O ouro azul no cinema

Mostra de cinema alternativo promove debate sobre o tema ‘usos da água’

Manifestante na Guerra da Cochabamba, Bolívia - Foto: SubVersiones Agencia Autonóma de Comunicaión

Manifestante na Guerra de Cochabamba, Bolívia – Foto: SubVersiones Agencia Autonóma de Comunicaión

Por Gisele Flôres

De norte a sul e de leste a oeste, a Terra é azul, e não à toa é chamada de planeta água. Porém, mais do que conhecer as melhores formas de utilizar este precioso líquido no cotidiano, os seres humanos precisam internalizar que ele pode se esgotar, e precisa ser preservado. O Núcleo de Estudos de Identidades e de Relações Interétnicas (NUER) da UFSC entende a necessidade urgente de discutir esse tema e, para tanto, tomou a iniciativa de promover para ele um Ciclo de Cinema. “Temos interesse no debate de questões como essa porque atingem populações humanas, o que representa a essência da Antropologia”, afirma Willian Luiz da Conceição, integrante do NUER. A mostra foi realizada nos dias 22, 23 e 24 de abril e reuniu três filmes de acervo do núcleo sobre os usos da água em diferentes localidades do mundo. Após as exibições, eram suscitados debates sobre o contexto apresentado nas produções.

O filme que abriu esta edição foi o longa metragem También la lluvia (2010), de Icíar Bollaín, que narra a produção de um filme durante a Guerra da Água na cidade de Cochabamba, na Bolívia. Dois diretores pretendiam rodar uma ficção sobre a gana de Cristóvão Colombo por repreender quem fosse para chegar ao seu objetivo maior: o ouro. Enquanto gravavam seu filme, em abril de 2000, eclodiu uma revolta da população contra a privatização da água. Os residentes de Cochabamba lutaram contra as tarifas abusivas cobradas pela empresa estadunidense Aguas del Tunari, e como resultado desses conflitos a cidade ficou ilhada durante muitos dias, pois o governo cortou o fornecimento do recurso. A dimensão da revolta fez com que a empresa deixasse a cidade boliviana, e o controle do líquido passou a ser de controle público.

Canalização do Arroio Dilúvio, em Porto Alegre - Foto: Paulo Menezes

Canalização do Arroio Dilúvio, em Porto Alegre – Foto: Paulo Menezes

Da Bolívia para o Brasil, o segundo filme apresentado foi Os habitantes do arroio (2009), desenvolvido por um grupo de pesquisadores, dentre eles o professor de Antropologia da UFSC, Rafael Devos. O documentário investiga situações de conflito e dependência mútua de pessoas envolvidas com as águas da bacia do Arroio Dilúvio, em Porto Alegre. A pesquisa que foi feita por Rafael durante a produção do filme utilizou a gravação de imagens das regiões estudadas, desde as condições ambientais dos próprios recursos hídricos até o comportamento social das pessoas que ali vivem. “Encontramos muitas contradições e desafios contemporâneos dos usos e cuidados com a água na cidade”, afirma Rafael. O filme transcorre, então, pelo viés da análise das mudanças sócio-ambientais que se deram com a canalização das águas do Arroio, e do quanto isso moldou aquele ambiente urbano.

Moçambicanos abandonando seus lares após enchente - Foto: @ A Verdade

Moçambicanos abandonando seus lares após enchente – Foto: @ A Verdade

Três dias, três países, três continentes. Do Brasil, o público da mostra viaja diretamente para a realidade de Moçambique, na África. A guerra da água (1995), é um documentário dirigido por Licínio Azevedo, gaúcho radicado no país africano, que destaca a importância de uma “lata com água” para as comunidades locais. No total, são quatro as histórias que se cruzam em uma aldeia moçambicana da região do Chicorno, e três as personagens mais evidentes neste documentário: o poço, as mulheres e o embondeiro (baobá), que, juntos, ilustram o problema da escassez de água no país.

Breve relato da história de um homem moçambicano que faz esculturas no interior dos embondeiros (baobás).

 A principal questão em Moçambique com relação à água está no saneamento básico: há ainda 70% da população do país que faz suas necessidades a céu aberto pela falta de latrinas e cuidados com o ambiente. Muitos fundos são enviados para o país africano para abastecimento de água, mas a maioria deles não se destina ao saneamento. Outro fenômeno recorrente no país são as enchentes devido a grandes chuvas, que normalmente aumentam a incidência de doenças como a cólera no país.

Pessoas correndo e trabalhando em Moçambique na luta diária pela água

Núcleo em ação

Willian, que atua no NUER desde 2010, é mestrando do programa de Pós-Graduação em Antropologia (PPGAS) da UFSC e afirma que a situação da água no Brasil ganhou notoriedade ultimamente a partir dos problemas no Sistema Cantareira, em São Paulo, mas que sempre foi pertinente. O Ciclo de Cinema é um projeto que existe desde 2010, e foi criado para tornar público o debate sobre temas em alta no Brasil e no mundo, além de trazer filmes que não tem muita visibilidade para a população. “A mostra busca apresentar trabalhos de cineastas, realizadores parceiros, entre outros, que sejam considerados interessantes para as discussões, assim como debater com o público as questões que permeiam os filmes”, explica.

O núcleo, coordenado pela professora Ilka Boaventura Leite, surgiu em 1986, a partir de um projeto de pesquisa sobre territorialidade negra e invisibilidade no sul do Brasil, e desde então tem investigado temas do interesse da Antropologia. “Os principais campos de pesquisa são no sul do Brasil, porém alguns projetos já foram realizados em países como os Estados Unidos, Argentina, Angola, Moçambique, Portugal, Suécia, Colômbia e Guatemala”, conta Willian, anunciando que “a nossa próxima sessão de cinema debaterá o tema ‘migrações’”. A data ainda não foi definida, mas fica o convite.

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