Você tem uns minutos para ouvir sobre o sindicato?

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Comentário de Luiz Gabriel Braun

A palestra mais vazia de todas durante a 13ª Semana de Jornalismo, sem sombra de dúvidas, foi a mesa sobre a Fenaj, que aconteceu na quarta-feira. Eram 12 presentes no auditório do CCE, sendo sete da organização, um da Comunica (esses meio que são obrigados a estar ali) e sete outros, contando comigo.

A mesa começou com meia hora de atraso, porque o convidado, Aderbal João da Rosa Filho, presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, se esqueceu do compromisso. Em seu lugar, veio Renan Antunes, vice-presidente. A figura de Renan era de se chamar atenção: um homem alto, com uma careca de dar inveja ao Lex Luthor, de chinelos, vestindo um agasalho, e usando um guarda-chuva (ou seria um guarda-sol?) que, por sinal, esqueceu no auditório (ou se livrou, mesmo).  Seu currículo também é notável, já passou por Veja, Estadão, IstoÉ e pela rádio do Partido Comunista Chinês. Mas foi pelo pequeno jornal gaúcho Já que recebeu o mais tradicional prêmio do jornalismo brasileiro, o Esso.

Eu já conhecia Renan da Semana do Jornalismo do ano passado, quando também discursou em uma mesa sobre “O Olhar do repórter na cobertura de conflitos urbanos”, com mais dois convidados. Era muito comunicativo e não poupou críticas aos grandes grupos, sugerindo até que corrêssemos atrás do patrão, com o nosso bloquinho e caneta na mão para furá-lo. E isso que era uma conversa sobre jornalismo crítico, imagina agora, que a pauta era sindicalismo?

Ele não decepcionou, começou falando de seu amigo Adelmo Genro Filho – não o tratando como um Deus sagrado do Jornalismo, como alguns professores do curso – e foi bem claro ao dizer que para enfrentar o poder patronal só a união do sindical. Contou que no dia anterior havia se reunido com o ministro do Trabalho para discutir as demissões em massa da RBS. Mas, como o ministro é pró-empresa, a conversa provavelmente não irá para frente. Essa postura, segundo ele, reflete na universidade e no curso de Jornalismo, que tem uma cátedra da RBS e nenhuma sobre sindicalismo – que Renan havia proposto. Ou melhor, até há a disciplina [Cátredra Fenaj], mas desde que eu entrei no curso, não vi uma turma, em oposição a quase onipresente Cátedra RBS.

De fato, é uma pena que não se discuta mais sindicalismo no curso. Se você perguntar a qualquer um deles, é difícil que algum saiba definir o que é. Dirão que sindicalismo serve para negociar salário e ficarão por aí. Renan julgou esse debate como uma causa perdida para os estudantes e ainda explicou como “funciona” essa negociação: O sindicato pede reajuste de tanto, o patrão oferece quase nada, o sindicato discorda e o patrão fala para a redação que o sindicato está sendo intransigente e não quer fazer acordo. Mas sindicato é mais que isso, de acordo com a constituição, a ele “cabe a defesa dos direitos e interesses coletivos ou individuais da categoria, inclusive em questões judiciais ou administrativas”.

Segundo a pesquisa “Perfil profissional do jornalismo brasileiro”, realizada pelo programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da UFSC, e coordenado pelos professores Jacques Mick e Samuel Lima, aproximadamente um quarto dos jornalistas brasileiros são sindicalizados (mais de 36 mil jornalistas), número baixo se comparado com os outros 75% que não são (mais de 108 mil jornalistas). Em julho de 2013, menos de 2% dos jornalistas do Brasil inteiro compareceram às eleições da Fenaj. São Paulo, por exemplo, é o maior colégio eleitoral e teve apenas 551 votantes.

O que o baixo público nessa palestra sobre a Fenaj e o auditório lotado minutos depois para um profissional da grande mídia – Guto Kuerten, do DC – aliado aos estudos indicam é que nem os atuais profissionais nem os futuros parecem se importar com o quão importante é o papel do jornalista. Ao contrário, ao invés de lutar por maior reconhecimento aos profissionais do quarto poder – que recebem menos do que os dos outros –, decidem se render ao mercado, transformando o acesso à verdade e à informação em produto. Isso, claro, configura um desrespeito não só ao jornalista em si, mas à história do Jornalismo e o seu papel decisivo em mudanças sociais. Mas, claro, isso parece muito cansativo e difícil de ser feito sozinho. Um caminho mais fácil para construir a carreira de repórter, segundo Renan, é só dizer sempre sim para o patrão

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