Caminhada relembra cinemas de rua de Florianópolis

Durante boa parte do século passado, centro da cidade foi local de sociabilidade e entretenimento

Foto 1 - Divulgação

Nos dias mais movimentados, fila para sessões do Cine Ritz dava a volta no quarteirão – Foto: Divulgação

Por Mônica Custódio

Era fim de tarde de sábado e o centro de Florianópolis começava a ficar vazio. Nos arredores da Praça XV de Novembro, os comerciantes fechavam as lojas, que ficaram abertas até mais tarde por ocasião do Dia das Mães, e um caminhão carregava as peças do toldo que mais cedo servira como abrigo para uma feira. Mas, apesar do marasmo aparente, na escadaria da Catedral um grupo de 15 pessoas conversava animado.

Foi de lá que saiu a sexta edição da Caminhada Jane Jacobs Floripa, evento que, a exemplo do que acontece em outros lugares do mundo, busca ajudar as pessoas a observarem e se conectarem com sua comunidade e meio ambiente. O nome da caminhada homenageia a escritora cujo livro mais conhecido, Morte e vida das grandes cidades americanas, é um guia de como a cidade pode se tornar um lugar melhor para seus moradores.

Jane Jacobs inspirou a caminhada – Foto: Phil Stanziola

Na tarde de 9 de maio, o tema do passeio era percorrer os antigos cinemas de rua de Florianópolis. A ideia surgiu das discussões recentes em torno do imóvel que abrigava o Cine Ritz, posto à venda por 8,5 milhões em um anúncio (depois retirado do ar) na Internet, no início do mês.

A caminhada começou no Teatro Álvaro de Carvalho, onde ocorreu a primeira projeção cinematográfica da cidade, em 21 de julho de 1900. Mas foi só em 1908, no mesmo local, que se instalou a primeira sala fixa de cinema da capital, o Cine Teatro Variedades. Lá apresentavam-se, além de filmes, peças de teatro, cantores e números de magia.

Nas décadas seguintes ocorreram obras de modernização, como a construção da Ponte Hercílio Luz, em 1926. Nessa época, com a popularização do cinema, foram construídos os primeiros edifícios específicos para esse fim. Um deles foi o número 156 da rua João Pinto. O prédio, que hoje tem a fachada simples e abriga a loja de utilidades Milium, já abrigou quatro cinemas diferentes – Internacional, Imperial, Carlitos e Coral.

Outra parada do passeio foi em frente ao chamativo edifício de fachada azul e amarela da rua Arcipreste Paiva, atrás da Catedral. Nos anos 30, o prédio foi sede do Cine Rex, o que havia de mais moderno em termos de cinema na cidade. Os equipamentos para sua construção chegaram de navio, e em dias mais movimentados as filas para as sessões davam a volta no quarteirão.

Em 1943, o dono do prédio, Jorge Daux, não renovou o contrato com o Cine Rex, e criou em seu lugar aquele que viria a ser o mais conhecido dos cinemas de rua da cidade: o Ritz. Uma das mudanças implementadas pelo proprietário foi a abertura de um túnel até a rua Padre Miguelinho, para que a porta de saída fosse diferente daquela da entrada. Isso possibilitava que a próxima sessão começasse logo após o término da anterior, além de evitar que as pessoas assistissem a outro filme sem pagar novamente.

Na rua Padre Miguelinho, do outro lado da Catedral, o grupo conheceu o antigo Teatro Cine Popular, um dos primeiros a exibir filmes sonoros, ainda que com problemas de sincronização frequentes. O cinema, que também se chamou Cine Odeon e Roxy, era conhecido como “rei das matinês” devido às sessões vespertinas, com pipoqueiros e bombonière. Assim como outras salas da cidade, em seu período de decadência exibiu filmes pornográficos.

Culpa dos shoppings centers 

A caminhada terminou do outro lado da rua, no prédio da atual Igreja Livre em Jesus, onde ficava o sofisticado Cine São José, inaugurado em 1954. Com espaço para mil espectadores, seu projeto buscava se distanciar das feições de um teatro. Havia displays iluminados que mostravam os filmes em cartaz, além da utilização de gesso e efeitos de iluminação.

Outros cinemas mencionados foram o Ponto Chic, na atual Livraria Catarinense da rua Felipe Schmidt, e o Palace, na esquina das ruas Tenente Silveira e Jerônimo Coelho, sobre os quais restam poucas informações. Além do Cecomtur, inaugurado em 1975, anexo ao hotel de mesmo nome, e o último a fechar as portas.

Um dos organizadores da Caminhada Jane Jacobs Floripa, o arquiteto e urbanista Gustavo Andrade, 31 anos, era criança na época, mas lembra de assistir ao filme Jurassic Park no Ritz. Ele atribui o fechamento dos cinemas de rua à abertura dos shoppings centers, em especial o Beira Mar, inaugurado em 1993.

Andrade conta que os shoppings provocaram uma revolução na maneira como a cidade se relaciona com o centro: “A Florianópolis de antes do ano 2000 não tinha os signos exteriores de riqueza que vemos hoje, com suas lojas luxuosas, restaurantes caros e casas elegantes. Uma população de classe média alta e alta, de outras partes do Brasil, veio para cá, e provavelmente alguns locais enriqueceram, gerando essa nova demanda.” Assim, o bairro acabou ficando relegado ao comércio e a serviços mais populares.

“O deslumbramento inicial de Florianópolis com os shopping centers acaba sendo um pouco o reflexo de um pensamento provinciano, que teve como efeito acelerar a decadência do centro. O fechamento dos cinemas de rua foi apenas uma das faces desta moeda”, conclui.

Sobre a Caminhada Jane Jacobs Floripa

Pioneira no Brasil, a edição de Florianópolis da Caminhada Jane Jacobs já teve como tema os rios desaparecidos, a obra do paisagista Roberto Burle Marx no aterro da Baía Sul e a travessia Ilha-Continente para pedestres, dentre outros. Os roteiros, organizados por um grupo de amigos que têm em comum o interesse pelo urbanismo, são divulgados na página do Facebook.

 

 

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