Improvisando na garagem

Banda independente Rastavares nasceu despretensiosa, e tornou-se uma reunião de amigos buscando a música

Matheus A_Rastavares

Por Matheus Alves

O atual ponto de encontro para os ensaios da banda Rastavares é a garagem da casa laranja no Canto da Lagoa onde o baixista André Pardini mora desde março. É uma república com espaço para sete moradores, pista de skate de madeira construída no quintal e uma oficina de estampar camisetas nos fundos. O lugar é isolado, dentro de um condomínio sem porteiro, com vizinhos nos fundos e a esquerda da casa. Em uma festa com 300 pessoas, a banda tocou sem parar dentro da noite até chegar a polícia, chamada por causa de reclamações do barulho. Os ensaios são agora preferencialmente durante o dia, e as festinhas foram abolidas.

O Rastavares está acostumado a se virar como pode. Nasceu no improviso, durante o verão de 2013. Os integrantes moravam no bairro Rio Tavares, e conviviam em festas e reuniões de amigos. Alguns tinham estudado música despretensiosamente, ou tentado montar outras bandas anteriormente. Reuniam-se frequentemente na república que então André morava, próxima à pedreira. Na casa do baixista vivia Kaya, a cadela querida do grupo.

Em um dia quente, a casa estava agitada e o portão foi esquecido aberto. Kaya aproveitou para fugir para a rua e acabou atropelada. Fraturou a perna e precisou de uma cirurgia. Para arrecadar dinheiro para o tratamento, o grupo de amigos do Rio Tavares decidiu organizar uma feijoada no domingo. Venderam entradas a 15 reais, cozinharam as paneladas de comida e, quando os amigos começaram a chegar, resolveram improvisar uma música como podiam para entreter os convidados.

Tocaram por quatro horas seguidas, enquanto durou o feijão. O resultado agradou. Decidiram que valia a pena investir na música que fizeram. Começaram a ensaiar, e ofereciam-se para tocar em festas de amigos. Aos poucos ganharam popularidade através de indicações, e perceberam que podiam fazer algo mais profissional.  O nome foi escolhido inspirado no bairro onde moravam, e nos cabelos com dreadlocks de sete membros da banda. Em setembro de 2013 fizeram sua primeira apresentação oficial, em uma casa noturna no bairro da Lagoa da Conceição.

A sonoridade aproxima-se do reggae, samba e soul, acrescentando um tempero forte do forró nordestino. Fabrício toca pandeiro e auxilia no vocal. Thaís e Priscila tocam caxixi e cantam. A percussão pesada é de Mauricio, Luã, Lucas e Renato, que se revezam em instrumentos como o triângulo, tantan e cajón. O vocalista Harry toca violão, e é responsável pela maioria das composições próprias do grupo ao lado de Nina, a garota mais dedicada, que em um ano aprendeu a tocar escaleta e acordeão para acrescentar novos experimentos à música.

Amantes da música brasileira, os membros do Rastavares buscam explorar suas várias vertentes. Fazem versões de músicas consagradas por grandes nomes da MPB, misturando com influências inusitadas e buscando o ecletismo como forma de garantir a atenção de qualquer público. Entre suas releituras estão canções de Alceu Valença, Gilberto Gil, Dominguinhos e João Gilberto. Nas músicas autorais, os vocais afinados misturam-se ao maracatu e o baião.

O repertório desenvolvido e o público crescente não apagam, porém, as dificuldades que a banda enfrenta para se manter unida. O dinheiro que ganham com seus shows serve apenas para as despesas da própria banda. Compram instrumentos, pagam transporte e elaboram cartazes para divulgação. Com o tempo, os ensaios ficaram cada vez mais rápidos e raros, pois metade da banda trabalha em empregos de horário fixo, e a outra metade reveza-se entre estágios e a faculdade. Reúnem-se apenas uma vez por semana, à meia-noite, quando todos estão livres.

O Rastavares constrói seu caminho com sonhos e vontade de continuar tocando. “A gente queria poder só tocar, viajar e fazer show, mas por enquanto não dá”, lamenta André. Por enquanto, a banda é o plano B que todos queriam que fosse plano A. As dificuldades existem, mas não impedem o grupo de seguir. “Tudo vale a pena quando você está tocando para uma galera e sentindo mil emoções”, explica André.

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