O fenômeno TV Folha

Canal comandado pelo fotógrafo João Wainer abre o mercado da webtv no Brasil

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Por Paula Barbabela

Fotógrafo, jornalista e contador de histórias. João Wainer não se esconde atrás do fato de ser neto de Samuel Wainer, famoso repórter da época de Getúlio Vargas. Despretensioso e com muita sinceridade, conversou com uma sala cheia de estudantes de Jornalismo sobre sua maior criação: a TV Folha. Ex-diretor e editor do canal de vídeos do jornal Folha de São Paulo, João estava prestes a se demitir da publicação diária quando teve a oportunidade de comandar um projeto de sua escolha. “Uma ideia minha, que comecei do zero. Um departamento de vídeo que fugisse um pouco da linguagem do telejornalismo convencional”.  A produção dos vídeos começou em 2011 e chamou grande atenção do público dois anos depois, com a cobertura dos protestos de junho. No prêmio Esso 2014, ganhou a distinção de melhor contribuição ao telejornalismo. Foi a primeira vez que um jornal impresso recebeu um prêmio do gênero.

“Se você pegar o primeiro jornal nacional, você vai ver que a estrutura das matérias é absolutamente idêntica a das reportagens que são feitas hoje. Eu achava que dava para experimentar uma coisa diferente”. Para fugir do formato do telejornalismo padrão, no qual o repórter conduz a matéria, as reportagens da TV Folha são comandadas pelos personagens. O off – narração do jornalista para os acontecimentos – é abandonado, a fotografia é quem conta a história e a música dá o tom correto para essa narrativa, se aproximando da linguagem dos documentários. “Tem vários elementos que vêm do cinema e nós nos apropriamos. Acho que conseguimos encaixar um pouco esse formato e produzir numa escala razoável”. Até o dia 15 de novembro de 2014, o canal da TV Folha no site Youtube possuía um total de 1984 vídeos publicados.

João e sua equipe adotam algumas posturas incomuns na hora de produzir esses minidocumentários. O repórter fotográfico se tornou o principal responsável pela elaboração e execução das pautas. “O olhar do fotojornalista é completamente diferente de um cinegrafista convencional de TV. Ele está acostumado a trabalhar sozinho, tem uma cultura visual diferente”. Esta diferença é facilmente notada ao assistir as produções, mas não é de responsabilidade exclusiva do fotógrafo. Os editores também são parte fundamental desse trabalho. Na TV Folha, eles são conhecidos como editores-roteiristas, porque têm total liberdade na hora de conduzir a reportagem. Nem todos são jornalistas e sua contratação depende mais de conhecimentos culturais do que técnicos. “Eu prefiro uma galera mais criativa, mais louca e eu prefiro que o cara erre tentando fazer uma coisa diferente do que acerte todas fazendo o convencional”.

A bagagem criativa dos editores pode ser vista em vídeos como Cidadão K, no qual a vida do excêntrico Reinaldo Kherlakian é mostrada em uma narrativa semelhante a do filme Cidadão Kane, de Orson Welles. Assim como a produção de 1941, o vídeo conta com uma série de depoimentos sobre o herdeiro da galeria Pagé – em São Paulo –, mostrando um pouco de quem ele é. Esse tipo de referência é comum nas produções e, mesmo podendo passar despercebido pelos espectadores desavisados, se mostra eficiente na hora de transmitir a mensagem. Isso aliado à ironia usada na maioria dos vídeos pode ser considerado o terceiro pilar de sustentação da TV Folha. “O que nós tentamos fazer e, é muito legal, é falar nas entrelinhas. E é natural que nesse modelo você vá colocar um pouco da sua opinião, mas é importante preservar a ética. Devemos ter ética para não distorcer, não inventar coisa”.

O projeto criado por Wainer foi pioneiro no Brasil e hoje vem inspirando outros jornais do país, como Estadão, Zero Hora e Diário Catarinense a trilharem o caminho audiovisual. Apesar disso, a TV Folha não foi a primeira do gênero no mundo. O formato tem sido explorado fora do país há algum tempo e tem como fortes representantes veículos como o jornal The New York Times e a revista Vice. “Quando a gente começou estava muito mais cru, mas agora há várias pessoas tentando e fazendo. O grande barato desse formato é que ele ainda está em construção. Mas hoje em dia, depois de quatro anos na TV Folha, eu acho que é possível fazer até um telejornal nesse formato. Se a Globo me chamar e me der muita grana eu faço”.

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