Santas convenções, Batman!

Pessoas mascaradas, aliens, robôs, zumbis, ninjas e mutantes estão invadindo o Brasil. Mas não há motivo para alarde. Eles estão apenas indo para uma Comic Com

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Cosplayers fazem parte dos 130 mil visitantes da San Diego Comic Com.

Por Luiz Gabriel Braun

As convenções de quadrinhos começaram nos anos 60 nos Estados Unidos como encontros de fanáticos em gibis, que eram chamados de nerds. Em geral, os nerds eram jovens muito estudiosos que possuíam problemas de socialização e sofriam preconceito pelos seus gostos. Nos últimos anos, o termo começou a se expandir e nerd passou a ser definido como alguém que não necessariamente é estudioso ou, tampouco, antissocial, mas que é muito fã de algo da cultura pop.

É obcecado por HQs? Nerd. Sabe tudo de uma determinada série de TV, a ponto de poder citar as histórias de todos os episódios? Nerd. Consome qualquer notícia publicada sobre uma franquia de filmes, ficando irritado quando os produtores fazem algo que não gosta com os seus personagens preferidos? Nerd. Já perdeu muitas horas da sua vida zerando games? Nerd. E assim como o perfil dos frequentadores mudou, o das convenções também, e os quadrinhos ganharam companhia de todas as mídias, como livros, filmes, séries e videogames.

A maior Comic Con do mundo é a de San Diego, na Califórnia, que, todos os anos, tem uma média de 130 mil visitantes, sendo que 70% vão unicamente para comprar produtos, segundo pesquisa da empresa Eventbrite, responsável pela venda de ingressos.  Estima-se que a cidade tenha lucrado 177 milhões de dólares como resultado da Comic Con deste ano. E um lucro desses é de fazer qualquer empresário brasileiro pensar em importar o modelo.

18ª FestComix no Centro de Eventos do colégio São Luiz em 10/2011

Feirão de quadrinhos com desconto é a principal atração da FestComix.

Um deles foi Pierre Mantovani, co-fundador da Tribal, uma das primeiras agências de marketing digital brasileira, e sócio majoritário e diretor executivo do site nerd Omelete desde 2010. Atualmente esse é o site que mais movimenta publicidade dentro do UOL, onde está hospedado, e, em parceria com a Chiaroscuro Studios – agência que representa artistas de quadrinhos -, organizou a Comic Con Experience, realizada no início de dezembro. Ela, que pode ser a maior convenção de cultura pop da América Latina, tem como principal atração a pré-estreia do filme “O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos” com o protagonista Richard Armitage. Também haverá um painel da Disney sobre a continuação do Vingadores, campeonatos de E-Sport que vão distribuir mais de 150 mil reais e master Classes comandadas pelo desenhista brasileiro Joe Prado, exclusivo da DC Comics. Entre os convidados, estão os atores Jason Momoa (de Game of Thrones, Conan e o futuro Aquaman) e Edgar Viviar (o Seu Barriga) e Jim Morris, presidente da Pixar. Maurício de Souza será homenageado pelo evento.

O ingresso mais vendido é a meia entrada de R$ 249,99 para os quatro dias de evento e o mais caro é o pacote Full Experience, com o qual o visitante não precisará enfrentar fila para nenhuma atração durante esse período e ainda ganhará quatro colecionáveis exclusivos, o preço é de R$ 4.999,99 reais.

Ao contrário de Mantovani, Ricardo Jorge Freitas Farias investe em convenções há mais tempo. Ele é dono da Comix Book Shop, livraria de São Paulo especializada em quadrinhos e, desde de 2001, organiza a FestComix, que tem uma média de 20 mil visitantes por ano. Essa é uma das feiras de quadrinhos mais antiga do Brasil, junto do Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), de Belo Horizonte. Assim como toda Comic Con atual, também se expandiu para outras áreas. Por exemplo, na última edição, que aconteceu de 1º a 4 de maio, o grande destaque foi a fusão com a primeira XMA, evento de games on-line. Mas o que ainda dá maior lucro à festa é um feirão de quadrinhos da loja em promoção, com grandes descontos para incentivar novos leitores, ajudar os fanáticos a completar suas coleções e “manter o mercado girando”, como me disse o dono. E ele acrescenta que esse é o grande diferencial dessa em relação a outras comic cons: “Em nenhum outro lugar do mundo você tem a disposição em uma única loja mais 500 mil exemplares em promoção”.

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Primeira edição do XMA ocorreu junto a FestComix e teve 55 mil visitantes.

O governo, além dos empresários, também olha para essas convenções com olhos diferentes dos fãs. À exemplo do FIQ, a Santos Comic Expo também é apoiada pela sua prefeitura. José Renato, um dos organizadores, conta que a ideia surgiu em 2012 quando, após o anúncio de que o Mercado de Pulgas (atual Festival Guia dos Quadrinhos) não iria acontecer, ele e alguns amigos bem próximos decidiram fazer a sua versão do evento em Santos. A primeira edição aconteceu só em 2013, com o nome de Santos Comic Con, porém a empresa Reed Exibitions, que nos Estados Unidos organiza a New York Comic Con e aqui no Brasil registrou há um tempo os termos “São Paulo Comic Con” e “SP Comic Con” questionou na justiça o uso do nome, o que forçou a organização a mudar para Santos Comic Expo. “Quem irá bater o martelo nisso será o INPI (Instituto Nacional de Propriedade Industrial), já apresentamos nossa defesa e no momento só nos resta aguardar”, disse José Renato.

Florianópolis

Aqui em Florianópolis, quem também é dono de loja de produtos para nerds (só que não de quadrinhos, mas de videogames) e resolveu fazer uma convenção foi Shigeharu Tsukamoto. Desde fevereiro de 2007 – 3 meses após a ideia surgir numa reunião de amigos – faz anualmente o Wasabi Show, que tem média de 2000 a 3000 visitantes. No entanto, não é sempre que vende seus produtos na convenção, pois ele acha que o evento rende mais quando ele não mistura as coisas. O “foco” da festa, como indica o nome, é na cultura japonesa, como animes e mangás, mas Shigeharu tenta oferecer de tudo um pouco, dos quadrinhos tradicionais aos cosplays e aos e-sports, assim como na FestComix. Na edição desse ano, que aconteceu na Faculdade Barddal, Yetz, jogador profissional de League of Legends, foi um dos destaques.

Uma feira que ainda se manteve ligada unicamente aos quadrinhos – principalmente os independentes – foi a Gibicon, que teve a sua terceira edição entre os dias 4 e 7 setembro em Curitiba. A Gibicon nº 2 (as anteriores foram a 1 e a 0) trouxe mais de 100 convidados brasileiros e David Lloyd, desenhista britânico da Graphic Novel V de Vingança. Foram mais de 50 lançamentos autorais, entre eles “Muiraquitã e a fúria do Anhangá”, desenhado por Rebeca Caroline Acco, estudante de design da UFSC. Ela, que já tinha experiência em capas de livros, recebeu o convite da editora Estronho – para a qual trabalhava – para ilustrar a HQ do experiente roteirista Alex Mir em março desse ano. Levou quatro meses para produzir, sendo um para a criação dos personagens e os outros três para desenhar todas as páginas – isso, claro, em meio a trabalhos da faculdade. Como o autor era conhecido, ela não entrou na Gibicon como uma total estranha, e pode conhecer grandes nomes da indústria, experiência que ela adorou. Apesar de tanto esforço e tanta correria, a sua participação nos lucros, assim como a do roteirista, está em 5% por exemplar – no momento, está sendo vendida no site oficial por 14 reais -, valor muito inferior aos 40% que ficam com a editora ou aos 50% das livrarias. De qualquer forma, como boa parte dos estudantes, ela ainda não sabe o que quer fazer da vida, mas se surgir um novo convite para ilustrar uma HQ, ela diz que topa.

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Rebeca e o roteirista, Alex Mir, na Gibicon.

Quem também foi à Gibicon, mas só como visitante, foi Clovis Geyer, grande fã do gênero e professor de Design da UFSC que costuma dar a disciplina optativa de Produção de História em Quadrinhos, que sempre tem turmas lotadas. Sobre o lado de quem produz, o aumento no número de convenções não é sinal de melhores tempos para as HQs. Apesar de filmes e games terem elas como inspiração– a chamada tendência transmídia –, as tiragens continuam a cair. Hoje, a média das tiragens é de 10 mil exemplares, sinal dos maus tempos, estima Clovis. Ele conta que o Ziraldo já teve uma HQ sua, a do Saci Pererê, cancelada porque vendia menos do que 50 mil exemplares por mês. Agora quem é leitor segmentado – de HQs que não são as de massa, como as de Maurício de Souza – virou apreciador de um gênero cult.

Braun-Interior HQ Rebeca

Mudanças no mercado

José Renato, da Santos Comic Expo, tem uma opinião contrária a de Clovis. Ele acredita que o cinema ajudou a aumentar o público e instigar o interesse em pessoas que antes não se importavam com o gênero: “Ouso dizer que nunca vivemos um momento tão bom para os artistas independentes como hoje, tendo ao alcance tantas ferramentas para publicar seu material não precisam mais esperar a “boa vontade” de editoras em apostar neles”.

Ricardo Jorge Freitas Farias sequer compara o mercado atual com o de 15 anos atrás, visto que atualmente “as editoras – hoje temos em média 100 títulos por mês – e principalmente o mercado elevaram a busca de um público crescente”. Ainda ressalta que o maior número de convenções só está acontecendo porque a economia do país está estável comparada aos anos 90 – pior época do mercado.

Poderia também falar da Brasil Comic Con (São Paulo) ou a Multiverso Comic Con (Porto Alegre) e listar convenções até a Timbaúba (na zona da mata perbambucana, onde ocorre a Convenção de Quadrinhos de Timbaúba), mas, o que importa, é dizer que o mercado brasileiro de cultura pop está crescendo. E é com o intuito de aumentar esse crescimento que, paralelamenete a Comic Con Experience, acontecerá a CCXP Business Summit. Esse evento contará com painéis e mesas redondas com 200 líderes, executivos e criadores das diferentes áreas do entretenimento justamente para profissionalizar esse negócio no Brasil. Em outras palavras, se você acha já estamos dominados pelas Comic-Cons, aguarde. Isso é só o começo.

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