Essa sede pode me matar?

Na música “Tenho sede”, o compositor Dominguinhos fazia da água uma metáfora para o amor. Hoje, consumidores estão cada vez mais preocupados com o líquido que ingerem

Águas engarrafadas preocupam consumidores por índices alarmantes de sódio, níveis irregulares de pH e presença de Bisfenol A - Foto:

Águas engarrafadas preocupam consumidores por índices alarmantes de sódio, níveis irregulares de pH e presença de Bisfenol A – Foto: Hans Braxmeier – CC0 Public Domain

Por Gustavo Cruz

Desde que a Vonpar, distribuidora e engarrafadora da água mineral Crystal, lançou a marca em 2013, a empresa, que funciona sob a batuta da gigante Coca-Cola, tem tido que se explicar sobre índices apresentados no rótulo do produto. A versão da bebida vendida nos estados do Sul do Brasil, e em parte do Sudeste, apresenta 103 miligramas de sódio por litro, um recorde nacional.

A explicação dos porta-vozes da empresa, a consumidores e à imprensa, aponta para a fonte na cidade de Ijuí, no Rio Grande do Sul. As rochas da região produziriam os números que, conforme a comparação, chegam a ser dezenas de vezes superiores a marcas concorrentes, que raramente ultrapassam a marca de 10mg/L de sódio.

Tal polêmica criou tensão na administração da Vonpar, visando o futuro comercial da marca Crystal, e também entre aqueles que têm de escolher entre uma variedade considerável de opções de águas minerais em supermercados e lanchonetes.

Após a explosão dos alimentos diet (com redução de açúcar) e light (com quantidade inferior de calorias), a preocupação de saúde do brasileiro achou um novo vilão – o sódio. Nos últimos dois anos, algumas marcas passaram a adotar carimbos nas embalagens para indicar que certos produtos conteriam menor teor do elemento químico.

Novo vilão

O sódio é mal-visto por nutricionistas e médicos por ser responsável pela retenção de líquidos, aumentando a pressão arterial. Entre as consequências, estão a hipertensão, complicações cardiovasculares e o acidente vascular cerebral (AVC), que vitimou fatalmente 100 mil brasileiros em 2010. Para as mulheres, há uma preocupação extra: o excesso do sal favorece o aparecimento da celulite. Frutas diuréticas como melancia, melão, abacaxi, maçã e limão facilitam a eliminação de líquidos, sendo uma alternativa para combater níveis elevados de sódio no organismo.

Organismos mundiais de saúde sugerem que a ingestão diária desse metal alcalino não exceda 2,4 gramas. Segundo dados do Ministério da Saúde, um acordo firmado entre a pasta e a Associação das Indústrias da Alimentação foi responsável pela retirada de 7.652 toneladas de sódio, entre 2011 e 2014, de produtos alimentícios no Brasil. A expectativa do governo é que esse número quadriplique até 2020.

Historicamente presente em demasia em refrigerantes, temperos prontos, macarrões instantâneos, pães e bolos industrializados e produtos congelados, o sódio nas águas minerais virou novo alvo de compradores exigentes. Apesar disso, nenhuma marca vendida em território brasileiro ultrapassa o limite de 600 miligramas por litro estabelecido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária. O gosto da água já seria afetado significativamente com um terço disso (200 ml/L), o suficiente para causar rejeição pelo consumidor.

Processo de engarrafamento da água mineral: a interação entre a água e as rochas da região de sua fonte é determinante para os níveis observados nos rótulos das embalagens - Foto:

Processo de engarrafamento da água mineral: a interação entre a água e as rochas da região de sua fonte é determinante para os níveis observados nos rótulos das embalagens – Foto: Associação dos Distribuidores de Água Mineral do Estado Do Rio Grande do Sul – ADAM/RS

Diversas explicações

Francisco Campos, geólogo e pesquisador em Geociências do Serviço Geológico do Brasil, explica que as águas minerais, de acordo com a legislação vigente, não podem ter sua composição alterada pelas empresas responsáveis pelo engarrafamento, salvo as que sofrem o processo de gaseificação artificial. “As diferenças nas quantidades de sódio entre diferentes marcas de água mineral é explicada pelos aquíferos de cada uma dessas fontes serem de rochas com composição química distinta”, esclarece. A interação entre a água e essas rochas é determinante para os níveis observados nos rótulos das embalagens.

“As águas minerais brasileiras têm baixo teor mineral, portanto não há grande diferença entre as diversas fontes. Entretanto, algumas podem estar sob influência humana por estarem em locais em meio ou próximos a centros urbanos. Um dos componentes indicativos dessa influência é a concentração de nitrato”, aponta Francisco Campos. Quando a geologia de uma área é rica em bicarbonato de sódio, geralmente encontram-se reflexos disso nas fontes da região – é o caso de Ijuí, da marca Crystal.

Países da América do Norte e Europa costumam detectar aumento na concentração de sódio nas águas em função do uso de sais em rodovias para controlar a neve e o gelo. No caso brasileiro, quando a justificava não está na formação geológica, invariavelmente há relação com lançamentos de esgotos domésticos e efluentes industriais. É possível, ainda, que uma eventual incidência explique-se pelo fenômeno da “intrusão salina” nas regiões litorâneas, onde aquíferos costeiros entram em contato com a água do mar.

Outros cuidados

Especialistas sugerem que, após o sódio, a atenção do cidadão esteja voltada ao potencial hidrogeniônico (pH) apontado no rótulo da água mineral. A recomendação universal é que esteja entre 7 e 10. Como não há regulamentação a respeito desse índice, algumas marcas oferecem águas com pH inferior a 7, ou seja, ácidas demais. A acidez pode causar o refluxo gástrico, que causa desde queimação ao câncer.

“Uma boa água é aquela que atende aos padrões de potabilidade estabelecidos pela legislação brasileira, como a portaria número 334, de 22 de junho de 2014, do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro). A escolha de uma água mineral deve levar em conta as condições de saúde do consumidor. Alguém com cálculo renal não deve consumir uma água rica em cálcio e magnésio. Outra pessoa com tendência a desenvolver gastrites pode consumir uma água com um pH acima de sete, mais alcalina”, sugere Fernando Soares, especialista em gestão ambiental e remediação de solos e águas contaminadas e professor de Engenharia Ambiental e Sanitária da Universidade Federal de Santa Catarina.

Outra polêmica que assombra os consumidores de águas minerais engarrafadas envolve uma substância que alguns tipos de plástico liberam quando aquecidos pelo sol (por exemplo, durante o transporte e o armazenamento), o Bisfenol A. Faltam estudos que comprovem os efeitos da substância, mas a suspeita levantada por pesquisas com animais em laboratório é de que o BPA, como também é conhecida, pode aumentar ou diminuir a ação de vários hormônios.

Abrindo a torneira

Essas incertezas fazem com que muitos considerem o consumo da água de torneira para além de banhos e limpeza doméstica. Francisco Campos não vê grandes problemas: “Em cidades cujo fornecimento público esteja bem estabelecido, o tratamento feito é suficiente para que a água seja consumida sem restrições, e isso é monitorado pelos órgãos de fiscalização ambiental dos estados. A água é filtrada em casa geralmente para remover partículas de argila que se acumulam nos canos e o gosto de cloro remanescente do tratamento. Já a água mineral não passa por nenhum tratamento, sendo envasada diretamente da maneira em que foi extraída do aquífero”.

Para ele, o baixo teor mineral das águas brasileiras não propicia diferenças entre o consumo da água mineral e de torneira em termos práticos. “O que se tem discutido recentemente é que a água de fornecimento público, por geralmente ser de captação de rios que também recebem os efluentes – tratados ou não – de cidades, pode conter hormônios e outros compostos orgânicos que não são removidos no tratamento convencional. Já a água mineral, em teoria, é extraída de aquíferos que não entram em contato com efluentes e estariam livres desses compostos”, considera.

Já Fernando Soares sugere equipamentos para a melhoria da qualidade da água para o consumo doméstico, como sistemas de tratamento com microfiltração e adsorção por carvão ativado, facilmente encontrados no mercado. Ele também lembra que em diversas partes do mundo foram feitas campanhas para que se deixasse de consumir água mineral em garrafas. “Do ponto de vista ambiental, o uso de garrafas plásticas para água mineral é desaconselhável, pois gera uma enorme quantidade de resíduos, difíceis de serem gerenciados pelo município”, avalia.

O consumidor deve procurar se informar junto ao órgão responsável pelos serviços públicos de saneamento básico em sua região quanto a excessos na incidência de cloro na água que recebe em casa. Reconhecidamente cancerígeno, o elemento pode ter esse efeito minimizado com a fervura da água. O mesmo vale para o flúor, que pode ser importante para a prevenção de cáries na dentição humana, desde que não exceda o nível de 1,5 mg/L; acima disso, oferece perigos para a glândula pineal, localizada no centro do cérebro, e, como consequência da fluoretação, pode acarretar em acúmulo de alumínio no sistema nervoso, levando a doenças como o Alzheimer.

No decreto-lei número 7.841 de 8 de agosto de 1945, o então Presidente da República, Getúlio Vargas, classificou como águas minerais “aquelas provenientes de fontes naturais ou de fontes artificialmente captadas que possuam composição química ou propriedades físicas ou físico-químicas distintas das águas comuns, com características que lhes confiram uma ação medicamentosa.” As “águas de mesa” seriam simples águas potáveis, sem ações medicamentosas. Qualquer que seja a opção, a regra que é ensinada às crianças desde cedo ainda vale: uma vida saudável passa pelo consumo diário de ao menos dois litros de água – preferencialmente, de qualidade. Poetizado na música popular por compositores como Guilherme Arantes e Dominguinhos, o líquido da vida, por motivos que vão do meio ambiente à saúde, é cada vez mais motivo de preocupação.

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