Ensino de ciências nas comunidades rurais

Projeto vence distâncias e dificuldades de acesso para levar a ciência a povoados distantes dos grandes centros

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Por Taynara Nakayama

O Censo Escolar constatou que nos últimos dez anos 32500 escolas rurais foram fechadas – só em 2013 foram 3296. Estima-se que, a cada dia, oito unidades são fechadas no campo. Mesmo com a justificativa da diminuição da população rural, os colégios que se mantém continuam recebendo uma atenção secundária em relação ao ensino nos grandes centros. Na contramão dessa desatenção com os estudantes das regiões rurais está o Projeto Imagine. A iniciativa visa a inclusão científica e o intercâmbio cultural entre os povos através de módulos educacionais levados para comunidades afastadas das grandes metrópoles onde, tradicionalmente, se desenvolve o conhecimento científico. Criado por alunos e professores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o Projeto Imagine, em conjunto com universidades internacionais, leva conhecimentos de ciência para diferentes países que tenham dificuldade de acesso à educação formal ou à informação científica.

O Imagine não tenta substituir ou resolver problemas da educação formal, mas apresenta de forma prática informações sobre o funcionamento de alguns aspectos da vida e do universo. A equipe prevê a criação de três módulos temáticos na UFSC e a implantação em comunidades da Angola, Brasil, Marrocos, México e Peru. Em cada um deles há a presença de uma equipe de cientistas e alunos da UFSC que viajam até o local para explicar as atividades e conviver durante cerca de uma semana com a comunidade que está recebendo o módulo. O primeiro desenvolvido é sobre DNA, diversidade e hereditariedade. Ele é explicado através de pequenas explicações e muita atividade prática, como coleta de material genético e vegetação existente na comunidade e a confecção de um gel utilizado para separar DNA. Esse já foi levado para a comunidade de Coxilha Rica em Lages, a aldeia guarani Major Gercino e até Calca, no Peru, em parceria com a Universidad Andina del Cusco. O segundo módulo, que é sobre fontes de energia e prevê a construção de uma termoelétrica caseira feita pelos alunos, começou a ser implantado em novembro em Coxilha Rica. A ideia é que todos os lugares recebam os três módulos. O terceiro ainda está em processo de criação e será sobre o planeta Terra e o Universo. A expectativa é de que as três etapas sejam levadas a todos os lugares até 2016.

O professor André Ramos é coordenador geral do projeto e professor no departamento de Biologia da UFSC. Criador da iniciativa, ele diz que a ideia surgiu de sua vontade de sair um pouco das pesquisas de laboratórios e interagir mais com a sociedade: “Nosso público alvo é justamente esse que nós pensaríamos que seria o último a ter acesso as informações científicas. Queremos ser uma ponte entre laboratório e sociedade.” Antes da produção dos módulos, o professor fez viagens para estabelecer parcerias com universidades estrangeiras que ajudariam nos processos para levá-los do Brasil até outros países: “O financiamento tem sido um dos nossos maiores desafios. A UFSC tem dado os primeiros apoios de bolsa, alimentação, passagem e estadia. Os equipamentos que levamos são emprestados ou dos nossos laboratórios. Mas, por enquanto, estamos limitados ao orçamento interno da universidade. Aceitamos e procuramos apoio de empresas e pessoas de fora da universidade”.

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Como a ideia é levar conhecimento a comunidades distantes e de difícil acesso, a equipe já sabe que o deslocamento é cansativo. Isso fica ainda mais trabalhoso quando se tem que levar praticamente um minilaboratório na bagagem. “Levamos muitas ferramentas usadas nas pesquisas de laboratório. Basicamente, além do kit didático com vídeos, animações e jogos para transmitir o assunto, reproduzimos um laboratório. É muita coisa e os materiais são muito delicados. Para o Peru, tivemos quase o dobro do trabalho porque tinha a questão da alfândega”, diz o estudante de Biologia Tomás Honaiser.

A primeira vista, os maiores beneficiados são os alunos das comunidades rurais, mas conversando com os integrantes da equipe, que foram a alguma das viagens a campo, fica evidente que além de deixar conhecimento científico, os professores e estudantes ganham conhecimento cultural: “A gente fica muito tempo preso à realidade da universidade e aos laboratórios. Chegando as comunidades nós percebemos que nossa realidade é mínima perto das outras culturas existentes no mundo ou até no seu próprio estado. Na Coxilha Rica, era uma cultura idílica. Tivemos o caso de um aluno que para ir a escola ele andava duas horas de trator com o pai até chegar o rio, cruzava o rio de canoa e ia até a escola a cavalo”, diz Tomás.

Para o professor André o que sempre impressiona é o grau de interesse das pessoas da comunidade nas atividades propostas e na vontade que elas têm de apresentar a sua realidade. “Provavelmente a gente aprendeu mais do que eles, porque estávamos em um ambiente novo para nós. No Peru, era um ambiente com uma cultura muito antiga e desenvolvida tecnologicamente, inclusive. Eles estavam o tempo todo nos ensinando coisas sobre o calendário Inca, sobre a visão deles em relação a natureza. Na aldeia guarani, a visão de mundo que eles tinham já era outra. Procuramos sempre assimilar essas diferenças e respeitar em todos os sentidos a diferença cultural dos povos”.

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