Quando o traço conta a história

Histórias em quadrinhos são a nova aposta da literatura catarinense

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Justiceiro Joceli e a missão de salvar o maior símbolo da capital.

Por Paula Barbabela

Uma maldição antiga ameaça a Ponte Hercílio Luz, em Florianópolis, e cabe ao “super-quase-herói” Justiceiro Joceli salvar o maior símbolo da capital, em uma narrativa repleta de espionagem, comédia e aventura. Este é o enredo de Justiceiro Joceli e a Ponte de Prata, uma história em quadrinhos (HQ) baseada em um personagem da vida real. O funcionário da Justiça Federal e tricampeão de kart Joceli Righi foi transformado em herói durante uma brincadeira entre amigos. Para imortalizar o justiceiro, o jornalista Romeu Martins e o cartunista Victor Vic transferiram a realidade para 25 páginas de ficção publicadas em 2014. Essa foi a segunda vez que a dupla participou de um projeto juntos. Em novembro de 2013, eles lançaram a história sobrenatural Domingo, Sangrento Domingo.

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Romeu e Victor: Além de criar o Justiceiro Joceli, em 2013 lançaram a história sobrenatural Domingo, Sangrento Domingo.

Romeu e Victor não são os primeiros a se arriscar no mundo das HQs em Florianópolis. Em setembro passado, as ilustradoras Rebeca Acco e Waleska Ruschel também tiveram a oportunidade de expor suas histórias ao público. Muiraquitã e a fúria do Anhangá conta a história de um jovem índio enfrentando uma ameaça de extinção do seu povo. Já  Nível Zero um universo em que todos nascem com super poderes é o cenário principal da história de Lia. Os enredos das narrativas chamaram atenção durante um evento na capital. “Participo de um projeto chamado Desenhe Aqui e houve a possibilidade de encontro com uma editora. Levei minha ideia, eles gostaram e investiram”, conta Waleska.

O Desenhe Aqui ocorre mensalmente desde 2011 e reúne ilustradores, desenhistas, pintores e grafiteiros para troca de ideias, técnicas e experiências. Para Kayuá Waszak, um dos criadores do projeto, o objetivo do evento é diminuir a distância entre os artistas. “Desenhar é algo solitário. Normalmente é só você e o papel. Nossa intenção é justamente acabar com isso. Fazer todos desenharem juntos, interagindo e comentando a arte um do outro”. Criado por ele e por Davi Leon Dias, o Desenhe Aqui já teve 35 edições e é responsável também pela publicação de Justiceiro Joceli e a Ponte de Prata e Domingo, Sangrento Domingo.

Apesar de já existir em grandes cidades do país como São Paulo e Belo Horizonte, o mercado de HQs ainda é novo com quatro HQs lançadas. Os responsáveis pelas produções recentemente publicadas encontram dificuldades na hora de encarar a atividade como profissão. “Infelizmente a maneira como grande parte da sociedade encara quadrinhos resulta em pouco comprometimento por parte de investidores e impede muitos autores dedicados de viver apenas disso”, relata Waleska, que também trabalha como professora de desenho no Senai. Assim como ela, além de viver dos quadrinhos, Victor Vic recorre a outros tipos de ilustrações para se sustentar. “É bem ampla a quantidade de categorias em que consigo trabalhar. Faço livros, convites de casamento, caricaturas e charges”, conta Victor.

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Transferiram a realidade nas 25 páginas de ficção publicadas este ano.

A primeira vista, pode não parecer, mas o trabalho de Victor se relaciona diretamente com as histórias em quadrinhos. A charge foi um dos primeiros contatos do Brasil com o estilo. O modelo de sátiras, representado também nas caricaturas, se consolidou com as populares tiras de jornal e resultou na primeira HQ brasileira, O Tico-Tico, de 1905. Nos Estados Unidos, país de origem dos quadrinhos, não foi diferente. Tudo começou em 1895 com a chamada Yellow Kid (O Menino Amarelo) do cartunista Richard F. Outcault. Mais tarde, o gênero virou sucesso naquele país com super-heróis clássicos como Batman e Homem-Aranha. Em outros lugares do mundo, o mangá – estilo de quadrinho japonês – Dragon Ball e histórias mais recentes como Sandman, do britânico Neil Gaiman, também conquistaram legiões de fãs.

Hoje os quadrinhos são escritos em todas as partes do mundo e lidos por diversos tipos de leitores. Segundo Waldomiro Vergueiro, fundador e coordenador do Observatório de Histórias em Quadrinhos, o público leitor do gênero é composto por jovens entre 11 e 25 anos, que são divididos em sete categorias. Elas vão dos leitores eventuais, que usufruem, mas não têm predileção pelo meio, aos fanáticos, que sabem tudo sobre história, personagens e produção do quadrinho. “A leitura de histórias em quadrinhos, de maneira imediata, não traz prejuízos. Ela passa a ser problemática quando interfere nas interações sociais, profissionais e em atividades cotidianas, como tomar banho. Mas acredito que ela traz, possivelmente, mais benefícios que malefícios”, alerta Talissa Müller, mestre em Psicologia, especialista em análise experimental do comportamento.

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Waleska Ruschel e Rebeca Acco também tiveram a oportunidade de expor suas histórias ao público com Muiraquitã e a fúria do Anhangá .

Entre os benefícios desse tipo de literatura está o incentivo a leitura do público infantil. Para Waleska Ruschel, “os quadrinhos providenciam um ritmo narrativo diferente, linguagem visual mais específica e clara e um potencial de imersão maior”, o que costuma cativar as crianças. Profissionais envolvidos na produção das histórias em quadrinhos, como a própria Waleska e Kayuá Waszak, começaram a se interessar pelo gênero ainda na infância. “Acho que as revistas em quadrinhos têm um grande papel na minha escolha profissional e no meu dia a dia. Fruto de um interesse que surgiu com os clássicos Calvin e Haroldo, Revistas Disney e Turma da Mônica”, conta Kayuá.

A revista Turma da Mônica foi criada em 1970 e estima-se que já vendeu mais de um bilhão de gibis. O quadrinho conta a história de Mônica, Cebolinha, Cascão, Magali e seus amigos no fictício bairro do Limoeiro. A série, que começou a ser publicada pela editora Abril, hoje é vendida pela Panini Comics e já foi traduzida para 14 idiomas. Com produtos licenciados em 40 países, a Turma da Mônica inspirou desenho animado do canal Cartoon Network, produtos alimentícios e de higiene e até uma rede de lojas nos anos 1980. Além disso, resultou em 27 filmes, 23 álbuns musicais, 35 jogos e três parques temáticos. A história é escrita pelo ex-repórter policial Maurício de Sousa e, ao longo dos anos, se tornou a maior referência em quadrinhos do Brasil.

Feminismo nos quadrinhos

Mônica é uma personagem decidida, cheia de agressividade e com pouca paciência. Contrariando o papel tradicional doméstico e submisso dado às mulheres nos quadrinhos desde a década de 40, ela acaba tornando sua história em uma espécie de HQ feminista. O feminismo nas histórias em quadrinhos é uma tendência que vem surgindo nos últimos anos. Seja em pequenas alterações no figurino da Batgirl, que passou a ser mais funcional e menos sensual, até a grande mudança do personagem Thor. Impedido de empunhar seu martelo, agora a escolhida para exercer o papel do deus nórdico é uma mulher.

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O universo dos quadrinhos também vem sendo invadido pelo sexo feminino no lado de fora das páginas. As ilustradoras Rebeca Acco e Waleska Ruschel são o exemplo claro disso em Florianópolis. “Por vezes cruzar estes ambientes pode ser desconfortável, e uma força maior de autoras e ilustradoras nos quadrinhos resulta inevitavelmente em uma mudança no paradigma tradicional deles, feitos majoritariamente masculinos pela indústria norte americana. Acho que é extremamente benéfico, mas como toda mudança, pode incomodar alguns. De qualquer jeito, acredito que isso só vem a contribuir para o mercado e quanto mais diversa a base de autores, melhor a representatividade da sociedade como um todo na mídia”, declara Waleska.

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