Sangue gay no lixo

Desde a descoberta da AIDS, homossexuais são impedidos de doar sangue

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Por Lucas Weber

O pai de Caio R* sofre de uma grave síndrome chamada mielodisplasia. Ela acarreta na deficiência de produção das células da medula óssea – as que compõem o sangue – como, por exemplo, plaquetas. Ao saber do estado do seu pai, Caio não pensou duas vezes e pediu ajuda a todos os seus amigos através do Facebook e também tomou a iniciativa e foi doar sangue. No Hemosc, onde seu pai estava internado, Caio teve seu sangue rejeitado. Não pode doar para seu pai. “Antes de ir doar tem que fazer uma entrevista com uma médica. Lá me perguntaram se eu tive relação sexual com algum parceiro do mesmo sexo nos últimos 12 meses. Eu respondi que sim e eles me mandaram embora”.

Essa não é uma política do Hemosc, é uma lei federal que existe desde a descoberta da AIDS. A portaria 1.366, de 1993, deixa bem claro e não abre espaço para precedentes: “Serão inabilitados por um ano, como doadores de sangue ou hemocomponentes, os homens que nos 12 meses precedentes tiveram relações sexuais com outros homens e ou as parceiras sexuais destes”. Além do Brasil, cerca de 50 países pelo mundo impedem que homossexuais possam doar sangue. Segundo especialistas da área médica, essa lei está embasada em estatísticas que comprovam a maior incidência de HIV em gays homens por serem mais promíscuos.

Andreia Taves de Carvalho Hoepers é médica e trabalha no banco de sangue do Hospital Universitário. Apesar de achar o assunto polêmico concorda com a lei. “Não é preconceito, trabalhamos com dados que nos passam. Você tem que entender que não podemos correr o risco de passar um sangue contaminado para uma pessoa com imunidade baixa”.

Mas os sangues recebidos não são testados?

– “Sim, todo o sangue que é doado passa por rigorosos testes. Acontece que existe a janela imunológica, é o termo que denominamos para o período de seis meses que o vírus pode demorar para manifestar seus sintomas. Temos que levar isso em consideração”.

Enquanto conversarmos, uma enfermeira – interessada no que falávamos – entrou na sala e entregou um papel para Andreia que me mostrou. Um dado da Sociedade Brasileira de Infectologia que diz que o índice de HIV entre homens gays é de 10,5%, enquanto entre outros grupos é de 0,5%. “Esses são os números que temos, trabalhamos com as estatísticas oficiais”.

Mas ninguém contesta isso?

– “Não, não tem por quê. Tenho muitos colegas da área médica que são gays e concordam com a medida”, afirmou Andreia.

A Presidente da Comissão da Diversidade Sexual e Combate à Homofobia da OAB SP, Adriana Galvão, em entrevista ao portal Igay de notícias esclareceu como essa lei não faz sentindo: “Em 2004 e 2011 duas resoluções atualizaram a portaria original de 1993. Elas são contraditórias, uma diz que não pode e outra diz que isso não pode ser levado em conta. No final, vale a que o médico concorda. A constitucionalidade desta resolução é extremamente questionável, a meu ver fere frontalmente a Constituição Federal, que veda discriminações”.

Também da Comissão da Diversidade Sexual e Combate à Homofobia da OAB, Maria Benedice Dias, aborda outro ponto importante da discursão: “Essa lei é absolutamente discriminatória. Qual é o motivo de essas pessoas não poderem doar? Não é por conta da orientação sexual, mas pelo fato de manterem relações anais. Não é a orientação sexual da pessoa que determina a prática do sexo anal, heterossexuais também praticam e deveriam ser incluídos”, explica.

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Mas seguindo Andreia Hoeper, a questão vai além do sexo anal. “Não são apenas relações sexuais que podem transmitir doenças. Através do próprio beijo pode ter alguma troca de substâncias contaminadas, caso algum parceiro tenha afta, por exemplo”. Apesar de ser quase impossível transmissão de HIV através de um beijo, Andreia afirma que são muitas outras doenças que podem ser transmitidas.

Um estudo da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, deste ano, divulgou que 615 mil bolsas de sangue não foram coletadas devido à rejeição homossexual. Isso equivale a 290 mil litros de sangue rejeitados anualmente desde 1983, quando foi proibida a doação gay no país.  No banco de sangue do HU os números não são tão assustadores. No último mês, das 2200 tentativas de doação de sangue, 330 foram rejeitadas.

Em uma nova resolução aprovada ano passado, passa a ser obrigatório o teste de ácido nucleico (NAT) nos sangues coletados. Esse processo consegue agilizar a identificação de vírus como o HIV ou HCV, causador da Hepatite tipo C. Assim, o período da janela imunológica, a principal justificativa para os médicos não aceitarem sangue homossexual, seria diminuído. No entanto, mesmo com essa nova norma nada foi alterado. Uma alternativa mais imediata seria permitir que o receptor do sangue decida se aceita sangue de alguém do grupo de risco. “É uma boa alternativa, mas muito complicada. A pessoa que vai receber o sangue provavelmente não vai levar em consideração todos os fatores e poderá correr muitos riscos.”

O que importa é que o pai de Caio, com 75 anos e uma saúde debilitada não pode receber as plaquetas do seu filho. Com 20 anos de idade, há um com sua homossexualidade assumida, Caio se sente incompreendido: “Não entendi porque fui rejeitado, ninguém me deu uma explicação razoável. Nem perguntaram quantos parceiros eu tive e se eu usei camisinha, só me mandaram embora. Pelo menos me deram uma esperança. É só eu não ficar com ninguém nos próximos 12 meses, virar um ex-gay…”

*Nome fictício para preservar a identidade da fonte.

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