O backstage nada glamuroso de um desfile de moda

Antes de modelo e estilista subirem na passarela, há muito trabalho duro para que o desfile aconteça

Tay_Desfile

Por Taynara Nakayama

Quem vê o glamour dos desfiles de moda provavelmente não imagina o processo nem um pouco glamoroso que os designers passam para que as coleções cheguem até a passarela. O trabalho todo dura em média um ano e meio. As cores e o tema são escolhidos de acordo com pesquisas de mercado e muita fundamentação teórica é escrita antes que o estilista desenhe e confeccione as peças. Quando chega o dia, ainda há muito trabalho duro antes e durante o espetáculo principal do mundo fashion. Os alunos do curso de Design de Moda da Universidade Estadual de Santa Catarina (Udesc) têm a oportunidade de passar por essa experiência uma vez no ano no evento Octa Fashion (Observatório de Cultura e Tendências Antecipadas). Os formandos apresentam como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) uma minicoleção composta por três looks relacionados com o tema escolhido para este ano, o “Narrativas Enviesadas da Arte Contemporânea: Tempos, Espaços e Memórias”.

A fundamentação das coleções em fatos e períodos da humanidade mostra que a relação moda e futilidade é quase injusta: o designer tenta expressar nas peças de roupa a sua visão sobre o assunto e não apenas fazer algo bonito. Para isso, os alunos pesquisam bastante antes de começar qualquer croqui. O estudante Leonardo Oliveira, um dos 43 formandos que viveu a experiência de produzir um desfile, defende a ideia de que ela vai além da futilidade. “Há muito trabalho – e trabalho duro – antes de o público ver e julgar o mundo fashion como ele parece ser: fútil e de aparências.” E realmente grande parte do que acontece ou das pessoas que estão envolvidas é movida por esses fatores: “É intrínseco à moda, afinal as pessoas que se preocupam com estilo procuram na roupa um caráter puramente estético para se afirmar e em algum ponto do processo um estilista, um vendedor ou um produtor vai tentar fazer com que a coleção venda. Mas aqui na faculdade, aprendemos que antes de tudo a moda é uma crítica à sociedade, é o olhar do designer sobre o mundo. Não deixa de ser uma forma de arte, as pessoas que tornam isso superficial”.

Tay_estilista vestindo a modelo2

Acompanhei o estudante durante todo o dia de preparação para o grande momento em que ele iria expor sua coleção. O desfile estava previsto para começar às 19h30, mas desde cedo ele já fazia os últimos ajustes. “Como os formandos não estão apenas desempenhando a função de estilista, as coisas ficam bem corridas. Eu estou em muitas comissões organizadoras”. Além de orientar as modelos, acompanhar a maquiagem e o trabalho do cabelereiro, passar as roupas, ensaiar o desfile na passarela e vestir as manequins, Leonardo também teve que orientar a montagem das estruturas de luz, passarela e som, atender a imprensa e resolver problemas que sempre aparecem na última hora. “Sempre tem uma modelo que some, uma roupa que não cabe, um fornecedor que não aparece, uma luz queimada. E somos nós mesmos que damos um jeito. Aqui ninguém é mais por ser estilista, não tem folga e trabalhamos igual”.

Tay_Leonardo conversando com uma outra estilista sobre um problema

Leonardo repete duas vezes para mim, talvez para garantir que eu mostre bem que a moda vai além dos minutos de desfile, todo o processo dentro da universidade que os alunos passam para chegar até o dia do TCC. A preparação começa na sexta fase com a escolha do tema e conceito, eles fazem a pesquisa de mercado e escrevem a fundamentação teórica.  A parte do desenho e criação é feita na sétima fase. Por fim, na oitava acontece a produção do desfile e a confecção das roupas. Ele me conta que em uma das edições do OCTA um aluno teve seu carro roubado um dia antes do desfile: “A coleção inteirinha dele estava no carro. Os alunos se juntaram na madrugada do desfile para refazer as três peças de roupa”.

O clima do backstage é de nervosismo e correria, o lugar é lotado e muito barulhento. As modelos ficam sentadas pelas escadas e corredores checando seus celulares ou lendo: “A gente sempre chega umas cinco horas antes do desfile para dar tempo de todas fazerem cabelo e maquiagem. Até a hora de subir na passarela tem muita espera e cansaço. É sempre bom ter um livro e uma comida na bolsa”, diz uma das modelos do Leonardo que completa dizendo que já está acostumada com os gritos e a correria do mundo da moda. “Aqui as pessoas são estressadas. Mas é compreensível, eles passam o dia inteiro se preparando para que os dois minutos na passarela sejam perfeitos”. Além das manequins, circulam pelo ambiente fotógrafos com seus flashes, professores gritando ordens pelo microfone, seguranças, estilistas e staffs.

Tay_sala de maquiagem

O OCTA Fashion mobiliza todos os alunos do curso de Design de Moda, desde a primeira até a última fase. Eles são divididos em staffs (grupos que ajudam os diversos setores necessários para o evento acontecer) que passam manhã, tarde e noite cuidando para que tudo funcione corretamente. Levam modelos até à sala de maquiagem e cabelo, cuidam da sala de vestuário para que nenhuma peça das coleções desapareça, ajudam os estilistas a passar as roupas, cuidam da luz e do som, organizam os ensaios na passarela, atendem jornalistas e convidados e estão sempre com o headset na cabeça gritando para lá e para cá e escutando reclamações dos modelos, estilistas e organizadores. Babi Silveira, coordenadora do evento, diz que o importante é que o público não perceba as dificuldades do dia. “Todos os alunos participam da seleção das modelos, da assessoria de imprensa, elaboração de camarim e estrutura. Todo o evento foi pensado com os alunos. A prática e a vivência do aluno não é só para apresentar uma coleção”.

Tay_modelos sentadas no corredor do backstage

Com cerca de uma hora de atraso, que tira qualquer convidado, jornalista e modelo do sério, o desfile começa. Cada aluno leva em média três minutos para apresentar na passarela o trabalho de um ano e meio: “Vale a pena. Fútil ou não, eu gosto de ver minha interpretação de um assunto na passarela. É meu momento e faz valer os perrengues que a gente passa até chegar aqui”.

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