Longe dos holofotes, Guarani de Palhoça é um dos exemplos de sobrevivência nos confins do futebol brasileiro

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Por Bruno Silva

Longe das grandes arenas e dos mais brilhantes holofotes, centenas de clubes de futebol sobrevivem no Brasil em séries inferiores. Com orçamento apertado, sem patrocínios milionários tal como os maiores do país, o Guarani de Palhoça é um dos exemplos da realidade enfrentada por essas equipes.

O Guarani de Palhoça foi fundado em 1926 por um grupo de amigos, mas só se profissionalizou em 2000, na gestão do então presidente e atual técnico, Amaro Júnior. Em três anos, o time conseguiu o título da Segunda Divisão e a consequente vaga na elite do futebol catarinense e, em sua primeira participação, e foi vice-campeão estadual em 2004. A partir daí, o Guarani transitou entre a primeira e segunda divisões do estado até 2008, quando interrompeu suas atividades profissionais por seis meses e, no ano seguinte, teve de recomeçar na Terceira Divisão de SC, onde permaneceu por dois anos (2009 e 2010) até conquistar o acesso novamente à Segunda Divisão do Estado. Em 2013, chegou à Primeirona novamente, mas acabou rebaixado no mesmo ano.

Neste ano, o Guarani disputou a Segundona e conquistou uma das vagas para a Primeira Divisão com uma campanha com 14 vitórias, cinco empates e sete derrotas. Na final, enfrentou o outro time que garantiu o acesso: o Inter de Lages. Na ida, em Palhoça, o time lageano venceu por 1 a 0 e, na volta, em Lages, foi a vez do Bugre vencer por 1 a 0. O título acabou ficando com o Inter, por ter obtido a melhor campanha nas fases anteriores e tinha a vantagem de jogar por resultados iguais na final.

Atualmente técnico e ex-presidente do Guarani, Amaro Júnior, 47, mantem-se muito ligado com o Guarani. Apesar de ser treinador, ele continua vinculado às questões administrativas. Segundo ele, as principais dificuldades na temporada foram financeiras, o que não é peculiar só dos clubes pequenos no país. Mas o time conseguiu investidores para apostar no projeto do clube.

“Ficamos com descrédito com investidores pela perda da antiga parceria (PAR Sports, aliado do Guarani em 2013, que contava com Sávio, ex-jogador de futebol e Renan dal Zotto, ex-jogador de vôlei). Mas a vaga na Série D do Brasileiro deu uma impulsionada na captação de jogadores e investidores. Nós temos algumas empresas privadas da região e a Prefeitura nos apoia com uma quantia anual. Além do nosso estacionamento, que também garante uma renda”, explicou.

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Ex-presidente e atual treinador, Amaro Júnior, conta com investidores da região para disputar a Primeirona.

Com recursos limitados, para montar o elenco do Guarani, segundo Amaro, o clube aposta em jogadores já conhecidos da região, com passagens por outros clubes do estado, e também atletas da base.

Em 2014 foi diferente na vida do Guarani. Após a desistência de várias equipes catarinenses de disputar a Quarta Divisão do Brasileirão (Série D), o time de Palhoça foi convidado para representar SC na competição nacional. Apesar de ser eliminado na fase de grupos, o acontecimento foi histórico na vida do Bugre palhocense. “Foi ótimo. É tudo padrão FIFA. Tudo bancado pela CBF: viagens, hospedagens. No primeiro jogo, fomos para o Rio e vencemos (2 a 1 sobre a Cabofriense). Foi uma ótima experiência. Tinha jogador que nunca tinha viajado de avião”, contou o técnico bugrino.

Na primeira partida da final do Catarinense da Segunda Divisão, o Guarani foi derrotado em casa por 1 a 0 contra o Inter de Lages. Mas o time já pensa em 2015. “Nosso objetivo é permanecer na Primeira Divisão, talvez conseguir a vaga para Série D e valorizar a maioria dos atletas. Nós queremos crescer cada vez mais”, finalizou Amaro.

O Renato Silveira, estádio do Guarani, fica no centro da cidade de Palhoça. Com capacidade para 2.081 torcedores, o Renatão não está sempre lotado, pela concorrência injusta que é disputar torcedores com os clubes maiores da região e do país.

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Estádio nem sempre lotado, pela concorrência de torcidas dos grandes.

“Nós trabalhamos com jovens torcedores, por enquanto temos muitos simpatizantes, mas poucos torcedores. Se crescermos vamos ter mais torcida. Todo mundo torce para times vencedores. Em relação ao estádio, para o ano que vem, não dá tempo para ampliar. Pretendemos fazer obras no final do ano, para o próximo campeonato, em 2016”, esclareceu o treinador.

O Guarani também tem sua torcida organizada. A “Demônios do Mangue” existe desde 2009 e conta com 34 integrantes registrados. Um dos diretores da Demônios, Mazo Ramos, 16, conta que os torcedores são em sua maioria jovens entre 14 e 25 anos e todos torcedores de Palhoça que apoiam e viajam atrás do Guarani sempre que podem. “A gente faz várias viagens, arrecada dinheiro com os integrantes, alugamos um ônibus, e vamos ao jogo. No jogo de volta da final, em Lages, eu não pude ir, mas os integrantes que foram disseram que a experiência foi muito boa. Infelizmente não voltamos com o título, mas as coisas vivenciadas esse ano jamais serão esquecidas”, ressaltou.

Hegon, meia de 26 anos, e um dos destaques do Guarani e da Segunda Divisão Catarinense é um dos casos de jogadores já conhecidos no futebol catarinense. Nasceu em Palhoça, se profissionalizou no Avaí, e também jogou no Metropolitano, antes de se transferir para a Grécia, onde ficou por três anos. Para ele, a experiência foi muito importante.

“Eu fui por indicação de um ex-diretor, que já me conhecia do Avaí e conseguiu contatos para mim. As diferenças são gigantescas: língua, comida e até os treinamentos. Lá a gente treina menos, mas treina o que precisa treinar. A experiência foi muito boa e eu aprendi muito”, explicou Hegon.

Após passagens pelo Asteras Trípoli e pelo ApollonSmyrni, o jogador acabou voltando para o Brasil. “No Apollon, eu tinha contrato de um ano, que seria renovado se o time não caísse. Mas acabamos caindo e eu fiquei sem contrato e voltei para o Brasil. Eu vim passar férias aqui e recebi algumas propostas que não agradaram. Então, o pessoal do Guarani conversou comigo e eu vim para cá. Eu já conhecia 80% do grupo, que eu tinha jogado junto ou contra. A gente tinha tudo para subir”.

Camisa 10 do time, o jogador ainda não sabe onde jogará em 2015. “Estou esperando alguma proposta. Mas, o Campeonato Catarinense hoje é uma grande vitrine. Meu contrato acaba no fim desse ano, mas as conversas com o Guarani já estão encaminhadas e eu penso em jogar o Campeonato pelo Guarani.”

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Com experiência internacional, Hegon é o camisa 10 do Guarani.

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