Pelo? Pelo direito de escolha

A prática da depilação é comum na sociedade, mas cada vez mais mulheres decidem se libertar dessa imposição

Foto: Roxie Hunt/How-to Hair Girl

Foto: Roxie Hunt – How-to Hair Girl

Por Natália Huf

Escrevemos no corpo a sociedade em que vivemos, e as mudanças que fazemos nele são, muitas vezes, ligadas às questões de gênero e ao contexto social em que estamos inseridos. Cortes e pinturas de cabelo, tatuagens, piercings, todas as formas de modificação do corpo são um afastamento do estado natural, assim como a depilação. Raspar os pelos é um dentre vários padrões sociais que “estabelecem o que é uma ‘mulher de verdade’”, acredita Débora Santos, estudante de Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

A depilação era prática comum entre os gregos, egípcios e romanos, mas é difícil determinar o momento em que a remoção dos pelos se tornou uma norma social. Por volta da década de 40, quando os shorts e blusas sem manga passaram a ser itens do guarda-roupa feminino, os pelos se tornaram um incômodo aos olhos dos outros. A prática foi adotada pela maioria das  mulheres, mas isso não significa que esse comportamento não tenha sido transgredido: nos anos 60, surgiu o movimento hippie, a contra-cultura que valorizava o corpo natural e questionava os papéis sociais de gênero impostos pela  sociedade da época, através dos cabelos compridos e da não-depilação.

Embora os hippies e a “segunda onda” do movimento feminista na década de 70 tenham rompido com a prática da depilação, o modelo de corpo perfeito e sem pelos permanece até os dias atuais. A mídia, através de campanhas publicitárias, das revistas, da televisão e até mesmo de brinquedos, propaga uma ideia inalcançável de perfeição. Para a estilista Isabel Fresati, esse padrão abala o psicológico das mulheres desde muito cedo: “Não somos iguais às nossas bonecas, não somos iguais à menina da televisão, não somos iguais à mulher de biquíni na revista. Isso atrapalha nossa autoconfiança, nos sentimos inferiores e, por estarmos fora do padrão imposto pela mídia, acabamos nos submetendo e aceitando diversos tipos de situação”.

“Minha mãe não entende o fato de eu não me depilar, e às vezes, quando vou visitar meus pais, depilo as axilas para evitar conflitos”, conta Elisete Dessbesel, estudante de Letras na Universidade Federal da Fronteira Sul, em Chapecó. Devido à sensibilidade da pele, que sempre ficava irritada após o processo, e também por passar a saber mais sobre o feminismo, Elisete abdicou da depilação há um ano: “Percebi que era uma imposição que fazia as mulheres odiarem os pelos no corpo, odiarem ser o que são”. Ao contrariar seus princípios diante da família, a estudante procura  não causar confrontos : “Algumas ativistas feministas dizem que devo ter mais resistência, mas o elo familiar fala mais alto”.

A antropóloga e professora da UFSC, Carmen Rial, esclarece que a depilação está associada à uma ideia de feminilidade infantil, que deixa a mulher com uma imagem frágil, pueril. Quando a mulher decide sair do padrão e não depilar, se torna uma transgressora e ganha visibilidade – geralmente negativa. Isso é notável especialmente com celebridades que, quando aparecem com pelos nas pernas ou axilas, são retratadas nos meios de comunicação de forma irônica ou sob títulos como “Fulana aparece sem depilar em tal evento”. Um exemplo é o da atriz Julia Roberts que, em 1999, foi à estreia de seu filme Um Lugar Chamado Notting Hill com as axilas não depiladas, e se tornou motivo de piadas.

Uma forma de adestramento

Ir à praia, usar shorts curtos ou blusas sem manga, expor o corpo e os pelos de qualquer forma são causas de constrangimento para quem opta por não depilar. Essa escolha individual tem sido tratada como uma obrigação: a estudante de Ciências Sociais, Débora Santos, vê a prática como uma forma de adestramento dos corpos femininos, uma vez que a ideia de beleza está diretamente relacionada com não ter pelos. Débora se depilou pela primeira vez por volta dos 12 anos de idade e, aos 17, decidiu parar. “Já ouvi perguntas dos meus pais em tom de reprovação, mas foi bem no início. E teve um dia em que eu estava na rua e um cara me passou uma cantada, até ver que eu não estava com a axila depilada. Ele me mandou ‘raspar o suvaco’. Foi bem engraçado”.

Durante os anos em que adotou a prática da depilação, Débora sempre usou cera quente. Para empregar esse método, é preciso que os pelos estejam grandes o suficiente para serem arrancados. “Eu fui aumentando gradativamente os intervalos (entre as depilações), até que me senti confortável pra não precisar me depilar”, diz a estudante. “Mas é complicado. Mesmo já tendo desconstruído a ideia de que pelo significa sujeira, falta de cuidado, foi muito diferente quando, finalmente, eu decidi por não me depilar. Eu tive que reforçar a ideia quase que cotidianamente, principalmente porque, como mulher, fui criada pra ser bonita pro outro”. Os pelos, naturais e parte do corpo humano, são vistos como incômodos e anti-higiênicos, devido à ideia de que “algo sujo é algo que está fora do lugar”. Carmen Rial explica que “um sapato é limpo no chão, mas sujo quando está em cima da mesa – o mesmo acontece com os pelos da mulher”.

Com o objetivo de empoderar as mulheres, as blogueiras americanas Roxie Hunt e Rain Sissel iniciaram o Free Your Pits Movement (“Movimento Liberte suas Axilas”, em tradução livre). O movimento surgiu em novembro de 2014, a partir de um experimento criativo em que as blogueiras decidiram colorir os pelos das axilas. Roxie e Rain escreveram e publicaram o manifesto do movimento no site How-to Hair Girl. Nele, defendem a liberdade de escolha quanto à depilação e pedem para que as mulheres enviem fotos de suas axilas, “sejam elas peludas, carecas ou azuis”. O Free Your Pit se espalhou pelo mundo e elas receberam fotos de mulheres de vários países. Para Roxie, o movimento é uma forma de desobrigar as mulheres da depilação: “Eu vejo mudanças literalmente libertadoras, mudando a vida das mulheres que estão, finalmente, permitindo-se aceitar como são”.

A prática da depilação é contestada por muitas mulheres, mas ainda é um padrão social e um hábito consolidado, especialmente no Brasil. Para Carmen Rial, a sociedade brasileira não é a mais avançada em relação à aceitação da autonomia da mulher sobre o próprio corpo, mas também não está tão atrasada. A estilista Isabel Fresati ressalta que a amizade entre mulheres facilita a aceitação de mudanças culturais e é a maior força feminina: “A mulher precisa aprender a se amar, amar seu corpo e ela precisa de um modelo para isso – sua mãe, sua prima, sua amiga. Precisamos de uma reeducação, de mais sororidade (sentimento de irmandade feminina). Existe beleza em todas nós, e temos que aprender a nos respeitar com as diferenças e sem rivalidades”.

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