Doses de confusão e seus efeitos colaterais

Jovens são as principais vítimas da falta de informação quando o assunto é bomba

suplementos-alimentares

 Por Gisele Bueno

Nas prateleiras, os pacotes metálicos brilhantes e potes de tamanho considerável atraem, ao mesmo tempo, em que amedrontam curiosos. A porta, quase sempre aberta, exibe atrás do balcão rapazes ou moças de músculos definidos, jovialidade aparente e auto estima estampada em seus rostos sorridentes. Mais do que convidativas, as lojas de suplementos incitam o desejo da maioria de seus clientes. E estes tornam o entra e sai do estabelecimento, constante. Muitos trazem consigo um pedacinho de papel onde aquele amigo recomendou o produto que usa. Outros tantos chegam sem saber o que procuram. Grande parte, jovens.

Com a popularização da prática de atividades físicas, principalmente da musculação, a procura por substâncias que auxiliem na rápida recuperação ou até mesmo acelerem resultados tem causado confusão de conceitos. Suplementos alimentares e esteroides anabólicos (populares anabolizantes) em nada se parecem. “Muitas pessoas que usam esteroides fazem propaganda de suplementos e atribuem, falsamente, seus resultados a eles. Isso leva a uma associação inadequada por parte das pessoas que não tem conhecimento sobre o tema”, exemplifica o Doutor em Ciências da Saúde, Paulo Gentil.

Os suplementos são substâncias compostas por carboidratos, aminoácidos, proteínas, vitaminas ou sais minerais que servem para complementar ou, como o próprio nome diz, suplementar a alimentação do dia a dia. O nutricionista esportivo Gui Rosa explica que a confusão existe porque muitas pessoas acham que esses produtos substituem a refeição convencional quando, na verdade, servem para reforçar a absorção de substâncias que o organismo não consegue ou tem dificuldade para metabolizar.

Já os anabolizantes são hormônios cuja finalidade é promover maior construção de tecido muscular. Paulo Gentil esclarece que essas substâncias devem ser utilizadas exclusivamente em casos de deficiências hormonais ou para reverter quadros clínicos como acidentes, doenças degenerativas, entre outros. O professor ressalta que, assim como os suplementos devem ter seu uso receitado por nutricionistas, os esteroides anabólicos só podem ser indicados por endocrinologistas.

Cultura do “mais é melhor”

Junior Gazzoni comercializa suplementos alimentares há 18 anos. Ex-maratonista e ex-fisiculturista, o vendedor formado em educação física conta que a maioria das pessoas que entram na loja em que ele trabalha não sabem o que procuram e quase sempre lhe pedem informações e até mesmo indicação.

Também ex-fisiculturista, Otavio Martins*, de 44 anos, é instrutor de academia e viveu muitas experiências com substâncias sintéticas. Aos 20, em seu primeiro estágio, ele recebeu orientações para utilizar esteroides pois o estabelecimento exigia profissionais de porte físico “avantajado”. Aos 27, deixou a profissão de bodybuilding (fisiculturista) para se especializar na área, pois queria entender o que estava fazendo com o próprio corpo. A partir de então tornou-se técnico e personal trainer. Segundo ele, a falta de especialização na área é o fator que causa tanta confusão. Entre os jovens, a incidência é maior porque essa é a faixa etária onde a auto afirmação torna-se necessidade diária.

Atualmente, Martins prefere instruir jovens do que deixá-los à mercê de profissionais despreparados. “É claro que entre eu e um instrutor com porte físico menor, o adolescente vai me procurar para falar sobre anabolizante. E eu preciso estar preparado. Preciso fazê-lo entender que o esteroide é a última opção. Antes disso vem disciplina no treino, alimentação adequada e descanso”.

Fernando Corrêa* compartilha das ideias de Martins. Com apenas 22 anos, o jovem revela que começou a fazer uso e estudar os esteroides anabólicos com a ajuda de amigos fisiculturistas. Desde então tem treinado para atuar como bodybuilding. Fernando é personal trainer, além de prescrever dietas acompanhadas de suplementação. Neste ano iniciou a faculdade de Nutrição para “ganhar credibilidade no mercado”.

O jovem esclarece que não recomenda o uso de anabolizantes a seus alunos, mas relata que a procura é grande. “Meu objetivo é mostrar pra todos eles que há formas de atingir o objetivo estético sem usar esteroide. Com alimentação regrada, treino correto, suplementação necessária e descanso adequado, é muito fácil alcançar o corpo ideal”. Para Fernando, a falta de profissionais preparados nas lojas de suplementação (que segundo ele, em sua grande maioria também comercializam esteroides) é um dos grandes causadores de confusão entre usuários. Ele defende que os próprios instrutores de academia deveriam estudar mais sobre estas substâncias já que, em muitos casos, são os mais procurados para orientação.

O nutricionista esportivo Gui Rosa destaca a cultura do “mais é melhor” que atinge diferentes faixas etárias. Segundo o especialista, quantidade nunca foi sinônimo de qualidade e até mesmo os suplementos quando utilizados em doses incorretas e durante um período excedente, também podem ser prejudiciais. Além disso, Rosa observa que os jovens tendem a criar “ídolos”. Em suas redes sociais, o nutricionista não possui fotos exibindo o corpo e conta que jamais posta sua dieta ou treino. De acordo com ele, muitos enxergam essas informações como a “fórmula” da boa forma física, enquanto deveriam ter a saúde corporal como prioridade.

Otavio Martins*, Fernando Corrêa*, Gui Rosa e Paulo Gentil concordam em um aspecto. O culto ao corpo vem sendo disseminado nas mídias e tem afetado principalmente aos jovens. “A falta de conscientização das pessoas é o principal fator que desencadeia confusão e respectivamente, problemas no uso”, destaca Otavio.

Bombando por conta própria

Erik Panitz, de 18 anos, faz uso de suplementos alimentares e esteroides anabólicos. O jovem relata que iniciou na musculação aos 15, pois sofria de obesidade. Em dois anos passou dos 125 kg para 80 kg. Erik conta que não procurou ajuda especializada. Seu principal motivador e fonte de informações era o instrutor da academia, também fisiculturista. Após a fase de emagrecimento, o jovem iniciou treinamento voltado para o bodybuilding e foi instruído por amigos fisiculturistas a procurar acompanhamento especializado. Erik seguiu a prescrição de esteroides por um endocrinologista, mas descreve que os resultados foram insatisfatórios pois a carga hormonal receitada era “pequena demais para seus objetivos”.

A partir de então, o jovem utilizou a internet como principal fonte de informações. Pesquisou textos e seguiu canais de vídeo. Para Erik, o assunto “esteroide” ainda é tabu nas academias por falta da conscientização dos usuários e afirma ter conhecimento de que resultados de qualidade só são obtidos através de um conjunto de fatores. Dieta, suplementação, descanso e anabólicos só trabalham bem em conjunto, segundo com o jovem. Sobre os riscos, Erik não se preocupa: “Para usar tem que saber usar. Estudar. Você já viu o canal do Tiago Cojak?”

 


* Nomes fictícios para preservar a identidade dos entrevistados, que preferem manter o anonimato.

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