Estudantes de Psicologia desenvolvem pesquisa sobre a autoestima das crianças negras em Florianópolis

Fernanda_bonecas

Por Fernanda Struecker

Seis meses foi o tempo necessário para que os alunos do curso de psicologia da UFSC realizassem a pesquisa Autoestima de Adolescentes Afrodescendentes: Um Estudo Comparativo, que tinha como objetivo comparar dados locais com estatísticas colhidas nos Estados Unidos, onde a autoestima de pessoas negras é superior a de caucasianos. O grupo é formado por cinco estudantes e o trabalho interdisciplinar foi desenvolvido para as disciplinas de Prática e Pesquisa Orientada, Processos Psicológicos da Adolescência e Psicometria.

A escolha do tema foi iniciativa dos alunos e se baseou em uma pesquisa realizada pelo psicólogo americano Kenneth Clark, em 1950, nos Estados Unidos. O teste era feito colocando na frente da criança duas bonecas, uma negra e uma branca. A criança precisava escolher qual boneca ela gostava mais. Ao realizar o teste, Kenneth Clark constatou que de 16 crianças afro-americanas, 63% escolheu a boneca branca. Em 2005, outro americano refez o teste e, de 21 crianças afro-americanas, 71% escolheu a branca. Apesar desse resultado com as crianças, outras pesquisas apontam que a autoestima dos negros norte-americanos é superior a dos brancos.

A pedagoga brasileira Roseli Martins realizou um teste semelhante com crianças brasileiras em 2006. Ela testou 26 meninas (14 brancas, 12 afro-brasileiras) com quatro bonecos: um boneco menino, uma boneca negra, uma boneca branca com cabelo curto e uma boneca menina branca com cabelos compridos. Ela descobriu que 17 meninas (65%) escolheram a boneca branca de cabelo comprido, quatro (15%) escolheram o boneco menino e cinco escolheram a boneca negra (19%). Entre as cinco que escolheram a boneca negra, somente duas eram afro-brasileiras (17%).

Com esses dados, surgiu a curiosidade de como o tema se manifestava em Florianópolis e os estudantes decidiram desenvolver a pesquisa. Os alunos começaram o estudo a partir da análise de artigos e pesquisas já existentes e avaliando a formação histórica de negros e caucasianos no Brasil. Baseado nesses dados, foi criado um teste que passou pelo crivo de oito juízes – também alunos do curso – que consistia em 36 perguntas. O questionário foi aplicado pelos próprios estudantes em uma escola da rede pública e um colégio da rede particular. No total foram analisados 108 adolescentes, sendo que apenas 25 deles se declararam negros ou pardos. Após observar as estatísticas, os alunos realizaram uma análise crítica do porquê dos resultados obtidos e elaboraram sua conclusão. A resposta foi de que a autoestima dos negros tinha um quociente inferior a dos brancos.

Apesar de o resultado com crianças ter um resultado contrário nos Estados Unidos, Daniel Balsini – um dos estudantes que desenvolveu a pesquisa – reafirma que a maioria dos estudos mostra que os negros norte-americanos possuem autoestima superior aos caucasianos do mesmo país. Segundo ele, esse é um forte exemplo de como a formação histórica e cultural é importante. “Diferente do Brasil, a formação cultural americana é fortalecida na identidade étnica, na identificação com seu grupo”.

Sobre o resultado local, Daniel Balsini explica que o mapeamento étnico em Florianópolis é bastante único em relação ao resto do país, já que a cidade foi colonizada e desenvolvida por caucasianos em grande maioria. O estudante conta também que se surpreendeu, positivamente, ao perceber que o número de crianças negras era superior na escola particular em relação ao colégio publico.

Para o grupo, o teste realizado em crianças é bastante importante, já que elas não possuem noção de estereótipos e local social. Segundo Daniel, resultados como esse mostram que o paradigma do racismo já está intrínseco na sociedade: no caso das bonecas, por exemplo, a boneca mais bonita acabava sendo a que não se parecia com a criança – o que mostra que a autoestima delas já estava influenciada pelo meio. Na conclusão da pesquisa, os futuros psicólogos destacaram a importância de que estudos como esse continuem acontecendo, para que paradigmas históricos e antiquados deixem de influenciar as novas gerações de crianças.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s