Trajetória de um imortal

Olsen lança novo livro, despreocupado com prêmios e engajado na formação cultural da população

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Por Luiz Gabriel Braun

“Discípulos de Ninguém – um convite à insubmissão”, um escrito que ficou guardado por 32 anos, foi lançado em 28 de outubro, na choperia Kibelandia, no centro de Florianópolis. Seu autor é Oldemar Olsen Júnior, jornalista, escritor e membro da Academia Catarinense de Letras desde 2011. Os protagonistas do romance são Ernani Savoy, casado, pai de família que procura um trabalho melhor na cidade grande, e Osvaldo Ortiz, aluno de cursinho pré-vestibular que pretende ser um escritor, mas que acredita precisa fazer uma faculdade para garantir a sua arte. Em torno deles há vários outros personagens – inspirados em conhecidos de Olsen – e situações. Apesar de escolhas livres que fazem na vida e só os prejudicam, não abrem mão da busca pelo objetivo superior delineado em frente e que compensa toda a luta. A época em que estão é a da ditadura militar, tema recorrente dos livros de Olsen: “Todo o escritor, como afirmou Rilke “deve ter uma questão com a vida”, well, a minha é esta, vivi um período difícil na época da estratocracia e preciso exorcizá-lo e faço isso escrevendo!”

A demora para a sua publicação foi devido ao seu alto custo de impressão – afinal, é um livro de 500 páginas – e ficou engavetado nesses últimos anos. Foi graças ao Edital Elizabeth Anderle de apoio cultural que conseguiu publicá-lo. O livro mantém o mesmo teor de quando foi escrito, em 1982, só que com abordagem (angulação e técnica) diferente e quase duzentas páginas de notas de rodapé a menos, algo dispensável para um texto de ficção  – Olsen levou menos de dois meses para fazer essas mudanças. O escritor acha difícil que o fato de ser um imortal tenha influenciado a ganhar o edital porque a comissão avaliadora era composta por pessoas de fora, ou seja, isentas e não havia em nenhum lugar uma identificação de que era Acadêmico.

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Oldemar Olsen Júnior, um existencialista do tipo Sartriano (para quem o homem é uma paixão inútil, mas ainda assim, uma paixão) e brasileiro perplexo politicamente – embora consiga manter em alta suas convicções de um dia viver em um mundo mais fraterno – que busca revitalizar a participação crítica do homem na realidade, assegurando a liberdade de expressão e a iniciativa de tentá-la, nasceu em Chapecó, em 1955. Desde a infância, os livros são parte importante da sua vida. Com nove anos, saiu de casa para estudar em um internato de São Carlos (Oeste do Estado de SC. Sendo o mais novo aluno da escola, enquanto os mais velhos cumpriam as atividades extra-classe com trabalhos fora, Olsen era mandado para a biblioteca, onde apaixonou-se e passou a ler um livro a cada três dias. De volta para casa no ano seguinte, reencontrou-se com a biblioteca dos pais com novos olhos, tendo a noção do mundo que  um livro poderia lhe revelar: “Meus pais eram leitores vorazes, acredito que o meu pai tenha passado a vida toda pagando prestações de  coleções de livros adquiridos de viajantes”. Nessa época, leu Karl May (todos os 30 volumes da Ed. Globo), todas as obras de Monteiro Lobato, além de Hans-Christian Andersen, José de Alencar, Érico Veríssimo e até a Barsa.

Olsen formou-se em direito na Universidade Regional de Blumenau (Furb), mas brinca: “Nunca atuei profissionalmente. Quando era estudante até cheguei a fazer um mandado de segurança…” Na década de 1970, participou de vários movimentos culturais, seja produzindo o jornal “Acadêmico” do DCE da Furb – premiado pela Parker Pen do Brasil como um dos melhores informativos do país e pela União Brasileira de Escritores – ou organizando os festivais universitários da canção e salões de artes plásticas, cooperativa de livros, festivais de cinema Super 8, concursos literários (poesia e contos) para universitários brasileiros. Também fundou quatro editoras: a Editora Acadêmica e a Editora da Furb (em Blumenau), a Editora Paralelo 27 e a Editora Obras Jurídicas em Florianópolis.

Foi justamente pela Paralelo 27 que lançou o seu primeiro livro “carreia solo”, como diz – sem ser de antologias de poesias ou crônicas: Os Esquecidos do Brasil. O livro reúne seis contos com temas brasileiros, que vão desde o futebol a busca de um lugar ao sol na cidade grande. Sobre as dificuldades que um escritor passa no Brasil para publicar um primeiro livro, Olsen me deu uma resposta bem crítica: “Um escritor escreve e tem de publicar. As dificuldades que um autor sofre são as de mercado. O editor alega (para não publicar o livro de um iniciante) que este não é conhecido; o autor rebate afirmando que não é conhecido porque não é publicado… Uma discussão bizantina. Na verdade até hoje o autor ainda tem de pagar para publicar sua obra. É um negócio bom para os ‘bureaus’ que transformam os originais inéditos em livros. Disse ‘bureau’ porque as ditas editoras aqui existentes não passam disso.”

Todos os contos desse livro foram premiados e, pela obra, Olsen recebeu o prêmio Revelação da Academia Catarinense de Letras em 1993. E ficou indignado: “Naquele tempo era um sartriano empedernido, se aceitasse a premiação estava também aceitando a autoridade de um juiz, o que – para quem conhece o Sartre e sua teoria – era uma inadmissível concessão. Basta lembrar que ele havia recusado o Prêmio Nobel de Literatura pela mesma razão.” Além disso, já tinha mais de 20 anos de atuação cultural no Estado e sequer havia inscrito o livro “Os Esquecidos do Brasil” em qualquer concurso oferecido pela Academia.  No entanto, como havia fundado a Editora Paralelo 27 em Florianópolis, pediu para que a sua secretária o representasse na cerimônia, que se sentiu lisonjeada.

Seu próximo livro foi Desterro, SC, finalista do Prêmio Jabuti e considerado pela Câmara Brasileira do Livro como um dos dez melhores livros de contos publicados no Brasil em 1999. Apesar do Jabuti ser o mais disputado do Brasil, Olsen não acredita que sua carreira teria mudado se ele tivesse vencido o prêmio: “Não acredito em ninguém que escreva para ganhar prêmios, a não ser que o cara seja um redator de agência de publicidade, aí faz sentido.” Acrescentou, aos risos: “Acredito que a posteridade está sendo generosa comigo não permitindo que uma fama repentina me corrompa irremediavelmente danificando o que ainda tenho para produzir.”

Seu livro seguinte foi Estranhos no Paraíso, sobre uma família de classe média do interior no final da década de 1960. A obra está dividida em cinco capítulos (manhã de sábado, meio-dia de sábado, tarde de sábado, noite de sábado e manhã de domingo) e o leitor fica sabendo o que cada um dos personagens está pensando ou fazendo no mesmo momento, como se fosse uma linguagem cinematográfica de quatro novelas que podem ser lidas separadamente. Tecnicamente falando, Olsen disse que nenhum livro em português foi escrito desta maneira até quando esse foi publicado.

Os próximos foram Confissões de um Cínico, vencedor do prêmio Planel de Jornalismo;  O Burguês Engajado, novela sobre a ditadura militar que foi elogiada por Jorge Amado; e A Cidade dos Homens Indiferentes, seis contos sobre “os anos de chumbo” que se passam numa cidade do interior.

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Sobre Memórias de um Fingidor, de 2010 e o último antes de Discípulos de Ninguém, fez uma comparação com os Beatles, banda da qual é enorme fã. Assim como eles faziam um disco pensando num livro, Olsen pensa no livro como um filme. Especificamente sobre esse romance lançado, todos os capítulos começam com manchetes de notícias publicadas em jornais no dia 4 de fevereiro de 2003. No final de cada um, há o indicativo de um ano que é referente a algo aludido naquele período. O enredo e a cronologia avançam ligados até chegarem a data em que o narrador está, justificando então que tudo o que foi resgatado da memória naquele único dia demorou 45 anos para ser concluído. Olsen desconhece qualquer obra de escritor que tenha sido feita com essa técnica.

Olsen já tem em mente um próximo trabalho, visto que “um escritor deve estar sempre envolvido com algum projeto literário porque é a maneira que encontrou para mostrar que está vivo ou mais prosaico, saber quem é através da literatura”. Irá realizar uma velha ideia de escrever um livro de contos somente com narradores mulheres. “Diversas profissões e ocupações, a uni-las a presença memorialística de um poeta que conheceram e um bar em que todos se reuniam para conspirar na época em que viviam sob os ‘anos de chumbo’. Um trabalho duro de recuperação da história, embora seja ficção, mas o homem é ele e sua memória, o que penso!”

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