Pôquer: carreira de sucesso ou caminho para os problemas?

Abrir mão de empregos tradicionais pela aposta de que é possível viver das cartas já não é mais novidade no Brasil

Ana_poker1

Por Ana Carolina Vaz

Sean Connery, George Lazenby, Roger Moore, Timothy Dalton. Não é difícil acertar o que eles têm em comum. Todos já assumiram a pele do agente secreto mais fascinante do mundo na franquia de sucesso 007. Além de espiões, todos são experts com as cartas. Mas em Cassino Royale, só Daniel Craig protagonizou a cena que salvaria o mundo numa mesa de jogo, com aposta nada menos que 100 milhões de dólares. Sim, James Bond ajudou a popularizar o pôquer pelo mundo – e inspirar muitos adeptos.

Bond-2

Não é a carreira que toda mãe sonha para o seu filho, mas jogar pôquer no Brasil virou um meio de vida e, em alguns casos, muito lucrativo. Na maior parte das vezes, começa na brincadeira. Um golpe de sorte aqui, outro ali, e a confiança de que se tem talento para a coisa vai crescendo. A sensação de faturar um bom dinheiro na mesa pode ser efeito decisivo para que alguém, em geral na casa dos 30 anos e com boa formação universitária, resolva abrir mão de uma carreira tradicional para se dedicar exclusivamente às cartas.

O paulistano e campeão mundial André Akkari apostou suas fichas nessa carreira e até hoje já conquistou os maiores campeonatos do mundo. Em 2005, ele era sócio de uma empresa de tecnologia quando foi contratado para reformular a área de vendas de um site de pôquer. Curioso, baixou um dos softwares disponíveis e passou a brincar nas horas vagas. Durante meses estudou técnicas de profissionais americanos e probabilidades matemáticas. “Daí para a frente foi coisa de Deus. Em pouco tempo ganhei 226 mil dólares em um torneio no Uruguai, quitei meu apartamento e tive a certeza de que a decisão havia sido certa”, conta.

Oficializada como esporte mental pela Federação Internacional dos Esportes da Mente (IMSA), a modalidade já atraiu cerca de 5 milhões de competidores no país. Credenciada pelo Ministério do Esporte, a Confederação Brasileira de Texas Hold’em é a responsável pelos campeonatos nacionais. Mas não é ilegal? Sim. Promover jogos de azar é algo proibido no Brasil desde 1941 – fora as loterias do Estado, só as corridas de cavalo estão livres. E é justamente por isso que os organizadores do Brazilian Series of Poker (BSOP) – maior campeonato da América Latina – se cercam de cuidados. Cada vez que o evento se instala em uma nova cidade, a Confederação Brasileira de Texas Hold’em corre para conseguir alvarás e liminares na prefeitura, na polícia local e na Justiça. Para obter as autorizações, alega o seguinte: “No pôquer, ao contrário do que acontece na roleta, por exemplo, a sorte não é o fator determinante para vencer. O que mais conta é a habilidade do jogador”, diz Devanir Campos, diretor de torneios de pôquer no Brasil. Para ele, o jogo é um esporte mental da mesma forma que o xadrez, e o empasse é para desmitificar a ideia de jogo de azar. “A lei não mudou em nada nos últimos 40 anos e a sociedade está se informando cada vez mais. Temos diversas universidades renomadas no mundo que enxergam que o pôquer é uma atividade de habilidade, por que a sociedade brasileira faria diferente?”, sentencia.

E se para uns o jogo serve como carreira, para outros pode ser o caminho para os problemas. Nesse contexto, além da figura do jogador profissional, surge o jogador compulsivo – que o próprio nome já sugere as circunstâncias. Para a professora de Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina, Isabela Machado, o problema do jogador viciado é que nunca há uma forma de parar: quando vence, quer ganhar mais e quando perde, quer recuperar o valor que perdeu. Segundo ela, trata-se de um jogo patológico que, a qualquer momento, pode virar doença. “Os movimentos frequentes e repetitivos podem gerar uma mudança de comportamento da pessoa e ainda leva-la a uma disfunção e afastamento social, ocupacional e de valores da família e dos seus compromissos”, afirma.

Ana_poker2

Estudos acadêmicos feitos nos Estados Unidos revelam que o intervalo de tempo entre começar a jogar e a perder o controle sobre o jogo varia de um a 20 anos, sendo mais comum num período de cinco anos. Mas é importante destacar que nem sempre o hábito do jogo representa um vício. De acordo com a professora Isabela Machado, apenas algumas pessoas estão sujeitas a ter um comportamento obsessivo. “Nesses casos, basta jogar uma primeira vez para não conseguir mais se livrar do hábito. Agora quem não tem propensão ao vício, pode jogar quantas vezes quiser que isso não se transformará em uma doença”, explica.

A ideia de que o pôquer é um jogo de cartas mas não de azar vem ganhando força no mundo, e a discussão sobre a regulamentação da modalidade ainda divide opiniões. Em meio à polêmica, os apostadores esperam que o famoso debate termine e tenha dois efeitos: que a apresentação de liminares a cada campeonato realizado seja dispensada e, claro, ajude a melhorar a sua reputação junto às mães.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s