O ser palhaço

Uma profissão considerada por muitos como mera brincadeira, constitui para outros fonte de renda e estilo de vida

Alunos na Escola de Palhaços de Florianópolis - Foto: Marco Favero /RBS

Alunos na Escola de Palhaços de Florianópolis – Foto: Marco Favero /RBS

 Por Gisele Flôres

Pepe Nuñez virou palhaço por acidente. Literalmente. Em meados da década de 70, em Granada, na Espanha, um homem se envolveu em um acidente de carro. Ele era ator em uma peça que estava em cartaz nos teatros da cidade, mas ficou impedido de trabalhar. Pediu a um amigo que o substituísse, e Pepe aceitou ajudar. Atuando pela primeira vez, “pegou gosto”pela profissão e não parou mais. Hoje ele é mestre em palhaçaria e coordena a primeira Escola de Palhaços do sul do Brasil, no Circo da Dona Bilica. Um sonho concretizado que tem Pepe como protagonista.

Depois da Escola Livre de Palhaços (Eslipa), no Rio de Janeiro, essa é a segunda criada no Brasil. Em março deste ano, começa a Escola de Palhaços do Circo da Dona Bilica – Espaço Cultural, com duração de seis meses que, segundo Pepe, tem como principal objetivo “abordar todos os aspectos da profissão do palhaço, formando cidadãos além de artistas”. No total, 22 pessoas de todo o país – atores e palhaços ou não – foram selecionadas, a partir de um extenso edital que avaliava currículos e intenções dos candidatos, para aprender com Pepe.

A escola oferece aulas de acrobacia, malabarismo, teatro cômico, dança, música, iluminação, produção de palco, e montagem de cenário e lona, além da palhaçaria. Cinco mestres renomados na área são convidados do projeto e participam com oficinas intensivas de 20 horas. Pepe acredita que, com esse preparo, os artistas aprendem na vivência cotidiana do circo a lidar com situações que poderão experimentar no exercício de sua profissão. “Além disso, os estudantes aprendem a valorizar e respeitar todas as funções envolvidas no ofício do palhaço”.

Fachada do Circo da Dona Bilica, na Praia da Armação, Florianópolis

Fachada do Circo da Dona Bilica, na Praia da Armação – Foto: Diogo Andrade

Pedro Paulo Quadrini, conhecido no meio artístico como Pepa, é ator e palhaço e veio de Campo Grande, MS para estudar palhaçaria em Florianópolis de março a setembro de 2015. Ele descobriu a instituição através de publicações nas redes sociais e achou interessante a proposta de promover a vivência de espetáculo que o curso traz. Pepe Nuñez explica que, além das 20 horas semanais de aula, uma vez por mês, durante um fim de semana, os alunos devem comparecer ao circo para observar e atender ao público durante as apresentações corriqueiras do espaço. “Aqui os estudantes aprendem a lidar com as pessoas vivenciando o cotidiano do artista de circo. Aprendem a amar o que fazem por experiência própria”, destaca o ator. Para ele, o aspecto mais importante da profissão do palhaço é o público, pois sem o público não há o palhaço.

Sentimentos profundos

A atriz Loi Lima concorda com essa afirmativa, pois, segundo ela, “a palhaçaria é um complemento indispensável ao trabalho do ator, já que evoca sentimentos profundos, para lidar melhor com o público”. Loi ficou sabendo da escola também pelas redes sociais e decidiu vir de São José do Rio Pardo, SP, para estudar na capital de Santa Catarina. A jovem acrescenta que “o palhaço transforma qualquer erro em um grande acerto devido a possibilidade do improviso”, e avalia que isso é um grande aprendizado para ela enquanto atriz.

A escola é resultado de um projeto liderado por Pepe que foi contemplado com o Prêmio Funarte Caixa Carequinha de Estímulo ao Circo de 2013, e foi viabilizado apenas no início deste ano. O ator menciona que forma palhaços desde 2001 em Florianópolis, mas “nunca tinha ministrado um curso completo como este”. Pepe afirma que tem ótimas expectativas para os alunos formados, e eles também pensam assim. Loi revela que não sabe se vai voltar para São Paulo após o término das aulas: “Tudo vai depender das novas descobertas em Floripa. Estou aberta a oportunidades”. Para o ator cômico Pedro Paulo foi difícil criar seu próprio show pesquisando sozinho e se anima ao dizer que “vim até aqui procurando uma base para isso, e pelo que vimos até agora, acredito que vou conseguir”.

Pepe não se deixa enganar: sabe que nada disso seria possível sem o Circo da Dona Bilica, que é organizado pela Companhia Pé de Vento, e se localiza no bairro Armação, no Sul de Florianópolis. Destinado a todo tipo de atividade de promoção contínua da cultura e arte na cidade, o local oferece desde agosto de 2013 – portanto, há um ano e meio – serviço de restaurante e divulgação artística de toda sorte. Conforme Vanderléia Will, atriz que interpreta a ‘Dona Bilica’, “o espaço agrega os mais diversos tipos de linguagem, promovendo uma integração entre todas as formas de arte”.

Vanderléia que é natural da Florianópolis e formada em Artes Cênicas pela Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), trabalha com a personagem manezinha Dona Bilica há 25 anos. Ela que é casada com Pepe Nuñez conta que a ideia de lutar pelo espaço veio dele: o palhaço sempre sonhou em ter um lugar para montar, ensaiar, receber amigos e apresentar seu trabalho. “O projeto não teve nenhum tipo de patrocínio, sendo totalmente financiado por nós, então o planejamento foi fundamental”, esclarece Vanderléia. “Poder provar para as pessoas que é possível sonhar e concretizar esse sonho um dia” é a principal função do circo para a atriz.

O Circo da Dona Bilica é um espaço totalmente independente de divulgação da cultura em Florianópolis, sendo um dos poucos lugares a que a população pode recorrer para encontrar cultura alternativa, fora da grande mídia. Vanderléia reconhece que o Circo realiza convênios eventuais com instituições públicas de educação para levar crianças ao circo gratuitamente, mas que o estabelecimento se sustenta com a venda de ingressos para os espetáculos. O endereço do circo é Rua Manoel Pedro Vieira, 601, Morro das Pedras – Florianópolis, SC, e para mais informações acesse o site do Espaço.

 


Imagem em destaque na página principal: Estudante do curso de palhaçaria de Florianópolis – Foto: Divulgação do Circo da Dona Bilica

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