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Falta de água pode atingir mais de dois terços da população mundial em 2050

Crise hídrica pode atingir 66% da população mundial e afetar a produção de alimento - Foto: https://www.expo.cnr.it/en/node/7

Crise hídrica pode afetar a produção de alimentos – Foto: https://www.expo.cnr.it/en/node/7

Por Natália Huf

“Na minha casa, eu não consigo encher um copo d’água antes de ir para a academia. Normalmente, faço o seguinte: chego na cozinha, abro a torneirinha do filtro e vou pegando pão. Passo manteiga, e só aí consigo meio copo de água pra beber. Para armazenar água em casa, minha avó chegou a comprar baldes. Minha avó e toda a população. Resultado? Epidemia de dengue”. De acordo com um artigo da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o drama vivido pela produtora de vídeos Thaís Camir, moradora do bairro Vila Formosa, na Zona Leste de São Paulo, pode se tornar a realidade de dois terços da população mundial no ano 2050. O documento foi apresentado no VII Fórum Mundial da Água, em Daegu, na Coréia do Sul, que aconteceu entre os dias 12 e 17 de abril.

Camir conta que os bairros nobres da capital paulista não conhecem crise de água: “Lavam carros e calçadas, usam piscinas, e por aí vai. Trabalho em Higienópolis, e lá todos os prédios tem placas dizendo que a água que usam para limpeza é de reúso. Mas o que mais se vê é água limpinha sendo jogada no esgoto. Você vê ela correndo cristalina pelo canto da rua. Dá vontade de pegar um balde e sair armazenando”. Já o artigo da FAO aponta que, atualmente, 40% das pessoas são atingidas pela insuficiência de água, e esta proporção pode aumentar para mais de 60%. Segundo o documento, a má gestão dos recursos hídricos será a causa da escassez, e número de pessoas afetadas tende a crescer devido ao excesso de consumo na agricultura e produção de alimentos. A falta de água terá grande impacto sobre esses setores, que serão incapazes de produzir o suficiente para suprir as necessidades da população.

Segundo o texto apresentado pela FAO, o crescimento populacional se dará principalmente nas grandes cidades dos países em desenvolvimento, aumentando a demanda por água e comida em áreas urbanas. Para o professor do Departamento de Geologia da UFSC, Luiz Fernando Scheibe, a produção atual de alimentos é capaz de alimentar toda a população da terra: “Não há motivo para achar que com mais 20% de habitantes no mundo não será mais possível cultivar alimentos”. Scheibe explica que, com a curva do crescimento populacional se aproximando da horizontal, representando a estabilidade, a produção só será insuficiente caso a alimentação de toda a população seja essencialmente carnívora, em razão da demanda de água causada pela criação e consumo de carne.

Bastante centrado nas questões de governança, o artigo sugere que sejam feitos investimentos pelo setor privado na gestão de recursos hídricos, com o objetivo de reverter os danos já causados e evitar que a projeção se concretize. De acordo com o documento, “investimentos do setor privado e parcerias entre o público e o privado vão acelerar o passo em que novas tecnologias são desenvolvidas e implementadas”.

Para o professor Scheibe, os recursos hídricos devem ser encarados como um bem comum e de uso de todos, cuja gestão não deve ser feita exclusivamente pelos governos, mas com a presença da população: “A governança da água deveria contar com a participação cidadã, consciente e informada, e só aí se teria chances de melhorar a distribuição dos recursos e, consequentemente, de grande parte da riqueza”.

Bela e seca Santa Catarina

A crise hídrica já atinge o Brasil desde o ano passado e, conforme a projeção exposta no artigo, um número crescente de regiões vai sofrer com o aumento da escassez de água, impactando as atividades econômicas, a segurança alimentar e a subsistências nos meios rural e urbano.

Em Santa Catarina, as próprias atividades econômicas poluem os rios e não fazem bom uso da água. O sul do estado é poluído pelo carvão, as papeleiras ainda despejam resina nos rios. Mesmo com tratamento, a qualidade hídrica não apresenta aumento significativo. As variações climáticas fazem com a que a região oeste seja atingido por grandes estiagens que coincidem com a época de formação da espiga de milho, a suinocultura é bastante concentrada e, mesmo com a introdução de esterqueiras, ainda há infiltração no solo, o que compromete o lençol freático, alerta Scheibe.

O professor também adverte que não temos uma boa governança da água no estado, especialmente em relação aos recursos subterrâneos. “Agora o governo fala em implantar um sistema de outorga. A equipe responsável por isso é muito reduzida para implantar sistema de outorga suficiente. Os comitês de gerenciamento de recursos hídricos estão todos engatinhando. Dizer que Santa Catarina não tem problemas de água… Infelizmente, não é verdade”.

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