Suicídio: um problema de saúde pública

Atingindo jovens, adultos e crianças, casos de suicídio aumentaram 60% nos últimos 45 anos

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Por Matheus Faisting

Em escala global, estima-se que 800 milhões de pessoas se suicidam a cada ano. A cada três segundos, uma pessoa tenta tirar a própria vida. A cada 40 segundos, uma pessoa realmente efetiva o ato. Estes números são maiores do que a soma das mortes por guerra e por homicídios no mundo. A Organização Mundial da Saúde (OMS), em pesquisa feita em 2012, estima que os casos aumentaram 60% nos últimos 45 anos.

Entre 2010 e 2012, 11.821 pessoas cometeram suicídio no Brasil, o que representa um aumento de 10% em relação à década anterior. Nosso país ocupa, em termos absolutos, a oitava posição no ranking de nações com mais casos do planeta. O número de tentativas pode ser até 20 vezes maior que o de mortes. E os dados não param por aí: a cada 45 minutos, um brasileiro tira sua própria vida, o que representa um quociente de 32 casos por dia. Em pesquisa feita pelo Mapa da Violência, do Ministério da Saúde, Santa Catarina é apontada como o segundo estado com maiores números de suicídio do país, com 8,6 registros para cada 100 mil habitantes, ficando atrás apenas do Rio Grande do Sul. O Estado também tem a capital com maior incidência de suicídios do país, com 9,5 para cada 100 mil habitantes.

Estatisticamente, percebe-se que são os homens quem mais tentam tirar a própria vida. Do número de pessoas que cometeram suicídio no Brasil entre 2010 e 2012, dois terços são homens. Das 3.857 tentativas de suicídio registradas em Santa Catarina entre 2005 e 2012, 79,54% foram cometidas por pessoas do sexo masculino. Esses números podem ser explicados pelos métodos utilizados por cada gênero que, na maioria dos casos, são mais letais e violentos quando escolhidos por homens.

Se por um lado são os homens quem mais tentam cometer suicídio, por outro são as mulheres quem parecem ter mais abertura para falar sobre o assunto. Em uma busca nas redes sociais por pessoas que se sentissem à vontade para falar sobre suas experiências, todas que se dispuseram a ser entrevistadas eram mulheres. No dia de seu aniversário, Vitória*, que estava profundamente deprimida em função do término de um longo relacionamento, decidiu tirar a própria vida quando se deu conta da ausência de seu ex-namorado naquela data. “Eu precisava morrer para parar de sentir aquilo. Não queria mais sentir aquela dor no peito, não queria continuar lembrando as coisas que tinham acontecido”, explica. A jovem não conseguiu concluir o ato por falhas no método escolhido, mas atualmente fica aliviada por ter sobrevivido. ”Hoje em dia eu não penso mais nisso. Mas confesso que ainda fiquei muito tempo pensando sobre suicídio”.

A psicóloga Juliana Macchiaverni faz parte da equipe de atendimento de emergências do Hospital Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina e, com frequência, atende casos como o de Vitória*. Ela explica que pessoas que tentam cometer suicídio têm em comum a presença de um sofrimento emocional intenso e dificuldades para identificar alternativas que amenizem suas dores. “Uma questão importante é que o desejo de morrer é sempre ambivalente, ou seja, podemos perceber que ao mesmo tempo em que ela quer morrer, deseja também ser resgatada e viver. É este desejo que pode ser o caminho para a pessoa conseguir construir novas formas de superar suas dificuldades”, complementa.

Apesar de ainda ser considerado um assunto a ser evitado, o tema tem ganhado cada vez mais atenção na esfera pública. Casos de celebridades suicidas, como o do ator Robin Williams, têm feito com que a mídia aborde mais a questão e forneça informações mais esclarecedoras às pessoas. Em entrevista ao programa Marília Gabriela Entrevista, Antônio Geraldo da Silva, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), reforça a importância da visibilidade, mas atenta para certos cuidados. “Noticiar suicídio é complicado. Para não incitar o ato, a imprensa não deve glamurizá-lo e muito menos descrever o caminho e os métodos que a pessoa usou para se matar”, alerta.

Muitas vezes, esses episódios estão ligados intimamente a doenças psiquiátricas. Segundo a OMS, 97% dos casos de suicídio ocorreram devido a transtornos mentais, sendo a depressão a principal causa dessas mortes. De acordo com a mesma instituição, 20% a 25% da população mundial tem ou terá algum quadro depressivo ao longo da vida, o que representa um recorte de cerca de 10% da população atual que realmente tem depressão. A maior concentração da doença acontece em pessoas com faixa etária entre 20 a 30 anos e também acima dos 70 anos. Mas não é só a depressão que causa o suicídio. Dentro do número de suicidas do Brasil, 36% tem transtorno de humor e 22,8% tem envolvimento com álcool e outras drogas.

A taxa de suicídio entre jovens e adolescentes no Brasil também tem índices preocupantes. Nos últimos anos, esta aumentou pelo menos 30% segundo o psiquiatra José Manuel Bertolote, em dados levantados no seu livro “O suicídio e sua prevenção”. Segundo pesquisa publicada na Lancet, um dos jornais mais reconhecidos da área médica, o suicídio é a maior causa de morte entre os jovens no mundo. No Brasil, o ato é a terceira causa de morte entre eles, ficando atrás apenas dos acidentes e dos homicídios. Além disso, casos entre crianças também têm chamado muito a atenção dos pesquisadores. Dados do Mapa da Violência revelam que, entre 2002 e 2012, o número de crianças que cometeram suicídio na faixa etária entre 10 e 14 anos teve um crescimento de 40%. O aumento foi de 33,5% entre adolescentes de 15 a 19 anos.

Segundo Antônio Geraldo da Silva, da ABP, mais de 50% das pessoas que tentam cometer suicídio falam sobre isso dias antes com algum profissional da saúde. A OMS garante que cerca de 90% desses casos poderiam ser evitados caso uma ajuda fosse ofertada às pessoas que pensam em tirar a própria vida. A organização também comprova que 15% a 25% das pessoas que tentaram suicídio repetirão o ato em um período de até um ano. Além disso, dessas pessoas, 7% a 10% realmente conseguem se matar na segunda tentativa.

Carolina* é a prova viva de que pessoas que tentam cometer suicídio pedem ajuda antes de efetuarem o ato. A jovem, minutos antes da tentativa, enviou uma mensagem para o celular de um amigo, que acabou chegando a tempo para levá-la ao hospital. “Decidi fazer isso quando comecei a enxergar só problemas à minha volta. Não via nenhuma hipótese de solução. E ao mesmo tempo via que as pessoas ao meu redor provavelmente não se importavam, então, mesmo se eu não conseguisse, aquilo seria um alerta, um pedido de socorro”, conta. Apesar de ainda pensar em suicídio, Carolina* agora considera mais as possíveis consequências da ação. “Parece que quando você imagina essa possibilidade pela primeira vez, ela se torna uma opção de solução para qualquer problema dali para frente”.

Apesar das estatísticas, são poucas as medidas governamentais que fazem campanha de prevenção ao suicídio ou que ofertem auxílio aos que tentam efetuar o ato. O Centro de Valorização da Vida (CVV) é uma das poucas instituições que fazem um trabalho com pessoas que pensam ou já tentaram se suicidar. O CVV é uma associação civil sem fins lucrativos que é responsável pelo programa “CVV Valorização da Vida e Prevenção ao Suicídio”, que disponibiliza ajuda 24 horas pelo número 141 ou pelo site www.cvv.org.br.

*Alguns nomes foram modificados para preservar a identidade das pessoas citadas na matéria

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