Cena musical de Florianópolis

Com muita burocracia, cultura local enfrenta dificuldades. Mas algumas iniciativas
tentam mudar esse quadro

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Por Gabriel Lima

Não é preciso percorrer mais do que 500 metros para encontrar um músico, um pintor e um artista plástico no Centro de Florianópolis. Um deles é Daniel Martins, que se esconde em meio a movimentada rua Jerônimo Coelho. Com seu violão, ele toca desde Raimundos até Jorge & Mateus, num repertório que conta com mais de 200 canções: “Toco o que me pedirem, desde que eu conheça a música. Minha preferência é o pop/rock nacional, mas também sei bastante de sertanejo e pagode”.

Ao contrário do que muitos pensam, Daniel não tem vergonha de tocar na rua. “Aqui é um espaço público onde eu posso mostrar o meu trabalho e ganhar algum dinheiro”. Ele se apresenta algumas vezes na semana, sempre à tarde, tocando por cerca de quatro horas. Várias pessoas que passam pela Jerônimo Coelho gostam da música e jogam moedas em uma caixa de papel, que fica ao lado de Daniel. A cada apresentação ele consegue de 80 a 120 reais. “Em casa eu não ganharia nada”, completou.

Daniel é natural de Antonina, no Paraná, e mora em Florianópolis desde 2007. Segundo ele, a cidade paranaense era muito pequena e não tinha prédios, o que dificultava o seu trabalho. Já Florianópolis estava com o mercado da construção civil em alta, chamando a atenção de Daniel, que é mestre de obras há mais de dez anos. No entanto, ele está desemprego há dois meses, e vê a música como o seu sustento até ganhar uma nova oportunidade na profissão.

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Falta de apoio

Daniel alega que não há incentivo local para fazer apresentações maiores. O governo municipal administra diversos espaços, como o Centro Integrado de Cultura e o Teatro Álvaro de Carvalho, mas a inscrição exige muita burocracia por parte dos contratados. “Esses teatros daqui pedem muita papelada, a burocracia é interminável. Conheço muita gente que prefere construir uma carreira tocando em bares da região do que ir atrás dessa papelada”.

Além da burocracia, outro fator que dificulta é que a agenda dos teatros de Florianópolis está superlotada. No caso do Teatro Ademir Rosa – o Teatro do CIC – a agenda está cheia até o dia 20 de dezembro, quando se encerra o calendário de eventos. Até as segundas-feiras, dia de folga dos funcionários, foram disponibilizadas para cobrir a demanda. Ainda há cerca de 20 produtoras que aguardam possíveis cancelamentos em uma lista de espera. E a situação dos outros teatros da cidade não é muito diferente.

O caso das superlotações dos teatros aumentou há dois anos, quando a ocupação do Auditório Garapuvu passou a ter mais restrições. O maior teatro da cidade, com capacidade para 1371 pessoas, não pode mais receber eventos externos sem licitação. Para realizá-la, é necessário que seja lançado edital de ocupação, o que não ocorreu neste ano. Com mais burocracia, apenas seis eventos sem ligação com a universidade foram realizados em 2013, último ano em que houve o edital. Segundo a Secretaria de Cultura da UFSC (SeCult), o espaço é atualmente utilizado para apresentações de seminários, palestras e outras atividades acadêmicas.

O projeto 12:30, um dos eventos musicais mais populares e antigos da UFSC, também sofre com instabilidades. No ano passado, por exemplo, não houve nenhuma apresentação durante o primeiro semestre. Segundo a SeCult, que administra o projeto, não haviam verbas disponíveis. Em 2014 este foi novamente paralisado. Dessa vez por conta da greve dos servidores, que durou 103 dias.

Esperança

O Grupo Livre de Percussão encerrou as atividades do projeto 12:30 deste ano. Apesar de conhecerem as instabilidades do evento, acreditam que é uma grande oportunidade para as bandas se apresentarem na universidade. “Não temos caráter apelativo. Tocamos percussão, música erudita. Apesar de todos nós estudarmos música, é difícil termos oportunidades para apresentar o nosso trabalho. Aqui vimos dezenas de estudantes que realmente estavam interessados, prestando atenção na música. Isso é muito importante pra gente”, afirmou o baterista André após a apresentação.

A banda foi formada em março deste ano na Escola Livre de Música, iniciativa da Fundação Franklin Cascaes, órgão ligado ao governo municipal. O projeto tem como objetivo ensinar vários segmentos musicais de forma gratuita e aberta a toda população. Para o segundo ano, a Escola abriu 545 vagas em seus dois núcleos, um no Centro e outro no Campeche. Há aulas de musicalização infantil e instrumentos, que envolvem desde guitarra e violão até saxofone e violino. As inscrições das novas turmas já estão abertas e vão até o dia 12 de dezembro.

Florianópolis também tem uma Lei Municipal de Incentivo à Cultura, promulgada em 1991. Segundo a norma, a Prefeitura abre mão de 1% a 2,5% de sua arrecadação anual com ISS (Imposto Sobre Serviço) e IPTU para projetos culturais aprovados em editais – cerca de 2,2 a 5,6 milhões de reais, nos valores de 2013. Isso porque pessoas físicas e jurídicas podem fazer investimentos ou doações para esses projetos, recebendo em contrapartida o abatimento de 50% a 100% do valor investido.

Outra iniciativa é o coletivo de bandas O Clube. Criado em 2011, o projeto tem como objetivo divulgar a música autoral de Florianópolis. Segundo o organizador Geraldo Borges, algumas ações do coletivo são organizar eventos gratuitos, shows na rua e arrecadar fundos para produção de videoclipes e discos. São 17 bandas que participam ativamente do projeto, incluindo algumas de carreira como a Blame, que já tem dois álbuns lançados. “O projeto cria uma cena musical local, buscando a produção e promoção da música na cidade e no estado”.

Essas iniciativas, ainda escassas, mantêm a esperança de Daniel, mestre de obras que tem a música como grande paixão. Aos 32 anos, ele ainda sonha em ter sucesso profissional com seu hobby. Quando conseguir um emprego na sua área, pretende continuar tocando aos fins de semana para divulgar seu trabalho. Ele tem cinco apresentações agendadas para o fim do ano em bares de Florianópolis, e diz que várias pessoas estão pedindo seu contato: “Acredito que com muito trabalho é possível ganhar o reconhecimento do povo. Quero provar que é possível fazer música com talento e pouco dinheiro”.

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