Mulheres saem das telas para protagonizar a arte

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Por Cintya Ramlov

Sobre a tela, Vênus repousa nua, de costas para o observador, deitada em um lençol de seda preta. Sua pele é muito branca, os cabelos castanho-escuros estão presos em um coque e o corpo tem os moldes universais da beleza: cintura fina e um bumbum arredondado. Só é possível ver o rosto através do reflexo no pequeno espelho sustentado por um anjo. A “Vênus no Espelho”, do espanhol Diogo Velázquez, descansava tranquila em uma manhã de terça-feira na National Gallery, em Londres, quando foi atingida por golpes da ativista Mary Richardson. Há cem anos.

Mary era uma das sufragettes, mulheres que lutavam pelo direito feminino ao voto na Inglaterra do início do século passado.  Entre 1912 e 1914, a militância sufragista realizou atos violentos e que chamavam a atenção da sociedade para sua causa. Ataques a museus tornaram-se recorrentes, e os principais alvos eram obras de arte com figuras femininas, especialmente nuas. Historicamente na arte ocidental as mulheres aparecem mais frequentemente como temas das obras do que como suas autoras.

Além da Vênus de Velázquez há as Demoiselles de Avignón, de Picasso, a Grande Odalisca de Ingres, a famosa estátua da Vênus de Milo e milhares de outras. Um levantamento realizado pelo grupo ativista Guerrilla Girls, de 1989, constatou que no Metropolitan Museum of Art de Nova York a porcentagem de mulheres autoras não chegava a 5%, enquanto 85% das representações de nus eram femininas. As Guerrilla Girls atuam desde 1985 questionando a representação da mulher no mundo artístico. Sempre usando máscaras de gorila e roupas pretas, as ativistas não revelam suas identidades reais ao realizarem intervenções em museus e produzirem material que contesta os padrões artísticos reproduzidos pelos grandes museus e galerias. A peça publicitária de 1989 pergunta Do women have to be naked to get into the Met. Museum? (As mulheres precisam estar nuas para entrarem no Met?), junto com uma paródia do corpo d’a Odalisca com cabeça de gorila. A obra de Ingres com a mulher deitada nua de costas para o observador, segurando um leque de penas de pavão (muito semelhante à Vênus no Espelho) foi escolhida para a peça por não corresponder anatomicamente ao corpo de uma mulher de carne e osso – uma Odalisca tão perfeita que tem algumas vértebras a mais, conforme estudiosos do quadro concluíram.

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Em 2014, a arte produzida por mulheres floresce e continua a questionar padrões estéticos e artísticos impostos ao gênero feminino, aumentando a porcentagem de mulheres que produzem e são reconhecidas por sua arte.

Lá Clínica: persussão para mulheres

Os rostos são pintados delicadamente com cores vibrantes, assim como as saias e colares. Os cabelos estão livres, presos com faixas ou adornados com flores – não há regra. Uma está descalça, outra exibe o barrigão de gravidez. Tambores, flautas e chocalhos. As mulheres do La Clínica começam mais uma apresentação.

O nome La Clínia é alusão a um lugar onde as mulheres podem ser loucas a seu jeito e sua forma de se relacionar com o mundo. A forma de relação com o mundo que essas mulheres encontraram é a performance e a percussão, explorando a força do feminino na arte e na vida. O grupo começou no início de 2012, para algumas amigas estudarem e aprenderem sobre instrumentos de percussão africana, área dominada pelo gênero masculino. A ideia era fortalecer o laço entre as mulheres, compartilhar novos ritmos para tocar, fazer dinâmicas corporais. “Ao longo do tempo, esse grupo de estudos foi naturalmente se moldando no que somos hoje. Por questões de tempo, afinidade ou proposta, o grupo se afunilou na formação atual e deixou de ser um grupo de estudos apenas para se tornar a La Clínica, um grupo de performance e apresentação”, conta Bettina D’Avila, designer gráfica e participante do La Clínica. Hoje o número de participantes oscila entre dez. A formação das meninas é heterogênea: além de Bettina, há uma advogada, geógrafas, biólogas, naturólogas, uma cientista social e uma atriz.

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Nem todas as participantes se definem politicamente como feministas, mas o feminino sempre está presente nas apresentações. “Isso também faz parte da riqueza e diversidade que a gente constitui dentro do grupo. Lutamos pela força do feminino de diversas maneiras, e cada uma de nós traz a sua cara e o seu discurso nas composições de letras, figurinos e cenas”, revela Bettina. O La Clínica se apresenta principalmente em Florianópolis e outras cidades catarinenses, e mistura a música com performances teatrais. Além dos ritmos africanos, também há espaço para o funk carioca – com letras adaptadas à perspectiva feminista.

O aspecto visual é sempre repleto de elementos que lembram a sutileza e a delicadeza femininas, como pequenas gotas e arabescos. O figurino é inspirado na cultura afro malinké, a principal fonte dos estudos percussivos do grupo. As personagens da cena usam turbantes e tecidos africanos marcantes trazidos de Guiné Bissau e Senegal que empoderam a figura da mulher. Em cabaças, o Lá Clínica trás as folhes com as quais faz uma chuva na plateia ao final da apresentação. Mas a maior “mascota” é a própria figura da pélvis, que está sempre presente em algum canto da performance, no cenário ou pendurada em alguma roupa. “Nada melhor para representar nós, mulheres, do que um ventre. Nu e cru.”

Maria no more: performance para questionar padrões estéticos

Os cabelos levemente ondulados e platinados nem sempre estiveram com Marylin Monroe. A menina nascida em Los Angeles em 1926 chamava-se Norma Jeane Mortensen e tinha ordinários cabelos castanho-claros. Norma Jeane os tingiu de loiro e virou Marylin. Virou ícone.

Um número incontável de mulheres já fez – ou tentou fazer – o mesmo que Norma Jeane. As 1,6 milhões de respostas encontradas pelo Google para a pergunta “como ficar loira?” tem respostas diretas e sinceras: “guia para ficar loira sem riscos”, “como platinar o cabelo sem sangramento” ou “sem danificar demais o cabelo”. Foi nesses tutoriais online que a artista Andreza Gomes buscou as instruções para sua performance chamada “Maria no More”. Inspirada na sex symbol americana, Andreza quis sentir na cabeça e na pele como é o processo de mudar radicalmente de aparência. Uma mulher bonita e brasileira arriscando sua própria aparência para seguir o padrão estético norte-americano.

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Seus cabelos naturais eram castanho-claro como os de Norma Jeane, e junto com a pele branca e traços delicados davam a Andreza uma aparência normal e até delicada. O processo escolhido para platinar os cabelos foi o mais caseiro possível, como o feito por muitas mulheres que não têm os cerca de R$ 500,00 cobrados pelo procedimento em salões de beleza.  Chamou um amigo cabeleireiro de “salão de bairro” e uma amiga fotógrafa para registrar suas expressões enquanto a química pesada sugava toda a melanina de seus fios. Doeu muito, uma dor de queimadura quase insuportável – tudo normal, segundo os tutoriais. O resultado foi um cabelo amarelado, visivelmente artificial.

Andreza queria questionar sua beleza “normal”, o  sofrimento padrão necessário para alcançá-la e sentir como a sociedade olharia para ela daquela forma. Não queria ser bonita apenas por ser bonita. “O parecer ser e ver que não é”.  O cabelo visivelmente “não virgem” atraiu olhares masculinos com um misto de hipnose e reprovação. Diversas vezes sentiu-se desconfortável com homens vidrados nela enquanto jantavam com suas esposas ou namoradas. Cabelo violado automaticamente classificava Andreza como uma “mulher da vida” aos olhos do cidadão médio florianopolitano. Certa noite, em um supermercado que frequentava habitualmente, um senhor disse a ela com raiva: “você não vai conseguir comprar nada aqui”. “Eu era menina e virei puta.” conclui Andreza.

Durante a performance, Andreza foi à Disney com sua família e entrou em contato com a cultura que  a inspirou. O cabelo platinado não chocou tanto os americanos quanto os brasileiros. O processo foi todo retratado em fotos analógicas, e Andreza escreveu relatos sobre o como se sentia e como percebia sua beleza naquela forma tão diferente do natural. A ideia é juntar tudo em livro ou exposição.  A experiência foi libertadora para Andreza como mulher – a realização daquele desejo de ser “linda e loira”. Mas também era difícil lidar com a aparência feia e doente do cabelo no espelho. Os altos e baixos de Norma Jeane, Marylin, Andreza ou Maria em busca da beleza.

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