta com chilenos, argentinos, uruguaios e um equatoriano. Ao todo são 25 estrangeiros que acabam sendo uma atração à parte.

Depois de duas horas de espetáculo, o espectador sai encantado com a apresentação. E é impossível não ficar com inúmeras perguntas dentro da cabeça sobre o funcionamento do circo. Ao redor do picadeiro são incontáveis carretas e trailers que compõem quase que uma vila. São nesses automóveis que vivem os 75 funcionários fixos. O circo oferece moradia, banho e alimentação para seus integrantes. Mas o objetivo de todo mundo é juntar uma graninha para comprar sua própria casa móvel. O que não é fácil, o dinheiro é apertado, não costuma sobrar. É caro viver viajando por aí.

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Aqui a gente faz de tudo. Uma hora participa no número de mágica e depois quebra o galho quando precisa na bilheteria ou no cachorro quente.

Sustentar o circo também é bem complicado. Não existem regalias do Governo. Quem paga pelo aluguel do terreno, água, luz e demais gastos é tudo a grande família Vostok. Para garantir a estrutura necessária para montar a lona e sobreviver na cidade, quatro componentes da secretaria do circo funcionam como batedores. Eles vão à frente para o próximo local e preparam tudo que for necessário. Logo na chegada, são contratados quarenta funcionários locais para ajudar na montagem. “Se nós formos atrás, até é possível conseguir ajuda da prefeitura para se sustentar. Mas é muita burocracia e complicação. Acaba não valendo a pena fazer tudo isso em cada cidade que vamos. Damos conta por nós mesmo”, conta Lais Giglio, uma das apresentadoras, a quinta geração da família.

O cronograma das cidades que o circo vai passar é feito anualmente. Existe um único critério para decidir o itinerário: público. Quando percebem que são bem recebidos, fazem de tudo para voltar e ficar o máximo. “A última vez que viemos para Floripa foi a há 16 anos. Mas nesse meio tempo passamos por São José. Lá foi tão bom que vamos voltar depois daqui. Apesar de ser aqui no lado, vale a pena mover toda a estrutura para lá. O pessoal gosta, mas as vezes não ficam sabendo que estamos aqui no lado, ou acham muito longe. Se esse é o problema, nós vamos até lá, tudo pelo público”, explica Lais. Em Florianópolis, o circo vai ficar três meses. Em janeiro vão para São Jose e até março chegam a Criciúma, onde novamente será feito o cronograma. “Quando chegarmos lá decidiremos se vamos para o norte ou para o sul. A ideia é sempre fugir dos outros circos, não tem porque criar concorrência. Aqui em Floripa o movimento estava muito bom nas três primeiras semanas, agora está mais ou menos. A expectativa é pelas férias de verão, é por isso que optamos por ficar tanto por aqui. Não é comum passar tanto tempo em uma cidade.”

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A rotina supõe ensaios pelos menos duas vezes ao dia.

Jimmy Palma é o único equatoriano do grupo. Filho de circenses, começou a praticar malabares, acrobacias e saltos desde que se conhece por gente. Com 15 anos teve seu primeiro número: uma apresentação no tecido. Há dois anos no Circo Vostok ele é um dos trapezistas. Acorda pelas 11 da manhã, almoça e vai para o ensaio individual. Depois pratica outro número que está lhe interessando: motoqueiro do globo da morte – grand finale do espetáculo. Após a apresentação diária, mais uma hora de ensaio, desta vez com os integrantes do seu show.

Mas no circo não basta ter só uma função. Jimmy também participa no número de mágica e quebra o galho quando precisa na bilheteria ou no cachorro quente. “Aqui no circo é um faz tudo, todo mundo precisa ajudar. Eu já pensei em desistir dessa vida, fiquei um tempo afastado. Mas me arrependi, percebi que para ser feliz tem que ser por aqui”. Além de todos os ensaios e demais ajudas, Jimmy também faz academia. “Quando chegamos a uma cidade que vamos ficar um tempinho eu e alguns companheiros procuramos um lugar para malhar. Precisa para manter a qualidade da performance”.

O circo cria casais, que geram filhos. Esses nascem dentro do circo e desde pequeno estão inseridos nesse meio. Felipe Astorga tem nove anos e é um exemplo. Seu pai é palhaço, sua mãe é bailarina. São as pessoas que ele mais admira no mundo e quer seguir os seus passos. Extremamente entusiasmado, mostrou-me com muito orgulho os saltos que está aprendendo. Mas isso não impede que Felipe esteja sempre estudando. O que garante seu ensino é a lei 301/1948 que obriga o circo a manter as crianças em sala de aula e também a escola a aceitar os alunos circenses. Isso não o incomoda. Aqui ele tem aula na escola estadual Getúlio Vargas, no Sacos dos Limões, durante o período vespertino, junto com Izildinha Torres, também filha do circo. Com 15 anos, ela pensa no seu futuro, mas longe do picadeiro. “Tenho muita admiração e respeito pelo pessoal aqui. Amo meu pai (motoqueiro do globo da morte), mas não quero seguir seu caminho, quero fazer psicologia”. E essa rotina de mudar constantemente de escola não atrapalha? “Não, na verdade eu sempre sou uma das melhores alunas onde eu estudo. Isso por que eu me esforço, quero seguir o caminho de estudar”. Izildinha se sente diferente do meio, se vê taxada de nerd. Mas isso não a incomoda, não a exclui dos outros. Viver dentro do picadeiro é uma experiência fascinante, especialmente para crianças como ela ou Felipe, que confunde suas origens com o circo. Quando perguntei onde ele nasceu, para descobrir a cidade, sua resposta sincera me surpreendeu: “Eu nasci no circo”.

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