Ilustração polêmica divide leitoras de HQ

Rafael Albuquerque veta sua capa especial da Bat-Girl porque teve gente que não achou graça na Piada Mortal

Versão atual da Bat-Girl em Os Novos 52 | Fonte: loveinterest.wikia

Versão atual da Bat-Girl em Os Novos 52 | Fonte: loveinterest.wikia

Por Gabriel Daros Lourenço

No quadrinho A Piada Mortal, de Alan Moore, o Coringa queria provar um ponto – o de que o limite da sanidade humana é passar por um dia extremamente ruim. O que é facilmente comprovado quando sua filha leva um tiro, é despida e fotografada pelo maior criminoso da cidade, tudo enquanto você é espancado e incapaz de fazer qualquer coisa para evitar a ação. Esses eventos de violência se passam com o comissário Gordon e sua filha, Barbara Gordon – a Bat-Girl da DC Entertainment, e que hoje tem sua edição própria de história em quadrinhos (HQs) na série Os Novos 52.

A capa alternativa da edição nº 41 da Bat-Girl, prevista para junho deste ano é uma releitura dessa memória cruel da personagem, e que por decisão do próprio ilustrador, o brasileiro Rafael Albuquerque, teve sua publicação vetada. A autocensura do autor ocorreu após críticas do público à ilustração da capa, que fazia parte do conjunto de 25 desenhos nas diversas HQs da DC Entertainment  que tinham como tema central o vilão Coringa. Referenciando a Piada Mortal, Rafael retratou a heroína em uma situação vulnerável, com o chelsea smile – sorriso causado por cortes nos cantos da boca – do arquirrival do Batman desenhado em batom vermelho por sua face.

Capa vetada de Rafael Albuquerque | Fonte: IGN

Capa vetada de Rafael Albuquerque | Fonte: IGN

Ao publicar o trabalho previamente na web, diversos membros das redes sociais julgaram o desenho “pesado” e “inapropriado”, defendendo a remoção da capa com a hashtag “#changethecover” no Twitter. A maior crítica considerava a ilustração inapropriada para o público-alvo dos quadrinhos, que são meninas adolescentes, e em histórias mais leves envolvendo a Bat-Girl. Outras publicações defendiam que o conteúdo fragilizava a heroína, considerando que na história que Rafael faz referência, há interpretações por boa parte do público que ela sofreu abuso sexual.

Ao remover a sua versão da capa da HQ, Rafael e a DC Entertainment pediram desculpas ao público pela confusão causada, alegando que não havia intenção alguma em ofender ou chocar as leitoras que fazem parte de um público menor, porém crescente na fatia de vendas do mercado de quadrinhos.  Em entrevista à Vice, o autor fala da sensibilidade necessária para lidar com um público que só agora está se tornando representativo.

“[A Bat-Girl] é uma personagem forte que se tornou um modelo mesmo para essas leitoras. (…) Então, quando vimos essa reação da capa, ficamos surpresos; realmente, por mais que eu goste dessa imagem e da história, ela realmente não é para o público-alvo que a edição está buscando. Aí, tanto eu, a DC e os autores da história achamos apropriado retirar a capa.”

A decisão agradou boa parte do público que considerava a ilustração obscura demais para ser publicada em uma revista para jovens adolescentes. A estudante de jornalismo e leitora de HQs Carolina Bernardi, que acompanhou as articulações desde a divulgação das capas até a decisão de Rafael em cancelar a ilustração, apoiou a decisão do ilustrador. “Enquanto a arte era muito bonita, ela não combina em nada com o momento atual da Bat-Girl, que tem uma vibe bem mais leve.”

Histórias da Bat-Girl em Os Novos 52 focam na perspectiva feminina | Fonte: Bat-Girl vol. 4

Histórias da Bat-Girl em Os Novos 52 focam na perspectiva feminina | Fonte: Bat-Girl vol. 4

Como leitora de HQs, Carolina acredita também que o comportamento cruel de vilões populares torne seus crimes cometidos mais toleráveis. “ A problemática maior é que o Coringa é um vilão muito carismático, o que faz as pessoas relativizarem muitas das ações e atitudes que ele toma, acontece que ações como violência sexual jamais podem ser minimizadas.”

Parte dos fãs da DC Entertainment, no entanto, lamentaram pela decisão, considerando que o público não soube interpretar a homenagem prestada pelo desenhista ao vilão icônico da série. J.S., que prefere manter sua identidade anônima, é uma ilustradora e leitora de quadrinhos que considera a preocupação excessiva com os conteúdos das HQs responsável por uma “super-sensibilização” do público.

“A polêmica não partiu do público alvo (leitoras de 13 a 17 anos) o que me faz concluir que o problema não é o que está na capa, mas a receptividade particular de cada um. Além do que, não vi reclamações para situações muito mais extremas do que essa que ocorreram no público masculino, como a capa da revista “The Joker: Death of the family“. Para mim, isso sugere uma subestimação do público feminino.”

Do berço masculino à maturidade homogênea

Tanto o autor da capa quanto as entrevistadas parecem concordar num ponto que a indústria de quadrinhos tenta mudar até hoje: a falta de destaque para as personagens femininas. Apesar de um público homogêneo, a maioria das histórias possui enfoque nos leitores masculinos. Durante a entrevista à Vice, Rafael Albuquerque também comentou sobre esta realidade:

“Os quadrinhos historicamente foram feitos para um público masculino, hétero, branco,” enfatiza. “É muito difícil a gente ver nitidamente um quadrinho que não parte para a sexualização da mulher ou que tem personagens femininas que são fortes, que são role models. Logo, isso faz com que não existisse um público feminino que comprasse quadrinhos.”

O problema parte desde a concepção e trajetória destas publicações ao longo do tempo: Iniciando na década de 30 nos Estados Unidos, as personagens protagonizavam apenas romances com o cotidiano de guerra, encarando os trabalhos relacionados às necessidades do país durante a Segunda Guerra Mundial. Foi apenas em 1940 que surgiu a primeira super-heroína de destaque, Mulher-Maravilha, combatendo vilões de maneira igual a suas contrapartes masculinas.

Entretanto, a dificuldade dos roteiristas em criar histórias voltadas para as mulheres levou à padronização das HQs de super-heroínas para o público masculino, retratando as mulheres como objetos de desejo, interesse amoroso, personagem secundário ou com pouco destaque. A reorientação das publicações tornou-se ainda maior a partir da década de 50, na qual psicólogos, políticos e até mesmo os pais dos leitores, preocupados com a falta de divisão de gênero, pressionaram a indústria de quadrinhos por estabelecimento de padrões. Isso porque a Mulher-Maravilha e outras heroínas de menor destaque, como Miss Fury, Sheena e Fantomah, protagonizavam quadrinhos com cunho erótico.

Mulher-Maravilha é a primeira heroína de destaque nas HQs | Fonte: DC Entertainment

Mulher-Maravilha é a primeira heroína de destaque nas HQs | Fonte: DC Entertainment

Desde aquele período, as leitoras também buscavam inspiração e referência de comportamento nas super-heroínas, que ainda são poucas e correspondem aos padrões presentes desde o surgimento das histórias em quadrinhos. Foi apenas à partir da década de 70 que os movimentos por igualdade de gênero começaram a brigar por uma representação mais coerente, resultando hoje em quadrinhos para o público feminino.

“Atualmente existem muito mais personagens femininas, até mesmo em posições de liderança,” analisa Carolina Bernardi. “Ainda são bem menos que os homens, e ainda são deixadas de fora em adaptações cinemáticas, mas acredito que com o tempo ganharemos mais espaço neste meio. O que precisamos é de mais mulheres escrevendo e desenhando HQs e que se dê mais espaço para elas nas áreas criativas para que possam construir personagens femininas mais relacionáveis.”

No Brasil, poucas são as quadrinistas e ilustradoras que representam o público feminino. Um exemplo é Chiquinha, assinatura de Fabiane Bento, que trabalha em charges para o UOL. Em entrevista à revista Mequetrefe, do curso de jornalismo da UFSC, de 2009, a chargista explica porque acredita que essa realidade ocorre no país.

“Quadrinho é uma coisa que tá tradicionalmente mais vinculada ao mundo masculino. As meninas não crescem muito com essa cultura de ler quadrinhos,” defende. “Eu conheço algumas mulheres que desenham, mas que são mais voltadas para ilustração. Eu não curto essa coisa da mulher que faz quadrinhos e se aproveita do estado de mulher. Não importa se a pessoa é mulher ou homem para desenhar.”

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