Quem será contra nós?

Como vivem crianças e adolescentes em abrigos: seus sonhos e ambições

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Por Bruno Silva

No país, 37.240 crianças e adolescentes atualmente vivem em abrigos, de acordo com o Cadastro Nacional de Crianças e Adolescentes Acolhidos (CNCA). Segundo uma pesquisa realizada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em maio do ano passado, existiam no Brasil 1.876 lares desse modelopara crianças e adolescentes cadastrados junto ao órgão aqui no Brasil. A maioria dos moradores desses, era formada por meninos (58,5%), afrodescendentes (63%) e tinha idade entre 7 e 15 anos (61,3%). Mais da metade deles (52,6%) já vivia nas instituições por mais de dois anos, sendo que 32,9% estavam nas casas por um período entre dois e cinco anos; 13,3% entre seis e 10 anos; e 6,4% por um temposuperior a dez anos.

Na Grande Florianópolis, existem dez casas com esse perfil. No centro de Palhoça, mantido pela Prefeitura de Palhoça, estão um dos lares para essas crianças e adolescentes que sofreram algum tipo de negligência de sua família. A casa tem mais de 15 anos e atende a15 crianças no momento, mas tem capacidade para até 20. Os motivos para serem retirados de sua família variam de caso a caso.“Vêm para cá, crianças e adolescentes que tiveram os direitos violados e foram retirados de suas casas, por não comparecerem regularmente à aula, por maus tratos e outras negligências, assim sendo destituídos do poder da família”, relata a assistente social, Juliana Vieira Silva.

A psicóloga Taís Monteiro completa explicando que cada acolhido recebe a ida à Casa de forma distinta. “As crianças que sofreram algum tipo de negligência têm um vínculo maior com a família e às vezes não reconhecem o que sofreram, já que é o único tratamento que tiveram e sempre questionam porquê vieram para cá. Já os abandonados, reconhecem mais facilmente o motivo. Mas todos sempre querem voltar para casa. Mesmo que às vezes não verbalmente, mas acabam demonstrando”.

O abrigo tem três quartos com banheiro, um para as meninas, outro para os meninos jovens e outro para os meninos mais novos. Também há uma sala de tv, uma sala de jantar, uma cozinha, depósito e um espaço para praticar esportes.

Com a função de administrar o local, mas também amparar, a equipe técnica faz um trabalho psicológico com os jovens. “Nossa função é atender e acolher as crianças e adolescentes. Fazemos visitas às famílias, relatórios para a Justiça, reuniões com as redes de atendimentos. Mas às vezes temos que separar brigas, dar um beijo, um abraço. A gente vai mediando as crianças”, diz a psicóloga.

Com um total de 35 funcionários, entre educadores, equipe técnica, serviços gerais, motoristas e auxiliar administrativo, o Lar funciona 24 horas por dia, com equipes de educadores sempre presentes. O esforço para que se sintam como um lar é grande.“Fora daqui, eles vão à aula normalmente, tem aulas de capoeira, violão, futebol, inglês e até curso de iniciação profissional. Eles não têm um cronograma fixo, só para as refeições. Cada um tem seus horários de aula. Aqui não é como na escola, é a casa deles”, explica a pedagogaEvanete Souza.

Apesar dos esforços feitos para que o abrigo seja um lar, mesmo que temporário, alguns adolescentes acabam fugindo. “Aqui é a casa deles, mas ele podem entrar e sair ‘quando quiser’. Claro que dentro de algumas regras, mas não mantemos eles aqui à força”, reforçou a pedagoga.

Os jovens que vivem no Abrigo, assim como todos os outros têm seus sonhos. Eles carregam na fisionomia e no olhar um amadurecimento que parece precoce, mas que é necessário para entender sua situação. C, 12 anos, e R, 14 anos, querem ser jogadores de futebol. RD sonha em ser goleiro. “Gosto muito do Paulo Victor, goleiro do meu time (Flamengo)”. L, 10 anos, o mais falante do grupo, faz aulas de capoeira, mas também quer ser jogador. “Eu não quero estudar muito, não. Quero ser jogador. Meus favoritos são o Messi, Neymar, Cristiano Ronaldo e o Pelé”, conta.

O sonho de ser jogador de futebol é uma tendência entre eles. N, 16 anos, joga bola e anda de skate com seu irmão, que também vive no Abrigo, e sonha em ser jogador de futebol. “Eu curto muito o Cristiano Ronaldo e torço para o Real. Prefiro o Real que o Barça”, diz. Um dos sonhos de W, 15 anos, irmão de N é seguir carreira de músico. “Eu quero ter carreira na música, porque meu irmão toca e canta também”. Além da música, WN anda de skate, joga futebol com seus colegas e desenha.

Entre desenhos muito bem-feitos de super-heróis e personagens de desenho animado, que WN mostra, tímido, há um que se difere. Um homem de meia-idade e barba tem um balão desenhado acima da cabeça e a frase: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?”

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