Voando alto sem sair do chão

Marina_AERODESIGN-2014

Por Marina Simões

Um avião mal pousa e o outro já tem que decolar, mas ainda faltam muitos quilômetros para que o impulso se transforme em um belo voo. Os estudantes que formam a equipe Céu Azul, do Centro Tecnológico da UFSC, sabem muito bem disso. O grupo foi fundado em 1999 para participar da competição SAE Brasil Aerodesign nas categorias Micro e Regular com o intuito de aprimorar o conhecimento dos integrantes em áreas adjacentes da Engenharia Mecânica, como a aerodinâmica. De lá para cá, já venceu o torneio, representou o Brasil no Mundial e figura entre uma das melhores equipes da competição. Prova disso é o terceiro lugar conquistado dentre as 21 equipes que disputavam na classe Micro – da qual participam pequenos aviões que pesam de 500g até 700g – no evento deste ano, que ocorreu entre 30 de outubro e 2 de novembro em São José dos Campos (SP), nas pistas do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial.

Os integrantes já começam a traçar o plano de voo para a próxima edição da SAE Brasil Aerodesign no último dia do torneio do ano anterior, com uma reunião na qual discutem o que funcionou e o que pode melhorar nos modelos. Os primeiros metros da pista de decolagem começam a ser percorridos em janeiro, quando a organização do evento divulga o regulamento. Daí para frente é afivelar os cintos e respeitar o aviso de não fumar. Os alunos e alunas de engenharia mecânica, elétrica, civil, entre outras, da UFSC desenham, projetam e constroem os protótipos dos aviões, que são feitos de madeira, plástico e pedaços de tecido com motor elétrico (na classe Micro) ou de combustão (Regular), que são pilotados via controle remoto.

De repente, o radar do avião detecta nuvens carregadas nas proximidades e é necessário esperar mais um pouco para decolar. O ex-co-capitão da equipe, Rafael Araújo, conta que a principal dificuldade enfrentada pela Céu Azul é a falta de patrocínio. “A UFSC ajuda com o que pode, que é transporte até o local e durante a competição, hospedagem e disponibiliza duas salas para trabalharmos no projeto durante o ano. No mais é patrocínio mesmo. Temos que nos virar e correr atrás. Boa parte do que conseguimos para comprar os materiais vem das festas organizadas pela Engenharia Mecânica”. A equipe ajuda com a divulgação e trabalha na Tourada e na Metal Mecânica. Em troca recebe uma parte do lucro da festa para investir nos modelos. Os participantes do projeto de extensão trabalham de forma voluntária, não recebem bolsa.

Marina_Céu Azul 1

Depois de algum tempo, as nuvens se dissipam e é possível ver o sol de novo. Ah, um ótimo dia para voar! A Céu Azul se prepara e segue a sua rota. Até agosto, os alunos precisam desenvolver um projeto e testar o que é proposto para poder enviá-lo à SAE Brasil (Society of Automotive Engineers), que organiza o evento. “Depois disso, a gente não pode mais mudar o que está escrito nesse projeto. Nem montar o avião de uma forma diferente da que foi descrita lá”. Com a decolagem cada vez mais próxima, a equipe precisa fazer o resto do percurso valer a pena e aperfeiçoar o modelo do projeto o máximo possível em aproximadamente três meses. A cada alteração, são feitos novos testes.

Segundo o atual co-capitão da equipe, Samuel Krehnke, depois dessas mudanças nos protótipos, o grupo leva cerca de três semanas de trabalho intenso para deixar o avião que irá para a competição pronto. “A ideia é ser um avião portátil, que possa ser desmontado e transportado numa caixa. Nós somos avaliados pelo tamanho da caixa e pelo tempo de montagem no dia”. Com o modelo finalizado, testes feitos e friozinho na barriga, a tripulação finalmente decola, segura de que o pouso será tranquilo e sem problemas.

A competição dura quatro dias. No primeiro, cada equipe faz uma apresentação oral e expõe seus modelos. Nesse dia também são avaliados o tamanho da caixa (quanto menor, mais pontos) e a velocidade da equipe para montar o avião. Os próximos três dias do evento são dedicados às provas de voo. No início é estudada a performance do modelo no peso vazio (sem carga), depois com carregamento. Cada vez que o avião da equipe decola é avaliado seu desempenho.

Na volta da viagem, a equipe está mais relaxada. Independentemente do resultado da competição, os participantes sempre aprendem algo novo. Rafael Araújo conta que acha a experiência muito importante para a sua formação, pois por meio dela aprendeu as dificuldades de tirar as ideias do papel e materializá-las. “Participar desse evento me ajudou a achar o que eu realmente gosto dentro da Engenharia Mecânica”. Além disso, torneios como esse abrem portas para os estudantes que querem seguir carreira nessa área. “Cerca de 15 pessoas que eram da equipe já foram contratadas para trabalhar em empresas desse ramo. Inclusive na Embraer, que é a maior fabricante de aviões no Brasil e a terceira maior no mundo”.

Para Samuel Krehnke, o mais interessante da competição é a interação entre pessoas das diferentes áreas da Engenharia. “Aqui a gente tem que se unir para pôr o projeto em prática. Uma área depende da outra para fazer a equipe funcionar. Todo mundo tem que aprender a trabalhar em grupo”.

Marina_Céu Azul 3

Funcionamento do avião

O voo de uma aeronave é regido por quatro forças básicas: empuxo, arrasto, sustentação e peso. O motor do avião gera o empuxo. Já a sustentação é gerada pelo perfil da asa. Ela precisa ser construída de modo que o ar passe com maior velocidade por cima do que por baixo, desse modo a pressão gerada embaixo empurra o avião para cima. Para que o modelo se mantenha no ar é necessário que o empuxo seja maior do que o arrasto e que a sustentação vença o peso.

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