O destino da capital paulista

Como a falta de água pode mudar o cenário da maior metrópole do país

Foto: Kilian Glasner/Divulgação da Exposição "Frestas"

Foto: Kilian Glasner/Divulgação da Exposição “Frestas”

Por Amanda Casemiro de Freitas

O que não faltam a respeito da crise hídrica em São Paulo são previsões. A água, desta vez, deveria acabar em março deste ano; mas as recentes chuvas sobre o Sistema Cantareira fizeram subir a cota do volume morto — no dia 24 de fevereiro, a segunda cota se recuperou, mas nada de voltar ao chamado “volume útil”— e a preocupação passou a ser sobre a adoção ou não do rodízio “5×2” (cinco dias sem abastecimento de água para dois dias com).

Mas e se água realmente acabar no estado mais populoso do país?

QUEM SAI

A migração forçada é uma possibilidade. De acordo com o professor José Francisco do Prado Filho, chefe do Departamento de Engenharia Ambiental da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), embora seja pareça soar óbvio, a Amazônia não seria o principal destino. “Apesar de ter muita água disponível, é uma região com pouca infraestrutura de saneamento e viária”, afirma.

Para o professor Adriano Duarte, do Departamento de História da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a tendência da população é procurar por locais que não estejam sofrendo com a falta de água — como algumas cidades do interior do estado. “Se não fosse esse o problema, suponho que, de modo geral, as pessoas voltassem para seus estados de origem”, diz.

O êxodo populacional é uma realidade histórica no Brasil. E São Paulo é o mais conhecido dos destinos das migrações internas. Os motivos são muitos: maiores oportunidades, mercado de trabalho maior e mais competitivo, melhora da qualidade de vida; e quem vem do Nordeste costuma fugir da seca. A diferença entre a seca do Nordeste e a do Sudeste é que, enquanto a falta de água sempre se fez uma realidade para o primeiro — e permitiu que a população, de alguma forma, se adaptasse —, o segundo estava acostumado com a abundância de recursos.

Recursos estes que não são infinitos em nenhuma região do país. E seriam apenas um dos problemas que a população enfrentaria ao decidir migrar. “Qualquer região que recebe imigrantes “refugiados da falta água”, coisa que o Brasil não conhece profundamente, sofre problemas com o aumento da pressão sobre serviços básicos, oportunidades de trabalho, inflação e pressão sobre os recursos ambientais”, relata o professor José Francisco.

Mas nem todos os habitantes de São Paulo partiriam em busca de maiores possibilidades hídricas. “Os primeiros a ter condições de sair são os que possuam recursos [financeiros] para fazê-lo. Neste caso, os mais afetados seriam os de sempre: os mais pobres”, afirma o professor Adriano Duarte.

QUEM FICA

Sem previsões de que a situação hídrica melhore, a tendência é piorar. Caso seja preciso adotar o temido sistema 5×2, forçando as torneiras a passarem mais tempo fechadas, o risco de contaminação da água é grande. A informação foi confirmada pela Companhia de Saneamento Básico de São Paulo (Sabesp) no final de fevereiro. A despressurização da rede pode fazer com que água contaminada pelas redes de esgoto passe por entre os canos, e surtos de disenteria seriam comuns, como afirmam especialistas.

Com água de qualidade duvidosa saindo das torneiras, o comércio de água mineral seria impulsionado pela necessidade da população. E os preços começariam a subir — não apenas pela lei da oferta e da procura, mas incluindo o processo de industrialização da água e a logística para trazê-la de fora do estado. O preço médio de uma garrafa de água de pouco mais de meio litro, hoje, gira em torno de R$2,50; o consumo seria insustentável para a parcela da população que vive apenas com cesta básica e um salário mínimo.  E o preço dos alimentos seria outro problema. Chovendo menos sobre o estado, toda produção é afetada de modo geral — e o reflexo acaba no bolso do consumidor.

Consumidor este, por sua vez, que corre o risco de ser demitido. Os trabalhadores seriam os primeiros a sofrerem as consequências do rodízio. De acordo com um estudo publicado pelo Banco Itaú, o racionamento de água e energia previsto para este ano deve fazer o PIB brasileiro cair 0,6%. Com uma atividade econômica menor, menos empregos. Segundo a Associação Comercial de São Paulo (ACSP), 42% de 438 empresas consultadas em pesquisa realizada pela entidade pretende demitir funcionários caso a situação não melhore. E quem permanecer empregado pode acabar ganhando um dia a mais de folga de semana — o que não necessariamente pode ser bom, já que a maioria das opções de lazer estariam fechadas por conta da falta de água.

O governo de São Paulo, no entanto, vem tentando a todo custo não decretar o rodízio este ano. O presidente da Sabesp, Jerson Kelman, por outro lado, não é muito otimista: “Não estou afirmando que não terá rodízio, pois o cronograma pode atrasar e o cenário pode ser pior do que estou imaginando”.

Só resta esperar — e, quem sabe, rezar para que São Pedro dê uma forcinha nos próximos meses do ano.

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