A terceira idade não precisa mais dançar sozinha

Graças a avanços na medicina e mudanças culturais, idosos mantêm vida sexual ativa e aproveitam liberdade dos novos tempos

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Por Amanda Ribeiro

Sentada bem no centro do banco de madeira ao lado do shopping, Alba Terezinha Kiseski aguardava por visitas. Distraída, brincava com as próprias mãos, analisando as unhas que, se não haviam sido pintadas no dia anterior, mostravam o excesso de zelo pela boa aparência da senhora de 69 anos. Realmente, tudo indicava que dona Alba havia se produzido naquele dia: o laquê deixou seus cachos loiros muito bem arrumados (não se via um fio branco em sua cabeça), apesar dos ventos fortes que desalinhavam o cabelo de quem passava naquele momento perto da Praia dos Ingleses; o vestido, na altura dos joelhos, parecia flutuar suavemente. Sentada ali, no banquinho de madeira, Alba cumprimentou com um sorriso caloroso a pessoa que esperava, mesmo sabendo que iria conversar sobre sexo com alguém que ela tinha certeza de nunca ter visto na vida.

Ela abriu a porta do shopping e, sem hesitar uma vez durante o caminho, foi até a lanchonete e acenou para o garçom. Conhecia aquele lugar muito bem: morava há três anos a poucos quarteirões do Shopping Barra Norte, no bairro dos Ingleses, sustentando-se com o dinheiro dos imóveis herdados do falecido marido, que ela alugava principalmente para estudantes, na Trindade. Com o dinheiro, saiu de sua casa em Coqueiros e foi morar na praia. A alegria foi compartilhada pelas amigas, que transformaram sua casa em atração turística durante o verão.

Alba ficou viúva há 37 anos, em circunstâncias que preferiu não explicar. Na época, foi deixada com dois filhos pequenos e alguns imóveis, que a ajudaram a se sustentar. Quando fala do marido, que conheceu de frente à igreja durante a missa do Galo em sua cidade, aos 22 anos, o sorriso se desfaz e os lábios tremem. Durante os meses que se seguiram a sua morte, entrou em profunda depressão e imaginou que ia morrer sozinha. Felizmente, a tristeza não durou muito e, depois de dez anos de casamento, Alba voltou a ser solteira e sair com as amigas.

Durante os 30 e poucos anos de viuvice, ela não chegou a parar para contar, mas abriu um sorriso largo ao afirmar que não teve poucos namorados. Suas vidas afetiva e sexual não acabaram com a morte de seu marido; na verdade, elas continuaram ativas até seis meses atrás, quando terminou com seu último namorado. “Faço sexo sim, mas não muito. Durante os seis meses em que estive com o meu ex, fizemos só uma vez. E eu posso ser sincera? Ele não era muito bom não”, diz ela, e começa a rir. Os motivos do término não foram esclarecidos, mas as amigas trataram de deixar a história contada: tudo começou com uma ida ao motel com o namorado. Quando as coisas começaram a esquentar e o homem de 60 e poucos anos foi se despir, Alba descobriu algo que não havia sido revelado durante os seis meses de namoro: ele tinha uma perna mecânica. Tão rápido como esquentou, tudo esfriou e ela tratou de sair dali o mais rápido possível.

Esses e outros episódios não aconteceriam em hipótese alguma com Alba cinquenta anos atrás, quando a tendência era que as viúvas se fechassem em suas casas, em luto, e jamais voltassem a se relacionar com outros homens. Hoje, ela é integrante de uma parcela de idosos que praticam atividades físicas, frequentam clubes da terceira idade e não se deixam pegar pela solidão. Segundo uma pesquisa realizada em 2012 pelo Estado de São Paulo, os números de suicídios entre pessoas com mais de 80 anos cresceu 154% entre 1996 e 2012.

A terceira idade também tem se tornado mais ativa quando o assunto é sexo: os avanços tecnológicos da área da saúde, que levaram à criação do Viagra para os homens e de tratamentos de reposição hormonal para as mulheres, ajudaram os idosos a manter o ritmo de suas vidas sexuais, o que antes não acontecia por motivos culturais e fisiológicos. Segundo o geriatra Mauro Montaury o sexo é importante para que o idoso se desvincule da ideia de que não existe prazer, nem psicológico nem físico, na terceira idade. “O idoso usa o sexo para reforçar sua própria identidade, aprender os caminhos para desenvolver seu prazer e seu amor pela vida. Ele precisa se libertar da ideia de que seu corpo só lhe causa dor, doença e sofrimento”.

A revolução cultural das últimas décadas, que levou as pessoas a se abrirem muito mais com relação ao sexo, também atingiu os idosos. Dona Alba, ao comparar sua situação com a de sua mãe, que também ficou viúva, reconhece que as coisas mudaram. “Quando meu pai morreu, lembro da minha mãe usando preto por meses e meses, sempre muito triste. Eu cheguei a entrar em depressão quando meu marido morreu, mas as situações foram completamente diferentes; consegui superar muito mais rápido, comecei a sair e encontrei outras pessoas. Acho que a cultura de relacionamentos mudou muito desde quando eu era mais nova”. Alba conta que voltou a se relacionar com outras pessoas quatro anos depois da morte do marido. Esse tempo, segundo ela, era considerado ínfimo na época de sua mãe.

Alba não se importa em falar de sexo, e não hesita em admitir que sempre teve uma vida sexual ativa com seus namorados. Um episódio que explica isso muito bem – e que ela fez questão de omitir durante a conversa – foi seu breve relacionamento com um de seus vizinhos. O senhor, com seus sessenta e tantos anos, começou a conversar com Alba pelos corredores do prédio. Aos primeiros contatos se seguiram as primeiras insinuações e, logo depois, o primeiro convite a frequentar sua casa: um jantar despretensioso, que seria ótimo para os dois se conhecerem. Alba chegou ao apartamento e se deparou com uma mesa bem posta e um senhor bem apessoado. O jantar se desenrolou bem e, depois da refeição, o idoso pediu licença por alguns minutos. Ela não estranhou o pedido, considerando que ele deveria ter ido ao banheiro. Alguns minutos depois, no entanto, descobriu que essa não era bem sua intenção: eis que, na porta do quarto, ele aparece, completamente nu, e a chama para entrar no quarto com ele. E o que ela respondeu? Sim. Ela disse sim.

O doutor Mauro Montaury ressalta que atitudes de desenvoltura e aceitação da própria sexualidade como as de Alba são importantes para se manter saudável durante a terceira idade. Para combater a perda de libido, que é normal nessa faixa etária, o geriatra indica atividades físicas moderadas e uma dieta saudável, que Alba parece se empenhar em seguir: faz pilates duas vezes por semana, caminha sempre que possível e evita exagerar na alimentação, o que ela tentou demonstrar pedindo um suco de morango com pouquinho açúcar. “Eu faço massagens e várias outras coisas para cuidar do meu corpo, porque senão você já viu, né? É importante estar bem com o corpo e com a cabeça, daí você vira outra”. A demonstração de saúde, no entanto, só durou até o primeiro gole de suco, quando o azedume do morango fez com que não hesitasse em virar dois envelopes de açúcar no copo.

Apesar das ‘aventuras amorosas’, Alba gosta de ressaltar que tem consciência das Doenças Sexualmente Transmissíveis, e que está sempre preparada para se proteger. Ela diz que não vê necessidade de usar o preservativo para mulheres, mas que sempre pede para o parceiro usar camisinha. “Essas doenças apareceram por aí agora, mas sei que tenho que me prevenir e faço tudo certinho”. As precauções de Alba a colocam em um grupo seleto de idosos que se preocupam com o uso de preservativos. Em uma pesquisa realizada pela Universidade Federal do Paraná, apenas 43% alegaram fazer uso de algum tipo de proteção. 28% destes que alegaram se proteger não conseguiram citar nenhum método preventivo.

A questão da falta de cultura do preservativo que existe entre a população idosa levanta preocupações sobre doenças mais graves, como a Aids. Atualmente, a faixa etária onde mais crescem os índices da doença é a da terceira idade: segundo a OMS, em 1996, o índice de idosos infectados era de 6%; hoje, os números dobraram. Mas a falta de conhecimento sobre a Aids não para por aí. Outra pesquisa, realizada no Vale dos Sinos, no Rio Grande do Sul, constatou que cerca de um terço dos idosos acreditava que a Aids era uma doença contraída exclusivamente por homossexuais, prostitutas e usuários de drogas, e 42% disseram que a doença é transmitida por um mosquito. Um motivo provável para a falta de conhecimento sobre métodos de prevenção é a escassez de campanhas de conscientização voltadas para o público idoso; a quase totalidade delas é destinada a jovens.

Alba afirmou com veemência que essa história de DST não existia em sua época, quando as pessoas se casavam por amor e só chegavam ao sexo quando tinham certeza de que ficariam juntos por muitos e muitos anos. Ela diz que, apesar de muitas coisas terem melhorado de alguns anos para cá, sente falta do romance da época em que era jovem e namorar se resumia a segurar as mãos ou trocar olhares de um extremo ao outro do sofá, no segundo em que os olhos inquisidores do pai se distraíam. “Antigamente a gente se casava com amor. Hoje as pessoas são interesseiras: antes de ficar com alguém, procuram saber se os pais têm dinheiro, se aquilo é uma boa oportunidade. Não existe mais amor, não existe o romance da minha época. As pessoas agora só vão atrás de sexo, e muito rápido”.

Hoje em dia, Alba está solteira e diz que pretende continuar assim por um bom tempo. Ela diz que às vezes pensa em se casar de novo, mas, com a liberdade que diz ter adquirido nos 30 e poucos anos em que esteve sozinha, afirma que logo muda de ideia. Foi assim com o último namorado – o da perna mecânica – que lhe impunha limites demais. Os planos para agora então não envolvem namorados? Eu lhe pergunto. E ela balança a cabeça em negativo. “Durante o verão eu quero é aproveitar a praia com as minhas amigas que vêm aí. Na meia estação eu volto aos bailes da terceira idade”. E nos bailes é fácil arrumar alguém para dançar? Ela ri e diz que não faltam pretendentes – inclusive, vários de seus namorados encontrou nesses bailes, que talvez sejam um dos últimos redutos para se praticar um pouquinho de romance, dançando a dois. Mesmo assim, as coisas mudaram: D. Alba disse que não precisa mais de pretendentes para dançar, principalmente se forem daqueles que pisam nos pés. Se for para atrapalhar, pode sair; a partir de agora, diz que só aceita um namorado que dançar bem. Se não, não tem problema: ela não vai se importar em ir até o centro do salão e se divertir com a leveza dos próprios pés. Hoje se pode dançar sozinho, não pode? E ela está feliz assim.

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