Aumenta o número de jovens infectados pelo HIV

Médico infectologista afirma que o jovem de hoje não viu ídolos morrerem, não viu o surto da doença

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Por DenerAlano

“Os meus heróis morreram de overdose”. O verso de uma das canções mais famosas do cantor Cazuza que, em nove anos de carreira, deixou 126 canções gravadas, símbolo de uma geração. O artista morreu após cinco anos de luta contra o vírus do HIV. Quando descobriu a doença, em 1985, pesava 68 quilos. No dia 7 de julho, quando morreu, pesava 39 quilos. No mesmo ano que o cantor descobriu a doença, o Brasil tinha apenas 384 casos diagnosticados com o vírus, que fora descoberta no país dois anos antes, segundo a reportagem da revista Veja de março de 1985. De acordo com o Ministério da Saúde, 734 mil pessoas vivem com a Aids no Brasil, sendo que, desse total, 589 mil sabem que têm. O Ministério afirma que a epidemia está estabilizada no país e que, a cada ano, são notificados 39 mil novos casos.

Cazuza foi a primeira figura pública a admitir, em 1989, que convivia com a Aids. Em 1996, o mundo já contava com 21 milhões de soropositivos e mais um cantor brasileiro, Renato Russo, que morreu em decorrência da doença. Ele nunca tornou o fato público. Vítimas da mesma doença, dois grandes nomes da música brasileira morreram na década de noventa, ambos marcaram uma geração e lotavam rapidamente shows. Cazuza, no auge de sua carreira, lotou sua apresentação no festival Rock in Rio para um público de cerca de 200 mil pessoas, segundo a organização do evento. Quando fez um dos seus últimos shows, aparenta estar exausto e já não tinha o mesmo vigor de antes.

Renato Russo, líder da banda Legião Urbana, permanece como uma das figuras mais aclamados do rock nacional – mesmo sem existir mais, a Legião é o grupo de rock que mais vende discos no país. Freddie Mercury – cantor, pianista e compositor britânico, que ficou mundialmente famoso como fundador e vocalista da banda britânica de rock Queen – também morreu por complicações da doença, em 1991.

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Atualmente, os jovens entre 15 e 24 anos formam um dos grupos que mais preocupa as autoridades e profissionais de saúde envolvidos com o combate à Aids no Brasil. Segundo o Ministério da Saúde, em oito anos foram registrados mais de 30 mil casos da doença nessa faixa da população. Se em 2004 havia 9,6 casos em cada grupo de 100 mil habitantes de 15 a 24 anos, em 2013 o índice saltou para 12,7. Ao todo, 4.414 jovens foram detectados com o vírus em 2013, enquanto em 2004 haviam sido 3.453.

O contágio entre jovens catarinenses de 15 a 19 anos aumentou 56% entre 2013 e 2014. Florianópolis é a segunda capital do país em números de infectados e dos 20 municípios brasileiros com maior taxa de detecção, oito são de Santa Catarina. O estado é o quarto com maior número de mortes por HIV no país – 576 mortes no ano passado. Algumas das suas principais cidades lideram o ranking de detecção no Brasil: Itajaí, Balneário Camboriú, Rio do Sul, Camboriú, Biguaçu, São José, Florianópolis e Criciúma. Em 29 anos de registros do vírus, 35 mil pessoas foram infectadas no Estado. Todos esses dados fazem parte da pesquisa do Ministério da Saúde.

O médico infectologista e assessor técnico da Vigilância Epidemiológica (DIVE -SC), Eduardo Campos de Oliveira, afirma que a queda durante muitos anos nos casos de contágio seria o motivo para o salto no número de jovens catarinenses que contraíram o vírus entre 2012 e 2013. “Eles não nasceram nos anos 80, eles sabem que há bons tratamentos, que garantem a qualidade de vida, por isso não temem a Aids. Pelo prazer preferem encarar o risco”, afirma.  O médico ainda complementa que hoje a doença não é vista como há 20 anos. “O jovem de hoje não viu ídolos morrerem, não viu o surto da doença”.

Encontrar pessoas que estejam dispostas a falar sobre o tratamento da doença é difícil, a grande maioria prefere não tocar no assunto, por medo de sofrer alguma discriminação.  Quem aceitou conversar prefere não se identificar. Um deles tem 21 anos, é portador do vírus há dois anos, acredita que contraiu a doença por fazer sexo sem o uso de preservativo. Esconde de várias pessoas, os únicos que têm conhecimento são seus pais e a irmã mais velha. “Eu não conto por medo das pessoas se afastarem ou começarem a me tratar de forma diferente”. Outra pessoa que concordou em conversar aparentava ter 25 anos e já toma o AZT para o tratamento da doença há quatro anos. “Foi muito difícil aceitar que eu tinha, achei que em pouco tempo fosse morrer, não sabia o que fazer”.

Sintomas e desenvolvimento

Quando infectado pelo vírus causador da Aids, o sistema imunológico começa a ser atacado. E é na primeira fase, chamada de infecção aguda, que ocorre a incubação do HIV – tempo da exposição ao vírus até o surgimento dos primeiros sinais da doença. Esse período varia de três a seis semanas. E o organismo leva de 30 a 60 dias após a infecção para produzir anticorpos anti-HIV. Os primeiros sintomas são parecidos com os de uma gripe, como febre e mal-estar. Por isso, a maioria dos casos passa despercebido. A próxima fase é marcada pela forte interação entre as células de defesa e as constantes e rápidas mutações do vírus. Esse período, que pode durar muitos anos, é chamado de assintomático. Com o frequente ataque, as células de defesa começam a funcionar com menos eficiência até serem destruídas. Os sintomas mais comuns são febre, diarreia, suores noturnos e emagrecimento. A baixa imunidade permite o aparecimento de doenças oportunistas, que recebem esse nome por se aproveitarem da fraqueza do organismo. Com isso, atinge-se o estágio mais avançado da doença, a Aids. Quem chega a essa fase pode sofrer de hepatites virais, tuberculose, pneumonia, toxoplasmose e alguns tipos de câncer.

Em Florianópolis, no Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA), serviços de saúde que realiza diagnóstico e prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, é possível encontrar dezenas de pessoas que procuram o serviço para fazer o exame e detectar a doença. Até novembro deste ano, foram atendidas em torno de 3 mil pessoas por mês. Pedro, nome que escolheu ser identificado, procurou o centro para descobrir se foi infectado. “Eu tive relações sexuais sem a camisinha, agora estou com medo de ter Aids, esse é o preço que se paga pelo descuido”.

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