Semana de Jornalismo 2014:

Palestrantes discutem os diferentes “tipos” que trabalham no jornalismo brasileiro e o futuro da profissão

13semanajor

Por Luiz Gabriel Braun e Marina Simões

André Maleronka, editor da Revista Vice no Brasil abriu a 13ª Semana de Jornalismo, que aconteceu de 31 de outubro a 7 de novembro. Como contou o palestrante, a Vice gringa parece a Vogue, cheia de anúncios. Aqui, não há a versão impressa da revista, pois poucos patrocinadores iriam achar interessante ter as suas marcas veiculadas à “cara da Vice”. Para Maleronka, é preferível usar o dinheiro que resultaria numa revista impressa para pagar freelancers pelo Brasil – por sinal, qualquer um com uma boa pauta pode ter seu texto publicado, basta esperar a demora para ter o e-mail respondido. Sobre os métodos da Vice, tida como tão moderna, Maleronka disse que não poderiam ser mais tradicionais. Consistem em fazer um bom trabalho de reportagem, uma boa apuração. E tratar os personagens de uma pauta, não importa o quão doida for, de forma “bonita”. Afinal, é de pessoas que está se falando.

Geneton Moraes Neto palestrou na segunda-feira e decidiu dar conselhos práticos.  Entre eles, não se transformar nunca num patrulheiro ideológico – nem de direita, nem de esquerda – e não se tornar um editor derrubador de matérias – existe sempre uma maneira interessante e nova de se contar uma história. O jornalista também deve ser um cão de guarda do seu idioma. Apesar de ter vocação para a subliteratura, o repórter deve escrever de forma simples e correta.

Geneton Moraes Neto

Luiz Claudio Cunha, na terça-feira, falou sobre jornalismo investigativo. Para ele, o termo trata-se de uma “redundância boboca”. Todo jornalismo é investigativo. Citou o jornal I.F.Stone’s Weekly como um grande exemplo de jornalismo investigativo, baseado principalmente em documentos. O jornalismo imersivo, intensivo, concentrado, demanda dinheiro e tempo. Citou o tempo em que cobriu a Operação Condor para a Veja.  Ficou 600 dias investigando os seqüestros. Em nenhum outro lugar e principalmente hoje em dia, ninguém daria tanto tempo para um repórter fazer uma matéria. “Infelizmente, aquela Veja morreu. A de hoje não privilegia a informação e a honestidade”.

Luiz Claudio Cunha

Quarta-feira foi a vez do fotojornalista Guto Kuerten. Entre as dicas que deu, estão: “Atenção na rua, qualquer coisa que tu ver pode ser pauta” e que para toda fotografia é necessário produção, pensar bem na pauta, produzir bem e, na hora, esperar o momento certo para dar o clique. O assunto mais debatido foi a sua reportagem Tortura à Domicílio, que fez para o Diário Catarinense e foi vencedora do prêmio Vladimir Herzog. Na reportagem feita em 2010, as imagens mostraram um flagrante de violência policial contra um homem desarmado. Durante dez minutos, o fotógrafo registrou, de longe, dois policiais militares agredindo o homem, que não reagiu em nenhum momento. Guto contou também que ele e sua família foram ameaçados após o material ser publicado.

Guto Kuerten

Na mesa de charge política, da quinta-feira, os convidados foram Benett (Folha de São Paulo), Zé Dassilva (Diário Catarinense) e Vitor Teixeira (freelancer). Teixeira não trabalha para nenhum jornal, mas vende a suas charges para veículos de comunicação. Não tem vínculo até porque muitas das empresas são criticadas por ele. Benett e Dassilva quebraram a ideia de que há manipulação pelos seus editores. O contrato de Dassilva garante liberdade e Benett disse que nunca teve nenhuma orientação da cúpula da Folha. Ele também disse que muito mais importante que o traço do chargista, é a sua cabeça: “Tem gente que tem desenho, mas tem ideia de merda”.

Mesa Charge Política

A palestra que lotou o auditório do CCJ foi a do (recém) ex-diretor da TV Folha, João Wainer – neto do Samuel. Para ele, o formato tradicional do telejornalismo está ultrapassado. Explicou que, quando surgiu a oportunidade de criar um setor de vídeo na Folha, buscaram inovar e introduzir elementos do documentário, do cinema, nas matérias (como trilha sonora, ironia e humor). Quem fica por trás das câmeras é um fotógrafo, que geralmente vai sozinho para o local. Para contornar a presença do off tradicional, a TV Folha pede para que o entrevistado comece descrevendo o cenário ou situação para as imagens iniciais. Aí, em geral, partem para perguntas de opinião e análise. Para evitar o formato de passagem, os repórteres que fizeram a cobertura para o impresso Tornam-se personagens. Sobre a versão impressa, disse que é naturalmente mais careta e que o espaço dado ao texto é muito curto para poder transmitir sensações ao leitor. Segundo Wainer, nunca houve censura, nem controle da cúpula. Os fotógrafos e editores apenas deveriam seguir o manual de redação do impresso, como, por exemplo, sempre expor os dois lados de uma história.

Sobre o longa Junho, por mais que a TV Folha goste de novas tecnologias, o cinema ainda é um templo sagrado. Já pensaram o filme durante os próprios protestos. Era o assunto que a equipe estava esperando para se aventurar no território cinematográfico. Apesar de ter sido um fracasso de bilheteria – muito por não terem acontecido protestos durante a Copa – Wainer julga que Junho vai envelhecer bem. O próximo filme será justamente sobre a Copa, só que “de costas” para os estádios, sem mostrar lances ou gols.

Na mesa da Cobertura da Copa e Olimpíadas, os convidados foram Afonso Garschagen, editor-chefe do Globo Esporte, Rafael Azevedo, editor do site Verminosos por Futebol e Maurício Barros, diretor de redação da Placar. Os três concordam que o futuro do jornalismo esportivo relevante é fugir do factual, visto que notícias são dadas a todo momento. Barros, por exemplo, disse que a investigação, a profundidade e o acervo histórico são os diferenciais da Placar para sustentar uma revista mensal sobre um assunto que tem notícia gerada o tempo todo. Afonso Garschagen foi o responsável pelo Central da Copa e falou sobre a passagem do setor de Esportes para a central de entretenimento da emissora. Para ele, o entretenimento, seja com gráficos, animações ou piadinhas, deve ser abraçado sem medo pela Globo como alternativa ao formato tradicional da “mesa redonda”. Rafael Azevedo, por não conseguir bater de frente com a grande mídia, decidiu cobrir a Copa longe de onde os jornalistas “tradicionais” estavam. Um exemplo que usou foi o da figurinha do Campbell: o atacante da Costa Rica Joel Campbell reclamou em redes sociais que havia aberto 100 pacotes do álbum da Copa do Mundo e não havia encontrado a sua figurinha. Apesar de promessas da própria Panini (editora que lançou o álbum), não recebeu de ninguém. Dois meses após a reclamação, o cromo foi dado justamente pelo Verminosos por Futebol.

Leonêncio Nossa

Quem fechou a semana foi Leonencio Nossa, que cinco dias depois iria receber o prêmio Esso pela reportagem Sangue Político, publicado no jornal O Estado de S. Paulo. A reportagem, que envolveu um esforço de 17 meses de apuração e visitas a 35 cidades, revelou que 1.133 pessoas foram assassinadas por motivos políticos no Brasil desde a promulgação da Lei da Anistia, em 1979. Leonencio foi setorista no palácio do Planalto durante dez anos, o que descreveu como o exercício diário de manter o equilíbrio. Sobre esse anos, mostrou um vídeo em que pergunta ao então presidente Lula se ele havia visitado o Maranhão para agradecer o apoio do clã Sarney. A resposta, bom, foi essa: http://www.youtube.com/watch?v=8IgW_-7Y-rc .

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s